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Por José Geraldo de Santana Oliveira*

Vitor Hugo, romancista francês do século XIX, na obra que o consagrou — “Nossa Senhora de Paris”, de 1831”, traduzida para o português com o título de “O Corcunda de Notre-Dame” —, afirma que a imprensa é o maior acontecimento da história da humanidade, e que é a mãe de todas as revoluções.

O que já era patente quando foi pronunciada, os 189 anos que separam a sentença de Vitor Hugo e os dias atuais (1831-2020) cuidaram de reconfirmá-la. Graças aos meios de comunicação, frutos da imprensa, que se modernizam a cada dia, os ideais de liberdade, de bem-estar e de justiça-sociais ganharam as dimensões universais, promovendo radicais transformações sociais e políticas.

Todavia, a imprensa, paradoxalmente, tem igualmente se constituído em mãe de inúmeras reações regressistas — termo que caracterizava os políticos avessos às liberdades políticas no período regencial brasileiro (1831-1840).

Sabedores de que o poder da imprensa é imensurável, todos os governantes avessos às múltiplas faces da liberdade, sem a qual não há ordem democrática, sempre buscaram e buscam fazer dela o porta voz de sua ideologia retrógrada, veiculando os seus interesses e as suas falaciosas propagandas com a nefasta finalidade de capturar a mente das grandes massas.

Assim foi com o Ministério da Propaganda criado pelo nazismo em 1933, e que esteve sob a direção e controle de Josef Goebbells até a derrocada desse cruel e desumano regime, em 1945. Também com o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) criado por Vargas, em 1939, para difundir a ideologia do “Estado Novo”. E ainda com a Assessoria Especial de Relações Públicas (Aerp), criada em 15 de julho de 1968, pelo nada saudoso regime militar.

Além das agências oficiais, os inimigos do povo — parafraseando o imortal escritor russo Máximo Gorki, na sua belíssima peça de teatro “Os inimigos” — contaram e contam com os jornais impressos e falados, com os canais de rádio e televisão e, agora, com as chamadas redes sociais como aliados de primeira hora e de crucial importância para a divulgação de suas ideologias, a distorção de atos e fatos e, com assustadora frequência, a fabricação de acontecimentos falsos, que destroem reputações, pessoas, entidades e até empresas, como bem ilustram a Guerra de Canudos e o caso Dreyfus, ambos na última década do século XIX. E, não raras vezes, para a criação de falsos mitos de pés de barro, como o foram Jânio Quadros em 1960, Collor em 1989, e Bolsonaro em 2018.

Destarte, a comunicação exerce decisivo papel na guerra de classes. Não é por outro motivo que o capital investe milhões na compra dos principais canais que a realizam, para que omitam e falseiem ideias e dados e, principalmente, para que a desenvolvam com tal arte que seja capaz de iludir o povo, capturando a sua mente, anestesiando-o e o imobilizando.

As campanhas desse jaez contam-se às dezenas, às vezes às centenas, como, por exemplo, a do golpe do impeachment, a da Emenda Constitucional (EC) 95 (que congelou os investimentos sociais por 20 anos), a da reforma trabalhista (Leis Ns. 13.429 e 13.467, ambas de 2017), a da prisão de Lula, a da eleição de Bolsonaro, a da reforma da Previdência Social.

É fato que a ordem democrática triunfou em dezenas de campanhas bem-sucedidas, como a da anistia, a do fim do regime militar, a da assembleia nacional constituinte, a das eleições presidenciais de 2002, 2006, 2010 e 2014, a do Plano Nacional de Educação (PNE), instituído pela Lei N. 13.015/2014.

Porém, também é fato que, desalentadoramente, nos últimos anos, somente as sórdidas campanhas de retrocesso político e social têm sido vitoriosas.

Nessa guerra, com poderosos quartéis, sem fronteiras e sem limites, do lado do capital, há absoluto desequilíbrio de forças, em prejuízo da comunicação democrática.

Para além da potência e do alcance dos meios que atuam em prol capital, que invadem todos os lares e mentes, a comunicação efetivamente democrática tem a gigantesca missão de primeiro desconstruir as propositais e poderosas falsidades disseminadas pelos seus detratores, para após, somente após, construir nova narrativa que seja capaz de desacredita-las e de, simultaneamente, resgatar a crença nos valores sociais democráticos, sem a qual não há luta massiva e, por conseguinte, vitória.

Em tempo de profunda descrença e acentuada desesperança, como o que flagela o Brasil nos últimos cinco anos, o campo para a disseminação de ideais regressistas e de falsas soluções é por demais fértil. Ao reverso, é absolutamente árido e quase improdutivo para a comunicação democrática, como são provas robustas o impeachment de 2016 e a desastrosa campanha eleitoral de Bolsonaro, em 2018.

Urge que sobretudo a comunicação sindical rompa as barreiras que a apreendem e retome o seu leito natural, que é o da estreita ligação com os milhões de trabalhadores. E agora com um desafio nunca dantes enfrentado, que é o da inclusão dos milhões de desempregados e informais, com contratos precários e/ou sem vínculo empregatício.

Nesses tempos sombrios, de sórdida e de, até aqui, vitoriosa campanha de desacreditação das entidades sindicais, a comunicação sindical torna-se muito mais árdua e desafiadora.

Primeiro, é preciso saber o que dizer e, principalmente, como dizer. A comunicação sindical que não der a devida relevância a essas duas cruciais questões não dispõe da menor possibilidade de atingir os seus objetivos, por si mesmos difíceis, como já anotado.

Mais do que nunca, é preciso não perder de vistas a fábula do rei que sonhou que perdeu todos os dentes, um a um, de forma sequencial e dolorosa. O primeiro mago que o decifrou, descuidadamente, disse ao rei, que não se tratava de um sonho, mas de um pesadelo, que significava que lhe morreriam todos os seus parentes, em dolorosa sequência. O segundo mago, prudente e sereno, fez a sua revelação de modo indireto; disse que ao rei que ele teria vida longa, sobrevivendo a todos os seus parentes. Na fábula, o mago que o revelou, de forma crua e direta, levou nada menos que cem chibatadas; em compensação, aquele que o fez de forma inversa, foi agraciado com cem moedas de ouro.

Assim deve ser a comunicação sindical, que, em absoluto, pode começar dando ênfase direta às mazelas, à desfaçatez e aos vis propósitos do presidente da República e de seus ministros, sob pena de não merecer a menor atenção dos trabalhadores. Isso porque parte considerável deles continua embevecida e ainda acreditando que Bolsonaro fará bem ao Brasil. Em outras palavras: não acordaram de seu pesadelo.

A comunicação sindical precisa ter a prudência e a maestria recomendas por Paulinho da Viola a Benito de Paula na sua belíssima música Argumento, segundo as quais esse deveria agir como o velho marinheiro, que, durante o nevoeiro, leva o barco devagar.

*José Geraldo de Santana Oliveira é consultor jurídico da Contee

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