Bolsonaro entrega ‘monitoramento’ da Amazônia a bilionário dos EUA

“Mito” rasgou soberania nacional e desprezou tudo o que já é feito pela ciência e a tecnologia brasileiras. Trabalho do INPE no Norte é referência no mundo. Militares não foram ouvidos sobre o que esta decisão representa para a segurança da região

Em sua tietagem ao bilionário americano Elon Musk, Jair Bolsonaro abriu mão da soberania do país e entregou a ele o monitoramento da Amazônia. Desprezou totalmente o que já é feito pela ciência e a tecnologia nacionais e pelos militares brasileiros na região. O Brasil já possui um sistema e tem dados suficientes para direcionar sua fiscalização contra o desmatamento da Amazônia. Decisão foi tomada sem que ninguém tivesse sido ouvido a respeito.

O anúncio sem detalhes, feito nesta sexta-feira (20) num regabofe organizado em hotel de luxo do interior de São Paulo, de que o bilionário Elon Musk pretende usar sua rede de satélites Starlink para monitorar a Amazônia e conectar 19 mil escolas em áreas rurais foi recebido com ressalvas por especialistas que acompanham o enfrentamento do desmatamento no Brasil. A Starlink, empresa de Musk, é uma divisão voltada para o fornecimento de internet via satélite.

Bolsonaro rasgou a soberania nacional

O Brasil já possui tecnologia de ponta e dispõe de dados suficientes para direcionar sua fiscalização contra o desmatamento. Desde 1988, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, recebe e processa os dados sobre perda de floresta. As imagens são obtidas via satélite e o nível de precisão é de 95%, segundo o próprio instituto.

A oferta de “conectividade” feita por Musk não tem impacto direto no rastreamento da devastação, afirmam os especialistas. “Monitoramento a gente tem e é de qualidade. O que a gente não tem é governo. Não adianta a gente ter a informação e não ter quem aja, tome ações em cima da informação”, afirma Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

“(Os equipamentos de Musk) são satélites de comunicação. (…) Não são satélites óticos, eles não conseguem enxergar coisas na superfície, no território, o que é usado para fazer monitoramento do desmatamento”, explica Tasso Azevedo, coordenador do Mapbiomas e especialista em monitoramento ambiental, em entrevista ao G1.

O que se pergunta: “se não é para proteger a Amazônia do desmatamento, o que Elon Musk estará esquadrinhando na região norte do país, que é rica em biodiversidade e recursos minerais?

Sobre o Sistema de alertas de desmatamento oficial, o Brasil já dispõe do Deter-B, do Inpe, de monitoramento diário, e o sistema Prodes, de periodicidade anual. Possui também o Sistema SAD, do Imazon, que faz monitoramento de um período de 30 dias. E, por fim há o Sistema do MapBiomas, que faz monitoramento anual de cobertura e uso do solo. “Não é por falta de achar desmatamento e monitorar, que a gente não tem fiscalização e controle do desmatamento. Pelo contrário, o que falta é essa parte da fiscalização e do controle”, afirma o coordenador do Mapbiomas.

Alunos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), atentos aos riscos de perda de soberania, perguntaram a ele sobre como as operações da Starlink na Amazônia ajudariam no monitoramento e proteção da floresta. Ele obviamente disse que seu sistema é um espetáculo: “Sobre proteger a Amazônia, temos que usar os dados, porque a Amazônia é gigantesca. Se você tentar fazer um monte de fotos e vídeos para entender o que esta acontecendo, a quantidade de dados a ser transmitida será enorme, então, precisamos dessa conectividade para monitorar a Amazônia efetivamente”, disse Musk.

Com histórico de mais de 4 décadas de atuação na área ambiental, Gilberto Câmara afirma que o Brasil já tem um monitoramento que “é dito pelos americanos como a inveja do mundo”. Câmara foi diretor do Inpe entre 2005 e 2012, e diretor do órgão das Nações Unidas que trabalha com observação da Terra (Group on Earth Observations, em inglês) de 2018 a 2021. Ele coordenou a implementação do sistema Deter.

Segundo ele, “um grande volume de dados – onde estão e quando ocorreram os crimes – já existe. Receber mais dados locais pode ser positivo, mas, na verdade, o que faltaria é a garantia de que as informações são confiáveis”. “O Brasil é 1º no mundo nessa área”, atesta Gilberto Câmara.

“O monitoramento feito aí tem o respeito de todos países que integram o GEO. Todo o mundo conhece a seriedade do trabalho do Inpe. Ela é reconhecida no Japão, na China, nos Estados Unidos, na Rússia… É uma coisa que ninguém questiona”, argumenta.

GEO é sigla para Group on Earth Observations (Grupo de Observações da Terra), além de significar “terra” em grego. Ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), o organismo promove o compartilhamento de dados e modelos focados no desenvolvimento sustentável e no enfrentamento das mudanças do clima e desastres naturais. De acordo com Câmara, o destaque do Brasil e do Inpe no sensoriamento ambiental não se restringe à parte operacional, do uso e calibragem dos satélites – também passa pela análise de imagens e pela formação de pessoal na área.

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