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A identificação feita ontem (8), pela imprensa progressista, de dois dos três bolsonaristas que agrediram uma manifestante pró-Lula Livre, na Avenida Paulista, no último domingo, revela um dos paradoxos que tomam conta do Brasil hoje. O oficial de Justiça Jaderson Soares Santana, e seu companheiro, identificado como Eliezer, são um casal homoafetivo e constituem uma família com três filhos, pelo que indica o agradecimento escrito por aquele para este em sua dissertação de mestrado em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Fazem parte, portanto, de um dos grupos mais perseguidos não apenas por defensores de Bolsonaro, mas alvos de suas políticas de governo — haja vista as disparatadas e sucessivas declarações do presidente e de membros do alto escalão, como Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, para quem, aliás, a família de ambos não poderia ser considerada uma família.

Mesmo assim, os dois participaram da agressão contra uma mulher, também alvo de toda a discriminação e violência de gênero que bolsonaristas praticam. Além disso, é de causar outro espanto que Jaderson tenha feito sua pesquisa de mestrado sobre a obra de José Saramago, escritor português notoriamente conhecido não somente pela extrema qualidade de sua escrita literária, ganhadora do Prêmio Nobel, mas também por suas posições políticas de esquerda, completamente incompatíveis com o viés fascista dos admiradores do atual presidente do Brasil. Embora aterradora, porém, a incompatibilidade entre o pensamento do escritor analisado e do pesquisador que o escolheu como objeto de estudo é prova contundente de que a suposta “doutrinação marxista” nas universidades brasileiras, sobre cuja existência deliram tanto o recém-demitido ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, quanto o novo titular do MEC, Abraham Weintraub, não passa de uma mentira. Mais do que isso, a incoerência demonstra não só falsidade intelectual do agressor, mas também o que esperar de alguém que considera um mito um presidente que tem como parâmetro de intelectualidade um sujeito raso como Olavo de Carvalho.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino — Contee, entidade defensora da educação repudia a violência contra a mulher praticada na Avenida Paulista e exige rigorosa apuração desse crime e punição dos agressores. A Contee reitera também sua defesa do direito à livre manifestação e do Estado Democrático de Direito.

Brasília, 9 de abril de 2019.
Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino — Contee

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