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Por José Geraldo de Santana Oliveira*

Parece que as diversas correntes sindicais já chegaram a um quase consenso sobre a premente necessidade de os sindicatos repensarem as suas ações, a começar pelas relações que mantêm com suas respectivas categorias, quer quanto ao contato direto, quer no tocante ao indireto, que se materializa por meio da comunicação sindical, impressa e/ou eletrônica.

Isso porque a prática atual, por múltiplas razões, acha-se superada pela cenário sócio-político adverso, que desafia os sindicatos a se reconstruírem sob novas bases, sob pena de aniquilamento, o qual, se se materializar, minará irremediavelmente os fundamentos do Estado Democrático de Direito, por quanto esse não se efetiva nem se sustenta em países com organizações sindicais débeis e incapazes de fazer frente à permanente e sem trégua guerra de classes, capitaneada pelo capital e os seus representantes.

É sabido que os médicos ciosos da relevância social da sagrada profissão que exercem por nenhum motivo prescindem do exame clínico, que se constitui na entrevista com os pacientes e no toque físico manual, em especial nas áreas corpóreas adoecidas.

Para esses profissionais, que dignificam o exercício da medicina, por mais sofisticados que sejam — e o são — os aparelhos e equipamentos médicos disponíveis, o exame clínico é indispensável, aliás, insubstituível, pois que ele, e só ele, é capaz de humanizar o tratamento médico e, até mesmo, de detectar doenças que a sofisticada tecnologia, paradoxalmente, não o faz.

Esse zelo médico, por suas boas razões já elencadas, faz-se igualmente imperioso nas relações sindicais. Nelas, patenteiam-se iguais fenômenos sociais: por mais que as tecnologias de informações e comunicações (TICs) mostrem-se eficientes, eficazes e ágeis nas relações sindicais, que com elas se potencializam e ganham dimensões jamais vistas, a entrevista, o olhar nos olhos e o aperto de mão, que se revestem de natureza personalíssima, são imprescindíveis e insubstituíveis.

Tal como ocorre no âmbito da medicina, as relações sindicais somente se humanizam por meio desses singelos e ímpares atos personalíssimos. Parafraseando Kant — para quem a teoria sem a prática é oca, e a prática sem a teoria, cega —, pode-se afirmar que relações sindicais que se cingem ao uso das TICs são cegas e infrutíferas, por prescindirem do, insista-se, insubstituível contato humano.

De outra parte, prescindir do adequado uso das TICs significa o retrógrado descolamento da realidade social; ou, dito de outro modo, nada mais é do que a inaceitável vã tentativa de fazer a roda da história rodar no sentido anti-horário, ou seja, rodar para trás.

Há, nas diversas regiões do país, provas inequívocas dos bons frutos produzidos por essa relação humanística e direta, levada a efeito por algumas centenas de sindicatos, que conseguem manter razoável percentual de sindicalização e a efetiva participação dos trabalhadores em suas assembleias e mobilizações. Isto não obstante o cenário completamente adverso, a crescente e incontrolável rotatividade de mão de obra, as altas taxas de desemprego, as dezenas de milhões de empregos precários e informais.

O Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas Limpeza, Asseio e Conservação e Condomínios do Estado do Ceará (Seeaconce), que, majoritariamente, representa trabalhadores terceirizados, a toda evidência pode ser incluído no rol dos sindicatos que conseguem dialogar com os seus representados e, por conseguinte, garantir sua efetiva participação nas atividades que desenvolvem, bem assim razoável percentual de sindicalização, nada menos que 30%, em média.

Os esteios dessa realidade, razoavelmente exitosa, são a unidade e o empenho da diretoria e o seu compromisso com a causa social, que a levam a cotidianas visitas aos locais de trabalho, entrevistando-se com os trabalhadores, olhando-os nos olhos e efusivamente lhes apertando as mãos, considerando como relevante cada crítica, cada anseio, cada demanda, aos quais sempre é dada a máxima atenção e respostas, ainda que negativa, para o momento.

Diariamente, de segunda a sexta-feira, ao raiar do dia e sem hora para encerrar, em Fortaleza, sete equipes, com dois diretores cada uma, visitam locais de trabalho, apertando a mão de cada trabalhador e os escutando, com toda a atenção e respeito. Ao final de cada visita, e/ou no próprio curso dela, quando há urgência, as demandas são repassadas aos diretores de plantão, na sede, para as providências cabíveis e necessárias.

Em cada cidade de médio e grande porte do estado do Ceará, há uma sub-sede, que conta a sua própria equipe de diretores, para as mencionadas visitas.

Ordinariamente, cada posto de trabalho recebe pelo menos duas visitas por ano, as quais que se repetem com frequência maior sempre que se tornar relevante e, incontáveis vezes, por demanda dos próprios trabalhadores, em regra, por atraso no pagamento dos salários, do auxílio refeição, do vale transporte, por falta de pagamento de verbas rescisórias ou por descumprimento de outro direito convencional.

As assembleias, ordinárias e extraordinárias são realizadas na capital e nas maiores sub-sedes, com ampla divulgação em cada posto de trabalho, pelas já referidas equipes. Em cada assembleia, o transporte de ida e volta, por conta do sindicato, é garantido a todos os trabalhadores. Por isso, salvo raras exceções, são sempre concorridas e participativas.

Vale registrar que este escriba, que assessora o Seeaconce há sete anos, apesar de residir em Goiás, viaja ao estado do Ceará pelo menos seis vezes ao ano, com a finalidade de ministrar cursos aos diretores e de os acompanhar em suas realçadas visitas aos postos de trabalho na capital e no interior. E, em cada um deles, sob a coordenação e mediação dos diretores presentes, participa de debates com os trabalhadores sobre os temas sociais, políticos e jurídicos que estejam na ordem do dia, tais como reforma trabalhista, previdenciária, sindical, campanha salarial etc. O certo é que nenhum tema relevante fica ausente das destacadas visitas e, claro, desses debates.

Semanalmente, a diretoria se reúne para avaliar o trabalho da semana anterior e traçar as metas e as ações da semana seguinte.

Com os novos desafios sindicais, o Seeaconce já programou, para a partir de fevereiro de 2020, inclusive, a realização de ampla campanha de sindicalização na capital e em todas as sub-sedes, que será discutida diretamente com cada trabalhador, a partir do indispensável aperto de mão e olhar nos olhos.

Claro que o Seeaconce tem consciência de que esse seu exitoso trabalho precisa ser mantido e ampliado, pois que ainda se acha longe de chegar ao patamar de muito bom. Todavia, igualmente, tem consciência de que esse é caminho, o que lhe falta é aprimoramento.

Por tudo isso, o exemplo do Seeaconce merece estudo e divulgação.

*José Geraldo de Santana Oliveira é consultor jurídico da Contee

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