JANEIRO ANO VI - #25
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PERFIL

PERFIL (2)

“Sempre gostei da área de biologia e essa minha formação me levou ao movimento ambientalista numa época em que esse tema não era tão debatido como hoje”

 

Gilson Reis

 

Bem antes de ser eleito vereador de Belo Horizonte em 2012 com 7.010 votos, o presidente do Sinpro Minas e diretor da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Gilson Reis, começou sua militância política em defesa do meio ambiente. Com formação em Ciências Biológicas pelo Instituo Metodista Izabela Hendrix, ainda estudante se engajou nas causas ambientalistas pela preservação dos recursos e paisagens naturais existentes em sua terra natal, Belo Horizonte, onde nasceu em 16 de agosto de 1963.


Nessa luta, atuou na construção da Área de Preservação Ambiental do Morro da Pedreira, na formação do Parque Nacional da Serra do Cipó e na preservação do Lago do Nado, onde, após uma mobilização vitoriosa da comunidade para impedir a transformação do espaço verde, calculado em 300 mil metros quadrados, em área habitacional, foi implantado, em 1992, o Centro Cultural Lagoa do Nado (CCLN).
Nesse período, em que frequentava o curso de biologia, também se envolveu com o movimento estudantil, tendo ajudado a fundar e presidido por dois mandatos o diretório acadêmico da faculdade. Em seguida, foi candidato à Presidência da União Estadual dos Estudantes (UEE) de Minas Gerais e dirigente da União Nacional dos Estudantes (UNE).


“Sempre gostei da área de biologia e essa minha formação me levou ao movimento ambientalista numa época em que esse tema não era tão debatido como hoje”, conta. Mas a formação – incentivada pelo pai motorista de ônibus e a mãe dona de casa, que sempre disseram a ele e a seus noves irmãos que a educação era a única forma de melhorar sua condição de vida – também o conduziu ao magistério. E a luta estudantil ao movimento sindical.


“Em 1991 eu dava aula em três escolas e houve uma greve grande em Belo Horizonte, da qual participamos. Por causa disso fui demitido de duas das três escolas”, recorda. Daí foi apenas um passo para ingressar na diretoria do Sinpro Minas, no ano seguinte. No mesmo ano, tornou-se vice-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Minas.


Do fim da década de 1980 até agora, Gilson destaca diversas lutas, entre as quais a própria Constituinte, o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, o combate às privatizações durante o governo Fernando Henrique Cardoso e que culminou na Marcha dos 100 Mil a Brasília em 1999. Foi a maior manifestação contra a administração FHC, em protesto contra o modelo neoliberal e contra a corrupção no governo federal, numa época em que a base governista preferia arquivar a investigar as denúncias por meio de comissões parlamentares de inquéritos (CPIs). “Nós levamos 550 ônibus de Belo Horizonte até Brasília, mais de 20 mil trabalhadores”, ressalta o sindicalista.


Na CUT, Gilson ficou de 1992 a 2000 na direção estadual e, depois, de 2001 a 2006 na nacional, de onde saiu para participar da criação da CTB. “Na luta sindical tive a oportunidade de viajar para vários países e conhecer a realidade dos trabalhadores e das comunidades em outros locais”, destaca ele, que chegou inclusive a passar 15 dias no Iraque, como “escudo humano”, na tentativa de impedir a invasão americana. “Em todo o mundo, a melhoria da sociedade precisa passar necessariamente pela valorização do trabalho.”


A primeira tentativa de ingresso na política institucional foi em 2010, quando, na disputa para deputado estadual, conquistou mais de 18 mil votos, ficando na suplência do PCdoB, partido no qual milita há 25 anos. “A luta institucional é também uma das dimensões da luta política”, considera o vereador, que em seu mandato na Câmara Municipal belo-horizontina tem defendido propostas para as áreas de educação, trabalho e cultura. Entre seus principais projetos destaca o passe livre, o desconto em ingressos para atividades culturais aos trabalhadores da educação do município, a aplicação dos royalties do petróleo em Belo Horizonte no ensino municipal, a regulamentação da Convenção 151 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no âmbito do município, a fim de garantir o direito à negociação coletiva aos servidores municipais. “A educação precisa de muito mais que representação sindical. É necessário que tenha uma participação política.”

 

RAIO X   
   

Nome: Gilson Luiz Reis

 

Data de nascimento:
16 de agosto de 1963

 

Cidade natal:
Belo Horizonte/MG

 

Estado civil:

união estável com a advogada Sílvia Raquel Castelo Branco

 

Enteada:

Isa

 

Profissão:

professor de biologia

 

Formação:

graduação em Ciências Biológicas pelos Instituo Metodista Izabela Hendrix, em Belo Horizonte, e pós-graduação em Economia do Trabalho pela Unicamp

 

Filiação partidária:

PCdoB

 

Cargos públicos:

ex-dirigente da UNE e da CUT estadual e nacional, dirigente da CTB estadual e nacional, presidente do Sinpro Minas, membro da diretoria da Contee e vereador de Belo Horizonte

 

Principais projetos:

passe livre, desconto em ingressos para atividades culturais aos trabalhadores da educação do município, aplicação dos royalties do petróleo em Belo Horizonte no ensino municipal, regulamentação da Convenção 151 da OIT no âmbito do município

raio x

“A efetivação dos direitos dos trabalhadores domésticos é primordial para se corrigir uma injustiça que vem dos tempos da escravidão, traduzida em preconceito e discriminação, tratamento dispensado a uma parcela tão importante e significativa de trabalhadores. É uma questão de justiça”

 

11 ministra delaideCom cerca de 14 mil processos sobre a mesa, a ministra do Tribunal Superior do Trabalho (TST) Delaíde Arantes não tem tido muito tempo para uma de suas atividades preferidas: ler (a não ser, claro, quando diz respeito aos estudos relacionados aos próprios processos e ao direito processual do trabalho, no qual ela é especialista pela Universidade Federal de Goiás). No entanto, uma de suas leituras mais recentes, nas poucas horas de folga, foi um romance sobre a abolição da escravatura, que acaba de completar 125 anos. Não deixa de ser curiosa a coincidência entre o tema do livro e a histórica aprovação e promulgação da Emenda Constitucional 72, que ficou conhecida como a PEC das Domésticas, conquista aclamada como a chave que abriu as portas das últimas senzalas no Brasil e com a qual Delaíde tem uma ligação especial.


Não se trata apenas do fato de ser uma autoridade sobre a legislação de empregadas domésticas, ter estudado o assunto por mais de duas décadas e ser autora do livro “O trabalho doméstico – Direitos e deveres”, dirigido a empregadores e empregados. Nem do fato de, já como ministra, ter estado no congresso em Genebra, há cerca de dois anos, no qual foi estabelecida pela primeira vez uma lei trabalhista mundial para os empregados domésticos. Na verdade, a questão é um pouco mais pessoal.


Nascida em Pontalina, no interior de Goiás, a 130 quilômetros de Goiânia, Delaíde cresceu na Zona Rural, numa família com nove irmãos chefiada por um agricultor e uma dona de casa. “Sempre tive para mim que nasci numa família sem recursos financeiros e então ia precisar estudar muito, ser boa aluna, trabalhar para ajudar nos estudos. Essa foi uma primeira conscientização que eu tive. E sabia que, até para ser aceita na sociedade, eu ia precisar me destacar de alguma forma. E eu encontrei a forma de me destacar nos estudos.”


A meta dos estudos era ser advogada desde cedo. “No interior não tem muita opção cultural. O que é que tinha na minha cidade? Uma sala de cinema, que exibia filmes de vez em quando, não era frequente. Tinham também as festas da igreja... Mas uma opção, que assumia esse papel da opção cultural, eram as sessões do Tribunal do Júri. A gente achava maravilhoso o promotor falando, o advogado depois falando... As teses eram antagônicas, mas era uma apresentação, eu diria, quase teatral. Fico com a impressão que essa foi a primeira influência”, reflete. “Uma outra influência é que, para uma menina do interior, estudando com dificuldade, o status do juiz, do promotor, do advogado também contam. Acaba que você quer ascender profissionalmente e cria aquela referência.”


Para realizar o desejo de se formar em direito, ela trabalhou como empregada doméstica duas vezes: quando tinha 16 anos e, mais tarde, aos 20 e poucos, para pagar seus estudos em Goiânia. “Trabalhei de doméstica, mas meu trabalho me permitiu estudar, ir para aula à noite, fazer minhas tarefas, ler. Só pude concluir meus estudos, fazer meus cursos de pós-graduação, advogar durante 30 anos e postular o cargo de ministra do TST porque não fiquei confinada nem submetida a uma jornada de 16 horas, nem de 18, nem de 24. Na verdade, prestava serviço numa jornada até um pouco aquém de oito horas por dia”, conta. E justamente por saber que seu caso é diferente do enfrentado pela maioria dos trabalhadores domésticos no país é que Delaíde exalta a aprovação da PEC.


“Eu diria que o Brasil está evoluindo. Essa é uma barreira grande que foi vencida e as resistências com certeza serão também vencidas”, acredita. Segundo ela, a Emenda 72 promulgada pelo Congresso Nacional no dia 2 de abril de 2013 é de suma importância para o processo democrático brasileiro e para o cumprimento de preceitos fundamentais da Constituição Federal, que tem como pilares a igualdade e a valorização do trabalho. “A CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] de 1943 excluiu os trabalhadores domésticos do âmbito de sua aplicação”, destaca. “A efetivação dos direitos dos trabalhadores domésticos é primordial para se corrigir uma injustiça que vem dos tempos da escravidão, traduzida em preconceito e discriminação, tratamento dispensado a uma parcela tão importante e significativa de trabalhadores. É uma questão de justiça.”


Todavia, como enfatiza Delaí­de, assegurar o cumprimento dos direitos previstos na PEC das Domésticas, seja os autorregulamentáveis ou aqueles que ainda carecem de regulamentação, necessita do acompanhamento de políticas públicas destinadas a essa parcela dos trabalhadores. “A implementação da igualdade de direitos precisa ser acompanhada de políticas públicas: creches, melhorias na educação, programas de qualificação profissional para as trabalhadoras domésticas e, inclusive, programa de casa própria, porque existe um número grande de domésticas que dormem no emprego, algumas delas por não ter outro lugar para morar, a não ser na casa do empregador. E agora o empregador vai ficar muito receoso de isso ser entendido como jornada”, pondera.

 

Trajetória

 

Essa defensora de políticas públicas não nasceu com o cargo de ministra, nem mesmo com as três décadas advogando causas trabalhistas. Na realidade, essa veia já estava presente na Delaíde menina, ainda moradora de Pontalina, que com apenas 14 anos discursou na frente de delegados de vários países reivindicando universidades no meio rural.


“Eu participava de um programa destinado à juventude rural, que era desenvolvido na época pelo governo federal, em parceria com os estados. Para os pais dos jovens havia um programa que ensinava técnicas de agricultura, criação de gado... E, com os filhos dos produtores rurais, tinha o programa que era feito nas escolas”, recorda. “Na minha região ganhei um prêmio e fui selecionada para participar de um congresso no Rio de Janeiro, que era um congresso latino-americano. Eu sei que, com 14 anos, estava nesse evento no Rio, com representantes de 14 países e mais de 20 estados brasileiros, e eu defendendo a criação de escolas no meio rural, universidades no meio rural, porque já sabia que ia ter que mudar, então queria que tivesse escola lá. Nem sabia direito o que isso significava em termos de programa de governo, mas estava defendendo”, ri.


A questão da escola no meio rural deve ter sido uma marca para a criança e adolescente que, como os colegas, precisava andar três quilômetros a pé todos os dias para frequentar as aulas. “Mas tenho ótimas lembranças, a vida no meio rural é muito saudável. As pessoas me perguntam, agora que sou ministra, como foi a minha infância. Foi normal! Tive uma infância normal, adolescência, namorei bastante [risos], casei, tive duas filhas... Com jornada dupla, né? Tripla, quádrupla, que nem toda mulher.”


A vida de estudos continuou normalmente depois do nascimento das filhas. “Casei dois anos antes de formar e quando colei grau estava grávida da minha primeira filha. Adotei essa resolução: nem deixar de trabalhar – até porque eu precisava trabalhar para sobreviver, nem deixar de estudar, participar da OAB, da associação de advogados trabalhistas, porque não queria depois cobrar das minhas filhas.” Apesar do pouco tempo que sobra e que a impede muitas vezes de cumprir o ritual do cinema semanal com o marido, ela também procura não deixar de fazer o que gosta em função do TST. “Procuro dividir assim: no TST sou ministra e quando vou para casa sou mulher, dona de casa, mãe, vó, sogra, vou para a cozinha, faço comida...”


Entre os prazeres está ouvir música e, nesse quesito, a ministra tem um gosto eclético. “Gosto muito de música clássica, MPB, música mexicana, que eu ouvia muito quando era mocinha. E gosto de música sertaneja, porque cresci ouvindo música sertaneja!” Outro prazer é visitar mercados populares, como a Feira da Lua, em Goiânia, e até a Rua 25 de Março, em São Paulo, a qual ela não deixou de frequentar mesmo depois de tomar posse no TST. “Continuo indo à 25 de março”, revela, achando graça. “Vou menos, por causa do tempo, mas continuo indo.”

 

RAIO X  
   

Nome:
Delaíde Alves Miranda Arantes

 

Data de nascimento:
1º de maio de 1952

 

Cidade natal:

Pontalina/GO


Estado civil:
casada com o ambientalista e ex-deputado Aldo Arantes

 

 

Filhos: Patrícia e Lorena

 

Netos: Gabriel, João Pedro e Manuela

 

Profissão: advogada trabalhista e agora ministra do TST

 

Formação: graduação em direito pela Uni-Anhanguera, especialização em Direito Processual do Trabalho pela Universidade Federal de Goiás e especialização em Docência Universitária pela PUC de Goiás.

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