América Latina resiste: globalizemos a luta, globalizemos a esperança

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Por Maria Clotilde Lemos Petta*

Montevidéu, capital do Uruguai, fez jus a sua insígnia de “Capital da Esperança” ao sediar a Jornada Continental pela Democracia e contra o Neoliberalismo, do dia 16 a 18 de novembro. O encontro reuniu milhares  de sindicalistas, camponeses, indígenas, ambientalistas, feministas e movimentos anti-imperialistas das Américas, na busca de alternativas ao neoliberalismo e em defesa da democracia no continente. Temas como a luta pela democracia, a soberania, a integração dos povos e a resistência ao livre comércio e às transnacionais foram alvos de debates em painéis, que formaram a base para a “Declaração de Montevidéu”, e aprovação do plano de luta. Esse exitoso evento foi uma importante demonstração de que as forças que lutaram contra os regimes militares, que derrotaram a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e que lutam contra o imperialismo estão vivas na América Latina e no Caribe.

Além dos debates e compartilhamento de experiências, pudemos vivenciar muitos momentos de grande emoção. Na Marcha Internacionalista, que deu início ao encontro, a participação entusiasmada dos trabalhadores e militantes do Uruguai, liderados pela PIT-CNT (Plenário Intersindical de Trabalhadores — Convenção Nacional de Trabalhadores), Central Única do Uruguai, contagiava a todos. No Ato Político da Marcha, um grande coro se formou para cantar a Internacional. Entre as intervenções, Vagner Freitas, presidente da CUT Brasil, além da sua saudação, levou uma mensagem  em áudio do ex-presidente brasileiro Lula que, convidado, não pôde estar presente. O painel “Seguimos em luta. Desafios frente à ofensiva conservadora e os ataques a democracia” teve como um dos debatedores o ex-presidente uruguaio Pepe Mojica, que como sempre emociona a todos com sua fala poética e inspiradora.

Foi marcante também a participação das mulheres. A delegação cubana foi composta por 16 mulheres dos seus 20 delegados. A batucada da Marcha Mundial das Mulheres animou e demarcou a força feminista. Cantando “Mulheres querem a terra, mulheres querem ser igual, mulheres querem o feminismo e o socialismo internacional”, cerca de 120 militantes da MMM do Brasil e de outros países da América Latina e dos Estados Unidos fizeram ecoar a luta feminista socialista e internacionalista por todo o espaço.

Bonita homenagem foi feita ao líder da Revolução Cubana Fidel Castro, um dos homens que mais se dedicou à integração dos povos do continente. No ato em sua homenagem, o estudante Dayán González, em nome da  Oclae (Organização Continental Latino Americana e Caribenha dos Estudantes), enfatizou que os jovens cubanos seguem tendo o legado de Fidel Castro e seu pensamento como guia: “Fidel está aqui, em nossas mentes e nossos corações. Ninguém pode pensar que Fidel está morto”. Ele nos ensinou que a unidade é o caminho. Se a Revolução triunfou foi porque conseguiu reunir todas as forças.

Partiu de uma mulher camponesa e artesã a fala que, no meu entender, sintetiza a luta por um desenvolvimento sustentável, muito destacado nesta jornada. A companheira Rosalia Tuyuc, da Cloc — Via Campesina da Guatemala, no painel com o tema “Resistências populares frente ao poder das transnacionais”, fez uma denúncia contundente do genocídio, com mais de 250.000 pessoas assassinadas, provocado pela chegada das transnacionais no seu país. E emocionou o público presente, levando alguns às lagrimas, quando defendeu a importância da unidade na resistência dos povos na defesa da vida de todos os seres existentes. “Somente unidos seremos capazes de frear e assegurar o direito à terra, à água, aos bosques e campos”. Finalizou sua fala levando todos os presentes a se unirem no coro: “¡GLOBALICEMOS LA LUCHA, GLOBALICEMOS LA ESPERANZA!” “QUE VIVA LA PARTICIPACIÓN DE LA MUJER Y DE LA JUVENTUD”. E encerrou com um desejo de “que os povos tenham paz e sejam felizes”.

A Contee, que prioriza na sua política internacional contribuir para o protagonismo dos trabalhadores na luta pela integração soberana e solidária da América Latina e do Caribe, participou da Jornada com uma delegação de diretores e sindicalistas de suas entidades de base. Com isso, teve a oportunidade de divulgar sua última campanha, contra a desprofissionalização dos professores, cujo mote é “Apagar o professor é apagar o futuro”. O material e as camisetas distribuídas foram muito bem aceitos, sendo muito elogiadas pelos participantes do encontro. Os cartazes escritos em inglês e espanhol foram entregues para militantes de muitos países, reforçando o caráter internacional da campanha.

Na “Declaração de Montevidéu”, documento final do encontro, são reafirmados os princípios de solidariedade e internacionalismo que unem os diversos movimentos sociais que lutam contra todas as formas de opressão e exploração resultantes do neocolonialismo e do modelo neoliberal da atual etapa do capitalismo. O documento ressalta a importância da Jornada como um processo amplo, diverso, plural e unitário e um espaço para articular as resistências e alternativas dos nossos povos. Destaca também que a construção da unidade dos mais diversos movimentos é uma condição para conquistar relações sociais igualitárias, solidárias com justiça social e ambiental.

Enfim, cabe considerar que nesse momento histórico marcado pela grande fragmentação e debilidade dos movimentos sociais, eventos como esse assumem uma grande importância para a necessária e urgente rearticulação das diversas alternativas e iniciativas populares no enfrentamento aos desafios colocados pela globalização neoliberal e pela atual crise econômica e financeira internacional. Como disse a companheira Rosalia Tuyuc, da Via Campesina da Guatemala: somente  unidos seremos capazes  de frear e assegurar o direito à terra, à água aos bosques e campos. Globalizemos a luta! Globalizemos a esperança!

*Maria Clotilde Lemos Petta é vice-presidente da CEA, coordenadora da Secretaria de Relações Internacionais da Contee e diretora do Sinpro Campinas e Região

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