O circo (de horrores) de Bolsonaro

Por José Geraldo de Santana Oliveira*

Tendo como base o romance de Charles G. Finney “O circo do Dr. Lao”, de 1935, o filme “As 7 faces do Dr. Lao”, dirigido por George Pal, a partir de roteiro de Charles Beaumont, lançado em 1964, traz como destaques: um velho sábio chinês, Dr. Lao, com nada menos que 7.322 anos, que se transforma em figuras mitológicas fantásticas — o Abominável Homem das Neves, Pã, Merlin, Medusa e Apolônio de Tiana —; um pequeno aquário que continha um também pequeno e exótico peixe que, após a quebra do recipiente, transforma-se em monstruosa serpente marinha; e a pequena cidade de Abalone, no estado do Arizona, EUA, ao início do século XX, dominada por um avarento e ambicioso fazendeiro, Clint Stark.

Pois bem! Mudando-se o tempo, o espaço e os personagens, tem-se o Brasil da terceira década do século XXI, sob Bolsonaro, que, ao reverso do sábio Dr. Lao, é inimigo da ciência e do saber e de tudo que é decente. Alguém que incorpora a avareza, a ambição e a falta de escrúpulos do fazendeiro Clint Stark com pretensões muito maiores, sendo a principal fazer do Brasil sua fazenda, tal como fazia outro tirano de igual jaez, Anastácio Somoza, que dizia ser a Nicarágua sua fazenda.

Ficando nu — tal como ficara o personagem do conto do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, de 1837, “A roupa nova do rei” — após a fracassada tentativa de consumação de golpe de Estado com as antirrepublicanas manifestações do dia 7 de setembro corrente, por ele orquestradas e regidas visando à impiedosa destruição da ordem democrática e das instituições que a sustentam, Bolsonaro viu-se encurralado e sem base de sustentação a não ser a das hordas que ele comanda, sendo convencido a fazer recuo tático, consubstanciado na patética “Declaração à Nação”, por meio da qual tenta vender a imagem de que, ao reverso do que ocorreu no citado filme, como num passe de mágica, a monstruosa serpente que sempre foi transformou-se no inofensivo peixinho, em forma de estadista e democrata, cheio de pudores e de boas intenções.

Um embuste sem precedentes!

Como era de se esperar, posto que nem nas histórias fantásticas, como a do realçado filme, joio se transforma em trigo, poucas horas após tal surreal “Declaração”, após dizer aos seus seguidores, de forma subliminar, que seu conteúdo tinha como escopo enganar aos incautos, voltando tudo à normalidade em dois ou três dias, não resistiu a tentação e voltou a atacar o ministro Roberto Barroso e o voto eletrônico. Importa dizer: despiu-se da máscara e retomou sua forma de monstruosa serpente terrestre.

Já no item 1 da declaração de falsa conversão em estadista democrata, Bolsonaro revela seu absoluto desprezo pela sociedade, ao afirmar desavergonhadamente que nunca teve intenção de agredir quaisquer dos poderes, quando não fez outra coisa cotidiana e repetidamente desde sua posse ao 1º de janeiro de 2019.

Eis o que diz esse item:

“1. Nunca tive nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes. A harmonia entre eles não é vontade minha, mas determinação constitucional que todos, sem exceção, devem respeitar”.

Para se tomar como séria e sincera essa desfaçatez de Bolsonaro, faz-se necessário transportar o Brasil real para a inusitada “Cidade Errada”, da obra infantil de Érico Veríssimo “Outra vez os três porquinhos”.

Nessa cidade, tudo acontecia ao contrário. Assim que a ela chegaram, os três porquinhos encontraram dois robustos cachorros munidos de tarugos de madeira se agredindo e, ao tentar separá-los, foram alertados de que eram amigos e nada mais faziam do que trocar carícias.

Nela, os bichos nasciam sábios e iam à escola para desaprender o que sabiam, ou, em linguagem popular, ficar burros, tudo a ver com a educação pugnada por Bolsonaro. Os talheres eram servidos nos alimentos, sendo comidos aqueles e preservados estes.

O item 4 é igualmente de esmerada desfaçatez e de pouco crédito à inteligência nacional, ao descaradamente dizer que suas palavras decorreram do calor do momento. Momento, ao que parece infinito, pois que começou, oficialmente, ao 1º de janeiro de 2019 e, até aqui, não teve um só momento de trégua.

Veja o que diz esse atentado à inteligência:

“4. Por isso quero declarar que minhas palavras, por vezes contundentes, decorreram do calor do momento e dos embates que sempre visaram o bem comum”.

Os outros 8 itens nada mais fazem do que debochar do Brasil e da ordem democrática. Acreditar neles e na sinceridade do presidente Bolsonaro exige daquele que o faz a negação de todos os valores republicanos, sociais, éticos e morais.

*José Geraldo de Santana Oliveira é consultor jurídico da Contee

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