Paulo Freire e a aposta na comunicação libertadora

Pesquisador da comunicação brasileira aponta: a obra do educador vai muito além da alfabetização. Ao desvelar a “cultura do silêncio”, intensificada pelo neoliberalismo, ele propunha o diálogo e a cultura como convites potentes à emancipação

por Rubens Goyatá Campante*

Venício de Lima em entrevista a Rubens Goyatá Campante, no podcast Prosa com Goyatá

O professor emérito da UNB Venício Artur de Lima lançou recentemente o livro “Paulo Freire: a prática da liberdade para além da alfabetização”, sobre a trajetória do notável intelectual brasileiro.

Um dos teóricos mais importantes da Comunicação Social no Brasil, Venício não só estudou a fundo Paulo Freire, tendo sido pioneiro em mobilizar a teoria e a prática do grande pensador em tal área, como foi amigo de Freire e de sua família. Aproximaram-se no final dos anos 1970, quando Freire, no exílio, leu a tese que o jovem Venício escrevera para concluir o doutorado na Universidade de Illinois, EUA: “As ideias de Paulo Freire na Comunicação e na Cultura”. Freire gostou tanto que escreveu a Venício dizendo que começara a ler e não parara antes de chegar ao fim.

O podcast traz uma entrevista com Venício sobre seu livro, sobre a permanente importância de Freire e sobre temas de comunicação e de política, precedida por uma introdução e entremeada por trechos de depoimentos de Freire e de sua viúva Nita Freire.

A introdução salienta que o elemento fundamental da opressão dos povos é sua incapacidade de ler e escrever, não só no sentido literal, mas no de ler a realidade e escrever/fazer a própria história, sendo esta a razão do ódio das elites brasileiras a Paulo Freire: seu objetivo sempre foi lutar contra esse alicerce da opressão.

Na entrevista, Venício explica por que Freire foi muito mais que um alfabetizador de adultos ou pedagogo. Salienta o lastro filosófico, religioso e amoroso de um pensador cujo maior comprometimento era com a liberdade e o aperfeiçoamento das pessoas e da sociedade – e como esse lastro ético é, mais que nunca, necessário hoje. Venício narra também como construiu, a partir da obra de Freire, seu conceito de “cultura do silêncio”, aplicado à experiência histórica do povo brasileiro, uma abordagem que reconhece a associação intrínseca entre política e comunicação. E, nesse sentido, avalia, ainda, as políticas de comunicação dos governos petistas, assim como a utilização que a extrema direita faz das redes sociais, ressaltando a relevância do legado de Paulo Freire para uma estratégia de posicionamento e de ação frente a tais questões.

Confira trechos da entrevista:

As razões do livro:

“Paulo (Freire), reiteradas vezes, manifestou certo desconforto e insatisfação pelo fato de que muitos que estudavam sua obra o considerava um criador de um método de alfabetização de adultos. Há quase 50 anos atrás, quando eu consegui aprovar um projeto de pesquisa para explorar o pensamento de Paulo Freire na área de Comunicação e Cultura, aquilo era absolutamente inédito. Já havia outros trabalhos que tiravam Freire da área de Educação, mas era na área de Religião, Teologia, Serviço Social, mas sempre tendo como eixo a discussão sobre o seu método. Eu tenho tentado, nos últimos anos, mostrar que essa redução apequena muito o que Freire fez e representa. E esse livro é uma tentativa de mostrar isso”.

A política como prática da liberdade:

“Tem uma frase do Antônio Cândido que diz que as contribuições de Paulo Freire é uma das contribuições humanistas mais significativas do século XX. A crença dele no homem era o ponto de partida. Essa crença no ser humano estava ancorada numa coisa também que, às vezes, não é devidamente levada em conta: de que ele não era um homem religioso, mas era um homem de fé. Ele gostava de citar uma passagem de [José] Ortega y Gasset [pensador espanhol] que fala que as ideias se tem e as crenças se está. Ele falava que não precisava fazer nenhum esforço para estar na crença dele, que era de uma lealdade e camaradagem com Cristo, mas o Cristo que ele via no rosto do oprimido quando ia para os alagados, para as periferias, para se encontrar com os camponeses. E ele completa que, por causa dessa lealdade e camaradagem, ele começou a se interessar por compreender o porquê as pessoas estavam naquela condição – e, ao fazer isso, ele encontrou Marx, que dava a ele os instrumentos para entender porque aquilo estava acontecendo. Ele diz que continuou com Marx na mundanidade e com Cristo na transcendentalidade. Ele bebeu de várias fontes”.

A “cultura do silêncio”:

“Uma obsessão do Paulo era compreender como aquelas pessoas podiam estar naquela situação [de injustiça social] e, num certo sentido, se conformarem em viver daquele jeito, algo que ele chamava de negação da liberdade. Mas é interessante que essa preocupação fez com que ele identificasse, primeiro, aquilo que ele chamou de mutismo de uma sociedade sem povo, sem experiência democrática, de uma população fatalista que falava ‘sim, senhor’ para o patrão e ‘amém’ para o padre. Uma população que acreditava que aquilo era o destino ou a vontade de Deus. Isso era uma coisa que incomodava a Paulo. Em um evento em Brasília, em outubro de 1996, ele dedica boa parte de sua fala para contar sobre isso de fatalismo – e que havia uma versão contemporânea de fatalismo na “inevitabilidade” que o neoliberalismo propunha para as coisas: é assim porque não tem jeito de ser de outra forma. A primeira ideia, portanto, que Paulo usa para identificar essa ambiência da opressão, onde habitava essas pessoas que viviam passivamente diante dessa realidade de opressão, é o mutismo. Depois ele tem contato com um sermão de [padre] Vieira, de 1640, em que ele fala que a grande enfermidade do Brasil foi tolher-se a fala. Do ponto de vista histórico, o Paulo é capaz de compreender a dimensão que tinha no Brasil a exclusão de vozes e a importância que isso tinha para a experiência de democracia que nós tivemos. Quando ele vai para o Chile exilado, e tem contato com os camponeses em processo de reforma agrária, ele também vê lá o que já tinha visto por aqui e passa a identificar isso como a ‘cultura do silêncio’: a situação onde prevalece a incomunicabilidade, não há diálogo e as pessoas não conseguem falar a sua voz. Ele adota uma visão que é bíblica: do direito a voz e a palavra como sendo uma coisa transformadora. Ele dizia: a verdadeira palavra é a palavra que transforma. E aí ele embute na ideia de palavra a noção de práxis: palavra para ele é uma relação dialética entre a verbalização e ação. A ‘cultura do silêncio’, portanto, é onde não há a palavra autêntica, não há Comunicação. O Paulo ajudou a identificar uma característica história e estrutural da sociedade brasileira que é a exclusão de vozes – e isso tem mil implicações. Uma óbvia é que se não tem a representação e a pluralidade das vozes da sociedade no espaço público, não há como formar uma opinião pública democrática. Daí tem repercussões na formação da sociedade brasileira na democracia”.

Rubens Goyatá Campante é doutor em Sociologia pela UFMG, pesquisador da Escola Judicial do TRT-3ª Região e do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (CERBRAS)

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