Em defesa da mídia alternativa e democrática: fazer bom jornalismo em vez de ‘virar trincheira’

A Contee tem, reiteradas vezes, defendido a bandeira de que a comunicação é uma ferramenta não só essencial, mas também imprescindível na luta dos trabalhadores, das entidades sindicais e dos movimentos sociais na defesa de uma sociedade mais igualitária. No entanto, qual é de fato o papel da mídia alternativa – incluindo o jornalismo sindical, os meios de comunicação livres e comunitários, os blogs, a imprensa dos movimentos popular e social e os diversos veículos com uma proposta editorial contra-hegemônica – enquanto permanece pautada pelo que dita a imprensa tradicional?

Esse questionamento foi feito na noite de ontem (8) em São Paulo no debate “A arte da comunicação”, do qual participaram os jornalistas Maria Inês Nassif e Raimundo Pereira. O debate, mediado pela jornalista Renata Mielli, abriu o 1º Curso Nacional de Comunicação promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, com apoio de diversas entidades, entre as quais a Contee, representada ontem pela coordenadora da Secretaria de Comunicação Social, Cristina de Castro, pelo diretor da Plena Angelo Lacerda Rocha (integrante da pasta) e pela assessoria de imprensa da Confederação.Também estiveram presentes representantes de entidades filiadas à Contee.

Os dois jornalistas enfatizaram, em suas palavras, o jornalismo como luta política e o jornalismo como verdade, duas coisas que precisam andar juntas. “A grande arte é a política. Acho a política uma coisa das mais nobres. E o bom jornalismo pode ser um grande auxiliar da boa política”, considerou Raimundo. Contudo, como frisou Maria Inês, “a política foi apropriada pelos grandes órgãos de imprensa”.

“O jornalismo brasileiro até hoje vive a ilusão de que é possível reverter esse quadro construído quando a democracia já era um projeto pronto e acabado”, destacou ela. “Assim como aconteceu com os partidos políticos, a imprensa brasileira reafirmou seu rumo de direita. E fazer jornalismo na grande imprensa hoje (e nem sei por que insistimos em chamar de ‘grande imprensa’, por que isso ainda não ruiu), não é uma grande arte.”

 

Às exposições dos dois jornalistas, seguiram-se diversas intervenções, sobretudo no sentido de reafirmar a necessidade de subverter a imprensa tradicional através das mídias alternativas, aprofundando a apresentação do contraditório. Essa questão já havia sido abordada por ambos em suas falas. “A imprensa popular não pode pretender fazer um jornal igual à imprensa burguesa. A imprensa burguesa explora a ingenuidade popular”, salientou Raimundo.

Já Maria Inês apontou que “a radicalização da direita levou não a uma radicalização da esquerda – que precisa formar governos de coalizão -, mas a uma radicalização de quem lê”. “Os partidos políticos de direita não existem. Os jornais tradicionais assumiram seu lugar [dos partidos de direita]. Eles estão ganhando pela informação ruim, pois nós não estamos fazendo nem política partidária nem jornal.”

Segundo ela, é preciso fazer jornalismo em vez de simplesmente “virar trincheira”. “Toda a definição do jogo político quem está fazendo é a direita, porque a imprensa produz todo fato político ao redor do qual todos giram. A melhor forma de romper essa hegemonia da imprensa/partido político é voltar a fazer bom jornalismo.” Para isso, entretanto, como eles ponderaram, é necessário investimento, a fim de as mídias alternativas tenha condições de investigar e produzir seus conteúdos ao invés de continuarem a ser pautadas pelos órgãos de imprensa tradicionais.

Democratização

Pensar essa questão e buscar formas de romper com esse ciclo é justamente a proposta do curso promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, que segue até o próximo domingo (12). Logo na abertura do evento, ao falar do Centro de Estudos, fundado há três anos e batizado em homenagem àquele que é considerado o pai da mídia alternativa no Brasil, o jornalista Altamiro Borges, coordenador do Barão de Itararé, ressaltou os quatro objetivos da entidade: “fortalecer todas as lutas pela democratização da comunicação; fortalecer todas as formas de comunicação alternativas e contra-hegemônicas; ajudar na formação de comunicadores; e entender a realidade da mídia no mundo e no Brasil”. “É um curso que foi pensado de forma muito plural”, afirmou Altamiro. “Não é um curso de doutrinação, mas de municiar o trabalho de quem busca uma mídia democrática.”

Por Táscia Souza, de São Paulo

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