Nereide Saviani abordou educação presencial em tempos de pandemia

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Reprodução/Imagem: Carlos Pompe

A terceira aula do curso remoto de formação “Educação do Brasil na atualidade”, ministrada na noite desta sexta (25) pela professora Nereide Saviani, abordou a “Educação presencial: aspectos psicológicos, relações sociais de alunos(as), professores(as), técnicos(as), família”. Celso Woyciechowski, da Secretaria de Saúde da Contee, coordenou os trabalhos. Os professores Gustavo Burla, do Sinpro de Juiz de Fora (MG), e Marta Regina, do Sinpro de Joinville (SC), leram, no início e encerramento dos trabalhos, poemas de Ademar Bogo, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

Mais de 80 participantes assistiram à aula de Nereide, que principiou pelo contraditório da situação: “Estamos falando da importância da educação presencial, através do meio virtual. Mas vivemos uma situação inusitada, mundialmente, diante de uma pandemia sobre a qual ainda não se tem um conhecimento profundo e que é de contágio perigosíssimo. No Brasil, isso é agravado pelo desgoverno Bolsonaro, que sequer ameniza a situação”.

Ela abordou o “histórico de relações pessoais, com encontros presenciais, conferências, assembleias, onde, além da pauta, são contempladas interações entre os participantes, inclusive com tendências antagônicas. A relação virtual modifica isso. O que defendemos sobre educação, sua democratização com ampliação de oportunidades de acesso e permanência dos trabalhadores e seus filhos nas instituições públicas; a garantia de qualidade socialmente referenciada em todos os graus, ramos e instâncias de ensino; e a participação democrática na gestão dos estabelecimentos e órgãos de decisão sobre ela, enseja lutas homéricas e esses aspectos estão, hoje, vilipendiados, descartados pela visão neoliberal que se impôs desde o golpe de 2016. Essa situação foi agravada ainda mais com a eleição do presidente Bolsonaro e seu ataque ao ensino e à sociedade democrática”.

A professora enfatizou que “valorizar a educação é mais do que valorizar o processo de transmissão do conhecimento, da cultura socialmente acumulada – sua base material e imaterial, suas múltiplas manifestações (valores, ética, arte, para além das relações de produção). Implica também na vivência das relações sociais, inclusive em suas diversidades. A escola é um espaço para a transmissão sistematizada dessa socialização. Ela tem que ser intelectual, física e técnica, preconizava Karl Marx. Intelectual, analisando a realidade como um processo histórico. Física, no sentido de que o ser humano tem que ser forte, belo e são, envolvendo ginástica, esporte, artes, ética etc. Técnica, hoje chamaríamos de tecnológica, formando o ser humano nos domínios mais avançados. A relação entre quem ensina e quem aprende é fundamental, pois é troca de experiência. A formação da mente se dá na relação social. Não é apenas transmissão de experiência, mas também afetiva, levando em conta capacidades humanas que precisam ser desenvolvidas – a escola propicia desenvolver isso de forma sistemática, para além dos limites das relações familiares. A relação professor aluno é a de seres humanos em estágios diferentes de seu desenvolvimento. Por isso, sempre que se questionou a educação presencial, foi ressaltado que a relação afetiva é também essencial – principalmente no ensino de base, mas não só nele”.

Porém, alertou, “na situação atual não é possível a aula presencial. A criança da pré-escola e das séries de base, o que perderá se parar o ano letivo? Ano letivo não é o ano de calendário, e a vida está em primeiro lugar. O ensino presencial é imprescindível, insubstituível, mas em situações de risco é preciso pensar alternativas. A escola é necessária para a sociabilidade, e isso não é compatível com o distanciamento social exigido pelas condições sanitárias atuais. Onde houve retorno das aulas presenciais, aumentaram a contaminação e as mortes”.

Abordando o trabalho remoto que os profissionais do ensino vêm realizando, Nereide acusou que “exigir, nestas circunstâncias, que o professor ministre o ensino remoto é exploração laboral! Ele não foi preparado para isso. Também não se pode sobrecarregar as mães e a família com o ensino – também não foram preparados para isso. Não se investiu em aulas na televisão, que as crianças assistem. É possível criar telecursos que podem amenizar a ausência do professor neste momento excepcional. O professor está tendo que produzir aulas virtuais ou sendo exigido que volte às escolas colocando em risco a sua vida e a vida dos outros. Há a preocupação de o estudante não perder o ritmo, mas isso não pode ocorrer sacrificando a saúde do próprio aluno e dos professores e demais profissionais das escolas”.

Ao final de sua exposição, a professora falou das dificuldades que os trabalhadores estão enfrentando na situação áspera vivida atualmente, e ponderou: “Não podemos permitir que a desesperança vire desespero, e a forma para que isso não ocorra é a ação coletiva diante das adversidades”.

O curso remoto de formação “Educação do Brasil na atualidade” está sendo realizado pela Contee em parceria com o Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho (CES) e com a Secretaria Nacional de Formação da Central Única dos Trabalhadores (CUT). O curso se encerra neste sábado, 26, com a aula sobre “Novos desafios colocados aos(às) trabalhadores(as) em instituições privadas de ensino relacionados aos direitos trabalhistas e à organização sindical”, com José Geraldo de Santana Oliveira e Ricardo Gebrim.

Carlos Pompe

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