JANEIRO ANO VI - #25
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Terça, 24 Novembro 2015 15:49

Entrevista - Virgínia Barros - ‘A união entre estudantes e professores é decisiva’

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A financeirização, desnacionalização e, mais recentemente, com o agravamento desse processo, oligopolização do ensino superior privado no Brasil compromete diretamente a qualidade da educação oferecida e o cotidiano de milhões de estudantes em todo o país. “Muitas vezes, os direitos dos estudantes são desrespeitados, visto que, para maximizar seus lucros, os estabelecimentos de ensino tentam baratear os custos com a instituição, rebaixando a qualidade, seja não investindo em pesquisa e extensão, seja, inclusive, não investindo em infraestrutura e, em alguns casos, demitindo professores mestres e doutores”, denuncia a presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Virgínia Barros. 

Nesta entrevista à CONTEÚDO, a pernambucana Vic, como é conhecida a estudante de Letras da Universidade de São Paulo (USP) – também formada em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – aborda os avanços em relação ao acesso às universidades nos últimos anos, mas também os desafios da democratização e da qualidade, sobretudo no setor privado, frente ao avanço dos oligopólios. 

 

"Como esses oligopólios da educação que estão se formando no Brasil visam apenas o lucro, sua principal preocupação é o retorno financeiro a seus investidores, o que tem prejudicado a qualidade do ensino""

 

Virgínia Barros, presidenta da UNE

2 Vic Credito UNE 

 

Que avaliação a UNE faz da educação superior oferecida atualmente no Brasil?

 

Acho que a educação superior no Brasil teve avanços importantes nos últimos anos, que se relacionam com a democratização do acesso à universidade, através do ProUni (Programa Universidade para Todos), do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), do aumento do número de vagas na rede federal, da inauguração de novas universidades e também com a política de cotas. Entretanto, essa ampliação ainda não foi suficiente para democratizarmos o acesso ao ensino superior. Persiste esse desafio da democratização, ao lado de outro desafio: o de assegurar qualidade no conjunto das universidades brasileiras. Essa questão da qualidade assume dimensão especial no ensino superior privado, no qual, muitas vezes, os direitos dos estudantes são desrespeitados, visto que, para maximizar seus lucros, os estabelecimentos de ensino tentam baratear os custos com a instituição, rebaixando a qualidade, seja não investindo em pesquisa e extensão, seja, inclusive, não investindo em infraestrutura e, em alguns casos, demitindo professores mestres e doutores, o que se reflete na qualidade da educação oferecida.

 

Qual o impacto do processo de financeirização do ensino superior no cotidiano dos estudantes, sua educação e seu futuro?

 

Como esses oligopólios da educação que estão se formando no Brasil visam apenas o lucro, sua principal preocupação é o retorno financeiro a seus investidores, o que tem prejudicado a qualidade do ensino. Na vida cotidiana dos estudantes, um dos impactos é a mensalidade que aumenta de forma indiscriminada, sem nenhum diálogo com a comunidade acadêmica. Também há cobrança de taxas abusivas e mudanças no perfil curricular que descaracterizam o curso para o qual o estudante ingressou ao fazer o vestibular. O que acontece? O que estamos vendo é que muitos cursos estão aumentando a participação da educação a distância no perfil curricular como forma de baratear as aulas. O estudante presta vestibular para o ensino presencial e se depara com uma descaracterização do perfil curricular do curso que escolheu.


De que modo a UNE tem acompanhado as últimas fusões e aquisições no setor? A entidade tem tomado medidas e/ou adotado ações no sentido de tentar impedir o agravamento da financeirização?

 

A UNE tem lidado com muita preocupação com essas grandes fusões, porque elas exacerbam uma concepção de educação da qual discordamos completamente, que é a visão da educação como mercadoria, e não como direito de todos e dever do Estado. Então, estamos na luta em cada universidade para combater os aumentos abusivos de mensalidade e para combater esse processo de desnacionalização sofrido pelo ensino superior privado brasileiro. Isso se manifesta tanto na batalha pela proibição de capital estrangeiro na composição societária das universidades como também na aprovação do Insaes (Instituto Nacional de Supervisão e Avaliação do Ensino Superior), que pode ser um instrumento importante para fortalecer a fiscalização e o controle social sobre essas instituições.
Sobre o caso específico da fusão entre Kroton e Anhanguera...

 

A fusão entre Kroton e Anhanguera, caso a venha a ser concretizada – porque ainda está sob avaliação do Cade [a entrevista foi concedida antes da recomendação de restrições à negociação entre os dois grupos feita pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica] –, culminará em um dos maiores grupos educacionais do mundo, que será responsável por mais de 1 milhão das matrículas de ensino superior que hoje existem no nosso país. Temos grande preocupação de que todos esses estudantes fiquem submetidos a uma lógica educacional que se importa mais com o lucro do que com o papel que a universidade deve cumprir para o nosso país. Na medida em que os oligopólios educacionais se ampliam no Brasil, vamos perdendo nossa soberania sobre nossa educação, porque, em última instância, serão investidores estrangeiros que decidirão como ela vai funcionar. Como, para nós, educação é uma questão de soberania nacional, é imprescindível barrar esse processo de desnacionalização.

 

2 Vic 3 Credito UNE

 

Você já mencionou o papel do ProUni e do Fies em relação à democratização do acesso ao ensino superior. Em contrapartida, instituições de capital aberto também se valem desses programas para dar credibilidade aos seus negócios e segurança aos investidores, em função da redução da inadimplência. Que avaliação a UNE faz desse contexto?

 

Enxergamos esses dois programas de forma positiva, porque têm contribuído para inserir na universidade os filhos da classe trabalhadora, a quem historicamente foi negado o acesso ao ensino superior. Muitos dos bolsistas do ProUni e do Fies são os primeiros de suas famílias a ingressar na universidade. Isso representa um passo importante rumo à democratização do acesso. Por outro lado, esses programas têm dado, sim, uma segurança econômica para aqueles que desejam investir na educação como se ela fosse apenas mais um setor da nossa economia. Por isso, defendemos mais rigor nos critérios de adesão das instituições a esses programas, a fim de que a qualidade da educação oferecida por elas esteja assegurada.

 

A reforma universitária está parada no Congresso Nacional, enquanto o Insaes enfrenta o duro lobby do setor privatista na Câmara. A UNE compartilha com a Contee a visão sobre a relevância dessas matérias. Que estratégias os estudantes e os trabalhadores em educação podem adotar juntos para defendê-las e garantir sua aprovação?

 

O Insaes não representa uma regulamentação completa do ensino superior privado do nosso país. Entretanto, ele traz avanços importantes nesse sentido. O fundamental continua sendo aprovar uma reforma universitária que de fato universalize o acesso à educação superior de qualidade no Brasil. Isso só será possível com muita luta e mobilização dos estudantes e professores do nosso país, que defendem o interesse público sobre a educação em todas as esferas. Tenho convicção de que a união entre estudantes e professores é decisiva para a conquista de mais avanços na educação brasileira.

Lido 178 vezes Última modificação em Terça, 24 Novembro 2015 15:50