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Foto: Juan Barreto/AFP

Por Vítor Andrade*

A história já nos ensinou muito ao longo dos séculos com casos de calamidade pública, sejam causados pelas doenças, por catástrofes naturais, seja pelas guerras. Há um distanciamento entre ensinar e aprender, para isso não precisamos ir muito longe, ou usarmos exemplos de fora do Brasil.

A revolta da vacina, no início do século XX, foi uma demonstração clara de deveríamos ter aprendido e nos atentado para as condições mínimas e básicas de saneamento e higiene. Mostrou que, além disso, era necessária uma reforma urbana urgente, até mesmo porque não se fez uma reforma agrária quando deferia ter sido feita, por exemplo, na abolição da escravatura, cerca de 16 anos antes. Apesar de passados tantos anos, o contexto histórico, político e social não é muito diferente do que podemos ver e aprender nos dias de hoje.

A Covid-19 nos traz inúmeras reflexões, inclusive porque nos faz viver, novamente, situações que acreditávamos estar restritas ao passado. Um vírus que nos faz pensar, hoje, como foi a quarentena da gripe espanhola, como foi a organização social na revolta da vacina. A história consegue explicar através das fontes e dos fatos, mas não consegue externar como funcionou a cabeça das pessoas, seus medos e angústias, uma população não alfabetizada, sem telefone, sem celular, sem internet, sem saber o que acontecia com a familiares e amigos distantes, desinformada. Essa doença é um divisor de águas; através dela, trouxe à superfície uma observação mais acentuada do que é riqueza e pobreza, de luta de classes, de disputa política agravando ainda mais a polarização política do país. Separou fisicamente famílias, fez muitas pessoas reverem seus planos futuros. Essa fatura todos nós vamos pagar, mas precisamos pagar juntos, pois nessa divisão de águas foi possível também perceber a solidariedade, a fraternidade de milhões de brasileiros que estão se ajudando para juntos sairmos dessa pandemia vivos. Estamos todos nos reinventando, seja nas relações de trabalho, de convivência humana ou pelo simples fato de lavar as mãos constantemente.

Voltaremos dessa pandemia com muitos órfãos, nas escolas, no trabalho, nos templos religiosos, na vizinhança e logicamente muitas pessoas queridas deixarão para gente muita saudade. Mas o que aprendemos então disso tudo? Aprendemos que a democracia ainda é a melhor ferramenta social, que a vida deve sempre se sobrepor à economia, que a saúde é um bem inalienável e que o Estado precisa investir ainda mais nela, que a educação doméstica é fundamental e que professores são seres humanos e são a peça chave para fomentar todos os contextos abordados até aqui, pois o conhecimento

e a ciência podem nos trazer soluções magníficas para os dias vindouros. Aprendemos nesse período ciências, geografia, matemática financeira, economia doméstica e a nossa Constituição, que nos abre os olhos para o fato de que nenhum artigo dela é superior ou mais importante que o direito à vida.

E a história? A história esteve, está e estará sempre atenta e guardiã a tudo que acontece, esperando que em suas próximas manifestações sejam sempre a mais positiva possível, nos ensinando que não podemos cometer os erros do passado no tempo presente, pois o futuro nos aguarda. Que possamos sair dessa pandemia mais solidários, mais fraternos, mais politizados e conscientes, menos egoístas, e pensar que coletividade sempre vai estar acima da individualidade, que cifras não repõem vidas. Que os que virão olhem para trás e digam: eles venceram! Nós também vamos vencer quando outros

acontecimentos parecidos surgirem.

*Vítor Andrade é professor de história

Os textos da seção de Artigos são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente traduzem a opinião da Contee

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