O maior colapso da história do Brasil

Quase 3 mil mortes em 24 horas, mais de 280 mil mortos desde o início da pandemia e o maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil, segundo divulgado ontem (16) pela Agência Fiocruz, com 25 das 27 unidades da federação em estado em alerta crítico e apenas dois estados — Roraima e Rio de Janeiro — com nível de alerta médio quanto à taxa de ocupação dos leitos de UTI. Ainda assim, 22% dos ouvidos pela pesquisa Datafolha divulgada hoje (17) seguem aprovando o governo Bolsonaro. Provavelmente, o percentual corresponde àqueles presentes nos atos bolsonaristas ouvidos no último domingo em diversas cidades do Brasil, protestando contra as vacinas e as medidas sanitárias de prevenção e proteção da população tomadas pelos governos estaduais e municipais diante do agravamento da pandemia de Covid-19.

Nesse montante possivelmente estão os que defendem a abertura irrestrita do comércio sob o argumento de que “a economia não pode parar”, mesmo que grande partes dos municípios estejam em onda roxa devido ao agravamento da pandemia e aumento no número de contágios, internações e mortes. Estão também os que defendem o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e vociferam por uma intervenção militar, embora, paradoxalmente, em nome de uma suposta defesa de “liberdades individuais”, também defendam o não uso de máscaras. No balaio, uma miscelânea de bandeiras estapafúrdias, pró-vírus e pró-verme, que guardam uma semelhança: mais mortes. É isso que parecem querer. E por isso que parecem pedir. E é isso que parecem se esforçar para conseguir.

No setor educacional o cenário, lamentavelmente, não é diferente. Ontem (16), o professor Daniel Cara, ex-coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, sofreu censura e teve sua conta no Twitter suspensa por críticas ao governo e à postura negacionista em relação a Covid-19 e seus efeitos (leia aqui a nota da CNDE). O ataque não é apenas a Daniel Cara, mas também a: 1) qualquer pessoa que aponte o caráter genocida do governo Bolsonaro e seu projeto de extermínio; 2) aos educadores e educadoras que lutam pelos seus direitos e em defesa da saúde e da vida.

Sobre esse último aspecto, muitas têm sido as formas de ataques, em especial a pressão irresponsável pela volta às aulas presenciais, mesmo neste momento de sério agravamento da pandemia, e o assédio moral praticado por donos de escolas, que tentam culpabilizar professores e técnicos administrativos, além de deixá-los sob constante ameaça. A seção “Tá na rede das filiadas”, no Portal da Contee, têm trazido atualizações diárias dos sindicatos e federações da base da Confederação sobre as dificuldades enfrentadas.

Só hoje, três notícias chamam a atenção: em Macaé, o Sinpro Macaé e Região organizou um ato ontem (16) motivado pelo fato de que, no estado do Rio de Janeiro, a educação “foi classificada como essencial, abrindo precedente para que as aulas retornem para as salas de aulas no pior momento da pandemia sem, ao menos, apresentarem um calendário que inclua a comunidade escolar como grupo prioritário para imunização”. É importante destacar que a classificação “essencial”, neste caso, não significa dar à educação a importância, inclusive constitucional, que ela de fato tem, mas apenas contemplar os interesses econômicos do setor privado de ensino. No ato, o sindicato conseguiu que proposta semelhante para o município fosse retirada de pauta, o que não significa que ela possa voltar a qualquer momento.

Por sua vez, em São Paulo, a Fepesp denunciou que o patronal da educação básica alega “tecnicalidades e procedimentos burocráticos para atrapalhar o cumprimento da decisão judicial da 9ª Vara da Fazendo Pública no Tribunal de Justiça do Estado, que em sentença de 8 de março barrou atividades presenciais nas escolas enquanto durar a pandemia”. A federação tornou público ainda que os patrões também “não querem discutir as medidas de proteção de professoras, professores, funcionários, escolares e toda a comunidade acadêmica com medidas cuidadosas para a prevenção da contaminação pelo coronavírus”.

Já em Juiz de Fora, Minas Gerais, o Sinpro-JF divulgou nota alertando que, mesmo com os educadores extremamente extenuados e adoecidos, o sindicato patronal, numa atitude grotesca e desrespeitosa, a fim de pressionar pela retomada às atividades presenciais, rompeu, de forma unilateral, as negociações acerca da Convenção Coletiva de Trabalho, empurrando, com isso, os educadores para uma situação de vulnerabilidade e incerteza. “É importante deixar claro: OS EDUCADORES CONTINUAM TRABALHANDO, E MUITO, COM RESPONSABILIDADE E RESPEITO A SEUS ALUNOS E RESPONSÁVEIS! Repudiamos, veementemente, a atitude dos donos de escola, que dão importância máxima à vida… à vida de suas contas bancárias! EXIGIMOS RESPEITO E RETORNO ÀS NEGOCIAÇÕES!”, posicionou-se, em nota, o Sinpro-JF.

São apenas três exemplos repercutidos hoje, entre tantos pelo país, enfrentados pelas entidades filiadas à Contee. Todos com a mesma denúncia de chantagem, coerção e desrespeito à vida, que continuaremos denunciando e enfrentando. Enquanto essa pressão patronal e esse governo criminoso seguem, voltemos ao início, para que não se perca de vista: quase 3 mil mortes em 24 horas, mais de 280 mil mortos desde o início da pandemia e o maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil.

Por Táscia Souza

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