COMPARTILHE
Reprodução: The Mist

Na mitologia cristã, os quatro cavaleiros do apocalipse seriam a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte. Talvez inspirado pela simbologia do número quatro — ou, mais plausivelmente, tentando responder aos quatro “grandes” empresários que minimizaram o número de mortes causadas pela pandemia do novo coronavírus, como se as perdas humanas fossem irrelevantes em detrimento dos impactos econômicos —, o presidente Jair Bolsonaro, em seu pronunciamento na última terça-feira (24), colocou-se como mensageiro do quarteto de bestas (se as apocalípticas ou as econômicas, entendam como convier) numa profecia só.

O discurso genocida de Bolsonaro não foi de improviso. Foi escrito por alguém, cuidadosamente revisado, feito para ser devidamente lido em rede nacional. Como apontado por um sem-número de analistas ontem (25), houve cálculo em sua fala, embora os fatores envolvidos e o produto resultante disso ainda não tenham sido mensurados com exatidão.

A hipótese mais comentada foi a de que se tratou de uma espécie de “abraço de afogado”. Bolsonaro saberia que, ao escancarar sua completa incapacidade de governar, perdeu terreno e respeito e, por isso, teria tentado se agarrar ao último resquício de apoio: o de uma parcela empresarial que contribuiu para sua eleição. E não apenas os tais “grandes”, preocupados apenas com os próprios lucros milionários, mas também médios e micros, apavorados com a ideia de falência caso a quarentena se estenda.

Não por acaso, para tentar se aferrar ao delírio que ainda resta, sua rede de bots foi reativada ontem na internet, colocando tags de apoio entre os tópicos mais comentados do dia. O golpe, segundo apontado por comentaristas políticos, seria atribuir a responsabilidade por qualquer crise econômica aos prefeitos e governadores, abandonados pelo governo federal nas tentativas de conter, por conta própria, uma disseminação ainda maior do vírus.

De todo modo, o que tanto a fala de Bolsonaro quanto as medidas adotadas por ele e sua equipe econômica fazem é privilegiar o lucro em detrimento da vida. No domingo à noite, tira o salário da classe trabalhadora por quatro meses por meio de medida provisória. A proposta, obviamente, provoca comoção geral e precisa ser revogada na segunda-feira. Já na terça, convoca os trabalhadores de volta a seus postos. A intenção é a mesma.

Embora o artigo que tratava da suspensão de contratos e salários tenha sido retirado da MP 927, sua perversidade continua. Em seu Artigo 2°, a medida provisória estabelece que, durante o estado de calamidade pública, “o empregado e o empregador poderão celebrar acordo individual escrito, a fim de garantir a permanência do vínculo empregatício, que terá preponderância sobre os demais instrumentos normativos, legais e negociais, respeitados os limites estabelecidos na Constituição”. Isso implica dizer que o empregador pode assinar o que quiser, dispensado de cumprir quaisquer normas como as negociações coletivas e a própria Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Em outras palavras, a MP continua permitindo a suspensão de salários mediante suposto acordo entre empregador e empregado, numa negociação marcada pela desigualdade de forças e pela pressão do capital.

O pronunciamento de Bolsonaro pode até ter contrariado pessoas entre os próprios empresários, que, também conforme apontado por analistas de imprensa, teriam ficado descontentes com o clima de insegurança criado por sua fala. A MP, no entanto, segue a não contrariar nenhum deles, porque os beneficia diretamente, jogando todos os prejuízos nas costas da classe trabalhadora, já profundamente vulnerável. O discurso de Bolsonaro foi, sim, uma ameaça de atirar o povo brasileiro à Peste, à Guerra, à Fome e à Morte. Não se pode esquecer, porém, que a Medida Provisória 927 é uma de suas formas de concretização.

Por Táscia Souza

COMPARTILHE

RESPONDER PARA:

POR FAVOR ENTRE COM SEU COMENTÁRIO!
POR FAVOR ENTRE COM SEU NOME