ARTIGO: A educação e a unidade latino americana** | Por Conceição Fornasari

Por Conceição Fornasari*

Nas cenas finais do filme de Walter Salles Jr, Diários de Motocicleta, Che Guevara, ainda Ernesto Guevara de la Serna, estudante de medicina,  profere  um discurso,mais atual do que nunca. Fala da divisão artificial da América Latina, enquanto comemora seu aniversário na colônia de leprosos em San Pablo, no Amazonas, onde ressalta “… que nós, latino americanos, somos parte de uma única raça, parte do mesmo continente – do México ao estreito de Magalhães”.

Na preparação do roteiro desta película ouviu-se de Alberto Granado, seu companheiro de viagem, o que ainda hoje ocorre “… como a maioria dos argentinos daquela época, nós sabíamos mais sobre gregos e os fenícios do que sobre os incas e a América Latina. Não sabíamos realmente onde ficava Machu Picchu.”
No século XXI um adesivo do Conadu( Federação Nacional dos Docentes Universitários da Argentina) destaca: “ Da derrota da ALCA à UNASUL”, demonstra o significado de nossa importante vitória no início do século XXI.

 

Algumas indagações remetem-nos a estes dois fatos aparentemente isolados, para nós, professoras e professores do Brasil: o que fazemos em busca da unidade latino americana em nossos espaços pedagógicos, culturais e políticos acerca de tão importante temática? De que modo valoramos nossas culturas, nossos idiomas- o castelhano e o português¿

A Contee- Confederação dos trabalhadores em Educação entende este como um dos temas prioritários e participa ativamente de vários encontros com representantes dos países deste imenso continente, chamado por  muitos  de “continente da esperança”.

Em sendo assim, no mês de novembro participamos em Buenos Aires, de dois importantes eventos: nos dias 07 e 08  da “ III Reunião Latino Americana de Sindicatos da Educação Superior”, promovido pela Internacional da Educação para America Latina e pela Federação Nacional dos Docentes Universitários da Argentina, bem como do “III Seminário Latino Americano de Educação Superior” no dia 09 do mesmo mês, organizado pelas duas entidades citadas e pela Clacso- Conselho Latino Americano de Ciências Sociais, com o tema “A Universidade Latino Americana-chave para uma reforma democrática”

Pela primeira vez a Fepesp -Federação dos Professores do Estado de SP e dois sindicatos se fizeram presentes –o Sinpro São Paulo e o Sinpro Campinas, na delegação da Contee. Do setor público o  Proifes ( federação dos professores das instituições federais), formando a comissão mais numerosa do evento.

 

Professores, dirigentes sindicais, representantes de estudantes, de reitores, ministro de Estado da Argentina, secretaria da Unasul,de países como Brasil, Chile, Costa Rica, Uruguai, Venezuela, Peru, Espanha e Inglaterra apresentaram conferências, participaram do profícuo debate e levantaram estratégias de ação regional.

Dos diferentes países chegam-nos resumidamente a realidade do ensino superior e das principais mazelas do povo. Passamos a elencar alguns dados da maior significância, sem pretensão de enumerá-los ou discuti-los em toda sua abrangência.

 Do Brasil os dados do ensino superior privado preocuparam a todos pelos quase 80% dos alunos freqüentando escolas privadas  e apenas 20% as IEs públicas e da mercantilização da educação. Destacam-se o aumento de instituições públicas federais e políticas de inclusão, mas assim mesmo ainda temos situação diametralmente oposta da Argentina, local em que todos os jovens tem acesso a este nível, mas não incólumes de problemas,com a grande evasão dos alunos e mesmo a necessária melhoraria  da formação docente.

 Do Peru chama nossa atenção a ausência de uma política de Estado e a educação pública colocada a serviço do mercado; do Chile a situação política e econômica que colocam o ensino superior ” de mal a pior”, com setores privados cada vez mais subvencionados, tornaram-se um dos negócios mais lucrativos do país, abaixo apenas da telefonia e dos bancos, onde não há mobilidade social de forma alguma.

 

Mudando o continente, sem diminuir a grave situação- da Espanha ao estabelecer as relações da crise européia ao afetar diretamente o sistema universitário, com a terceirização de serviços, inclusive de bibliotecas,  rebaixamento de salários, entre outros; da Inglaterra a confirmação de que os serviços públicos, entre eles a educação tornam-se negócios,pasmem- a proibição de cursos de artes e humanidades, impedimento do ensino de  Sociologia nos cursos de Engenharia, afinal servem ao mercado de que modo¿

Dentre a realidade apontada pelos participantes dois grandes desafios  apresentam-se para o debate- o papel da universidade- a quem ou a quê ela serve, como democratizar o acesso, garantir a permanência, como impedir que seja mais um negócio, como cambiar a situação dos países que clamam por democracia e ao mesmo tempo o significado da integração latino americana.

 

Ao resumir as palavras de Landenelli, da universidade da República do Uruguai, podemos dimensionar o tamanho dos desafios. A partir da demonstração do ranking mundial da qualidade aparecem instituições superiores de “prestígio internacional”, ( tão caros para a mídia nacional),como catálogos no mercado global,  para atender as demandas do capital, com a produção e posse do conhecimento, como instrumento e capacidade de lucro,num monoculturalismo global para uso privado dentro e fora de seus países.

Este não é o modelo que buscamos para a universidade da America Latina, herdeira de um modelo de atendimento das elites. Para nós que a pleiteamos com um projeto inclusivo, de produção científica e tecnológica, cujo principal desafio deva ser o atendimento das demandas do povo na busca do desenvolvimento social e produtivo sustentável que promova o acesso ao saber e à educação avançada e à uma nova sociedade!

Nas reflexões do reitor da Universidade Arces do Chile, que encerrou o evento, o mundo acadêmico deve “… desenvolver seu trabalho de pesquisa e docência de maneira reflexiva, critica e comprometida” e acrescentamos que  também atenda ao caráter pluricultural, multilíngüe do continente e que tenha como norte sua integração.

 

Preocupação constante de todos nós presentes nos eventos referidos, que no documento-síntese traça nossas políticas e a continuidade do debate no IV Seminario ocorreerá em 2012, tendo a Contee como membro da comissão organizadora que já se encontrou em Bogotá no início de dezembro. 

 

*Professora da Unimep, Diretora da Fepesp e do Sinpro Campinas e Região.

**Relevante lembrar algumas instituições da luta incansável pela integração- sonhos de Bolívar, de Marti, de Che e de tantos outros: Mercosul- Mercado Comum do Sul ; Unasul- União dos países da América do Sul; Alba- Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América.

Neste início de dezembro, a III Cúpula da América Latina e do Caribe marcou a efetiva criação da Celac- Comunidade dos Estados Latino Americanos e Caribenhos,formando  um bloco de 33 nações imbuídas da integração, “sem subordinação ou tutela”, em contraposição da Doutrina Monroe, imposta sob a hegemonia de um país sobre os demais.

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