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Foto: Ricardo Matsukawa

Está circulando nas redes sociais uma pequena narrativa sobre um diálogo entre uma mãe e seu filho ou filha. Nela, a criança conta que a professora defendeu, em sala de aula,  a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, com erradicação da pobreza, da marginalização, das desigualdades sociais e de todos os tipos de preconceito, sejam eles de origem, raça, cor, sexo idade ou qualquer outra forma de discriminação. Quando a mãe, escandalizada, diz que a professora é comunista, a criança prontamente rebate: “Não, mãe, esse é o artigo 3° da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988”.

O princípio constitucional é justamente aquele que parece ter sido esquecido — para não dizer rasgado — pelos críticos da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) realizada ontem (4), que apontam uma suposta “doutrinação de esquerda” no tema da redação e nas questões de  linguagens e de ciências humanas. Se a proposta para o texto dissertativo-argumentativo focou num assunto bem atual, ainda mais passadas as eleições — a manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet —, as questões objetivas mais uma vez deram destaque aos temas sociais universais, incluindo feminicídio, racismo, ditadura militar, refugiados e até o dialeto pajubá, criado e usado por gays e travestis.

“O Enem se tornou a maior máquina de doutrinação ideológica” ou “Como funciona a doutrinação abusiva na educação” foram duas das frases disseminadas contra a prova. O estranho (para usar um eufemismo), porém, é que se considere como “doutrinação de esquerda” temas que, na verdade, tratam de cidadania, a mesma garantida da Constituição. Ao vociferar contra a prova com a mesma fúria com que perseguem professores, o que os defensores da censura e da mordaça nas escolas escancaram não é o posicionamento ideológico de quem acusam, mas o seu: elitista, racista, machista, homofóbico, contrário à própria concepção de cidadania.

A coordenadora da Secretaria-Geral da Contee, Madalena Guasco Peixoto, ressalta que o novo Enem representou um avanço na inclusão de jovens nas universidades públicas, bem como permitiu outras formas de acesso ao ensino superior aos trabalhadores e filhos de trabalhadores, uma vez que é através dele que são distribuídas as vagas do Programa Universidade Para Todos (ProUni). Lembrar disso é fundamental, principalmente num momento em que a gratuidade na educação superior pública se encontra ameaçada pelo governo eleito, assim como o próprio direito dos mais pobres à educação.

Além disso, é importante destacar que uma prova como a de ontem — frente à acentuação da perseguição ao magistério e aos ataques à liberdade de aprender e ensinar e ao pluralismo de ideias e concepções pedagógicas também garantidos na Constituição — é uma expressão de resistência; uma reafirmação de que a escola é um espaço de reflexão, de pensamento crítico e de formação de cidadãos e cidadãs.

Por Táscia Souza

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