Queimadas no Pantanal: a luta pela sobrevivência do maior felino das Américas em meio aos incêndios

Na tarde da última sexta-feira (11/09), um helicóptero da Marinha do Brasil levantou voo com um passageiro incomum: uma onça-pintada. Durante o transporte aéreo, os olhos assustados do bicho, resgatado no Pantanal, em nada lembravam o felino destemido que costumava se aproximar dos barcos, característica que fez com que ele passasse a ser conhecido na região como Ousado.

Horas antes de entrar no helicóptero, o animal havia sido localizado por uma equipe de voluntários que auxiliam no resgate aos animais no Pantanal, que passa pelo pior período de queimadas das últimas décadas.

Ousado estava caído no Parque Estadual Encontro das Águas, na região de Porto Jofre, na cidade de Poconé (MT), quando foi encontrado pelos voluntários, que passavam de barco pela região. O felino estava com as patas queimadas. Ele apresentou postura agressiva e teve de ser anestesiado para que fosse retirado do local.

Localizado no Pantanal, o Parque Estadual Encontro das Águas é considerado o lugar com a maior concentração de onças-pintadas do mundo. Nas últimas semanas, porém, o local se tornou extremamente perigoso para os felinos. Isso porque dos 108 mil hectares da reserva, 77 mil foram atingidos pelo fogo até o momento, segundo dados do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso.

Assim como no parque, o fogo tem avançado com rapidez por todo o Pantanal, que já teve mais de 2,3 milhões de hectares atingidos por queimadas, segundo o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). O número representa mais de 15% de toda a extensão do bioma no Brasil, conforme o Instituto SOS Pantanal. A área queimada corresponde, por exemplo, a quase três vezes a região metropolitana de São Paulo, que abriga 39 municípios, ou 15 vezes a área da capital paulista.

De janeiro ao início de setembro, foram registrados 12,1 mil focos de calor no Pantanal, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É o maior número no período desde 1999, quando o instituto iniciou um monitoramento que se tornou referência para acompanhar as queimadas no país.

Assim como a flora, a fauna do Pantanal tem sido duramente atingida. Há diversos animais carbonizados no bioma. As onças-pintadas que vivem ali tentam fugir do fogo, mas algumas acabam machucadas pelas chamas.

O maior felino das Américas

Estudos apontam que o Brasil detém cerca de 50% das onças-pintadas de todo o mundo — mais de 90% delas estão na América do Sul. No país, o maior felino das américas está presente em diferentes biomas, como Amazônia (onde há mais quantidade da espécie), Pantanal, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica.

As onças-pintadas são consideradas quase ameaçadas de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês). Já o Ministério do Meio Ambiente classifica a espécie como vulnerável (quando os estudos apontam que há uma ameaça de que ela possa entrar, posteriormente, em perigo de extinção).

De acordo com estudiosos, as onças-pintadas são consideradas importantes para os diferentes biomas. “Elas são totalmente carnívoras. Por isso, podem controlar a quantidade de presas no ambiente. Por exemplo, podem comer capivaras, veados e queixadas. Como as onças estão no topo da cadeia alimentar, elas não permitem que nenhum animal de nível inferior tenha uma explosão de reprodução”, explica a bióloga Lilian Elaine Rampim, coordenadora da associação Onçafari, que atua na preservação de onças-pintadas e lobos-guarás.

As onças-pintadas sofrem ameaças como a expansão do território urbano, que toma áreas nas quais elas habitavam, como a Mata Atlântica. Outra dificuldade enfrentada pela espécie é o fato de serem alvos frequentes de proprietários rurais, que acreditam que eles representam graves ameaças. Para especialistas, falta de apoio do poder público para a preservação do maior felino das Américas.

No atual período, as maiores ameaças das onças-pintadas são as queimadas na Amazônia e no Pantanal, principais refúgios da espécie.

“Essas queimadas são provocadas pelo homem e não há nenhum controle, por isso se tornam incêndios. Isso é muito prejudicial para as onças-pintadas”, explica o biólogo Ricardo Boulhosa, presidente do Instituto Pró-Carnívoros, que atua na preservação de mamíferos carnívoros.

Pesquisador da Panthera, Fernando Tortato ressalta a importância do Parque Estadual Encontro das Águas. “Ali sempre foi um corredor protegido que garantiu um habitat de qualidade para as onças. No parque, muitas onças permitem ser observadas, por isso favorece o turismo”, diz.

O ecoturismo no Pantanal brasileiro, nos Estados Mato Grosso do Sul e Mato Grosso — o bioma tem áreas também na Bolívia e no Paraguai — vê o maior felino das Américas como uma de suas principais atrações.

Estudos da organização Panthera, dedicada à conservação desses felinos, apontou que o turismo de observação de onças no Pantanal brasileiro representa faturamento bruto anual de US$ 6,8 milhões às comunidades da região. Segundo esses estudos, o Parque Estadual Encontro das Águas recebeu mais de 2,8 mil visitantes estrangeiros em 2015.

Os incêndios

Em anos anteriores, a área do Parque Encontro das Águas já havia pegado fogo. “Mas nunca nas proporções atuais”, comenta Tortato.

Ele explica que, em anos anteriores, as onças conseguiam fugir para outras localidades, como propriedades rurais próximas. Atualmente, porém, é difícil que os animais encontrem uma região segura no Pantanal, na qual não haja risco de serem atingidos pelo fogo.

O pesquisador afirma que ainda não sabe qual será o impacto dos incêndios às onças-pintadas. Ao explicar as consequências para a fauna do Pantanal, ele cita que há efeitos diretos, quando o animal é atingido pelo fogo, e indiretos, quando falta água ou alimentos.

“Muitas espécies vão ser afetadas. No caso das onças-pintadas, os jacarés e as capivaras, que servem de alimentos para elas, podem não sentir tanta consequência do fogo porque são espécies aquáticas. Então, talvez as onças tenham alimentos. Mas os animais herbívoros, por exemplo, vão ter que andar quilômetros e quilômetros no Pantanal até encontrar algo para se alimentar”, explica Fernando.

Nos últimos dias, diversas equipes de voluntários têm ido ao Pantanal para deixar alimentos para os animais, como frutas e legumes, em virtude de a vegetação local ter sido extremamente atingida pelo fogo.

Ainda não se sabe quantos animais foram ou podem ser afetados pelo fogo que avança pelo Pantanal.

Nas últimas semanas, duas onças-pintadas foram resgatadas por voluntários. Há relatos de outras que também foram afetadas pelos incêndios. Segundo especialistas, uma das grandes dificuldades em relação à espécie é conseguir capturá-las, em razão da força e agilidade delas, ainda que lesionadas.

A primeira onça-pintada foi resgatada em meados de agosto, após invadir casas de moradores da região do Pantanal. Ela tinha queimaduras de terceiro grau em todas as patas. O animal passa por tratamento com células-tronco para reconstruir as partes atingidas.

“A aplicação de célula-tronco tem o poder de transformar qualquer célula do organismo. A primeira onça resgatada está bem e em processo de recuperação. Mas ela vai ter sequelas pesadas para o resto da vida”, explica o médico veterinário Jorge Aparecido Salomão, membro da Ampara Silvestre, iniciativa que tem ajudado animais no Pantanal.

Ela, assim como Ousado, foi encaminhada em uma aeronave para o Instituto de Preservação e Defesa dos Felídeos da Fauna Silvestre do Brasil em Processo de Extinção (NEX), em Corumbá de Goiás (GO).

Os especialistas acreditam que a primeira onça resgatada não deve voltar para a natureza, em razão das sequelas das queimaduras. A expectativa é de que ela viva em cativeiro, sob o auxílio de veterinários.

Ousado teve as patas atingidas e tem dificuldades para andar e se apoiar. Ele também deve começar tratamento com células-tronco “A princípio, ele está bem. O problema é que as lesões das queimaduras podem demorar para aparecer”, explica Salomão. Ao menos por enquanto, os especialistas acreditam que o animal deve retornar para a natureza. “A gente espera que ele se recupere e consiga voltar para o Pantanal”, diz o veterinário.

BBC

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