MAIO ANO V - #21
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Segunda, 23 Novembro 2015 18:36

Unidos somos mais fortes

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1ao de maio unificado 2O senhor de boné, óculos e bigode branco marcha sozinho, enrolado na bandeira vermelha, procurando sua “turma”. Atrás dele, um mar de coletes e bandeiras amarelas se aproxima e ele é o único ali, naquele pedacinho de asfalto, que veste vermelho quase da cabeça aos pés. Seus companheiros de cor, na verdade, já cruzaram por aquele trecho há alguns minutos e seguem mais à frente, na onda de mais de 50 mil pessoas que inundam as ruas do Eixo Monumental de Brasília. Mas ele tem 81 anos, é aposentado e conquistou com muitos anos de suor na fábrica de produtos químicos em que trabalhava o direito de caminhar um pouco mais devagar. Pode estar sozinho, mas solitário não. Afinal, o propósito era de que os 50 milhares de trabalhadores e trabalhadoras presentes ali, independente de sua cor – de roupa e de pele – tivessem o mesmo discurso e a mesma voz.


A 7ª Marcha Unificada das Centrais Sindicais e dos Movimentos Sociais, realizada em março na capital federal como uma antecipação do dia 1º de maio, foi exatamente a sétima marcha da qual o senhor Aprígio Ribeiro, o cutista de 81 anos e bigode branco, participou. “Já conquistamos várias bandeiras nas outras marchas. Pelos anos que ando aqui, a manifestação está muito forte.” Logo atrás dele, com o tal colete amarelo da Nova Central Sindical dos Trabalhadores, a doméstica Jeruza dos Santos, de 49 anos, assegurava, com convicção, que “do povo unido ninguem tira”. E sua reivindicação não era nem a Emenda Constitucional 72, que ficou conhecida como PEC das Domésticas e só seria aprovada e promulgada quase um mês depois. “A gente tem que lutar pela valorização dos aposentados e pensionistas. Hoje a gente ainda luta e consegue. Mas e no nosso futuro?”


Pauta unificada

 

A política de valorização dos aposentados é de fato uma das bandeiras da agenda trabalhista que as centrais sindicais têm tentado negociar com o governo. A pauta de reivindicações inclui a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais sem prejuízo salarial para os trabalhadores, o fim do fator previdenciário, a igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho e a reforma agrária. Também estão contempladas a ratificação da Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que protege o trabalhador contra a demissão imotivada, e a regulamentação da Convenção 151, também da OIT, que assegura o direito de negociação coletiva no serviço público. Além disso, a agenda dos trabalhadores também contempla duas questões de interesse macrossocial: a destinação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para a educação pública e o investimento de 10% do orçamento bruto da União na saúde pública.
“Estou aqui porque é importante participar. A jornada de 40 horas, para mim, precisa ser uma conquista”, defendeu, também na marcha, o mecânico Benedito de Franco, 56, ostentando o laranja da Força Sindical. Mais adiante, com seu chapéu de palha e a bandeira branca, vermelha, amarela e verde da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), o agricultor Givaldo Miranda Lima, 37, defendeu a reforma agrária. “Todas as reivindicações são fundamentais e a unidade dos trabalhadores demonstrada aqui tem um impacto positivo. Mas sou um dos que vieram aqui defender a reforma agrária.”

 

Redução da jornada de trabalho (sem redução salarial) – A redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais sem redução salarial irá gerar empregos, melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e reduzir o número de acidentes provocados por jornadas exaustivas

 

Fim do fator previdenciário – O mecanismo prejudica os trabalhadores, achatando os valores das aposentadorias. A proposta é acabar com o fator e estabelecer uma política de valorização e recuperação dos benefícios dos aposentados e pensionistas

 

Igualdade entre homens e mulheres – É necessário pressionar pela aprovação do Projeto de Lei 6.653/09, da deputada Alice Portugal (PCdoB-BA), que cria mecanismos para garantir a igualdade entre mulheres e homens no mercado de trabalho – inclusive salarial – e coíbe práticas discriminatórias nas relações trabalhistas

 

Reajuste para os aposentados – Reajuste para quem ganha acima do salário mínimo para continuar a política de valorização do poder de compra para os aposentados e pensionistas

 

Redução da taxa de juros e desvalorização do câmbio – A luta é pela redução da taxa de juros e de defesa do emprego. O corte na taxa de juros é uma medida fundamental para incentivar a atividade produtiva e retirar do circuito da especulação financeira bilhões de reais que poderão ser utilizados como crédito para investimentos e capital de giro das empresas e para utilização pelo público em geral. Essa política, agregada à desvalorização do câmbio e ao fortalecimento do mercado interno, proporcionará novo ciclo de desenvolvimento ao país

 

Ratificação da Convenção 158 da OIT – A convenção proíbe a demissão imotivada, garantindo o valor social do trabalho

 

Regulamentação da Convenção 151 da OIT – Conforme o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Leão, a medida é fundamental para que os trabalhadores públicos sejam tratados em condição de igualdade aos da iniciativa privada, garantindo o direito de negociação coletiva


Comunhão na diversidade

 

As prioridades eram diversas, mas em todas elas estava presente a defesa dos direitos dos trabalhadores e de todos os cidadãos. “O investimento na educação é um ponto muito importante da pauta”, afirmou a bancária Geysa Carreiro, de 33 anos, filiada à União Geral de Trabalhadores (UGT). “A Constituição é muito bonita na teoria, mas os direitos, como o acesso à educação, têm que ser reivindicados.” Já a agricultora Cleudenice Ramos de Oliveira, de 44 anos, ajeitou seu boné da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB) para explicar o motivo de sua presença ali: “A gente tem que defender benefícios para as mulheres que lutam na roça”.


A mesma demonstração de união dada pelos trabalhadores comuns que caminhavam sob o sol quente de Brasília foi dada pelos dirigentes das centrais durante a mobilização. “Viemos aqui em Brasília exigir o atendimento de uma pauta de reivindicações que entregamos há cerca de dois anos para a presidente Dilma (Rouseff)”, declarou o presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, Wagner Gomes, na ocasião da marcha. “Essa marcha vem cobrar da presidente uma resposta para todas as reivindicações. E nós esperamos que, com essa marcha muito representativa, a gente consiga que o Congresso vote pelos menos o fim o fator previdenciário. O movimento sindical está aqui mais uma vez para tentar destravar essas negociações que a gente não tem conseguido fazer.” Já o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, ressaltou os avanços obtidos em mobilizações anteriores. “As nossas marchas têm conquistado ao longo do tempo a respeitabilidade do governo em negociar as questões dos trabalhadores com as centrais sindicais, o que é algo novo”, salientou.


Pressão

 

A unidade demonstrada em Brasília não ficou restrita à marcha de março. Sem o atendimento de suas reivindicações, centenas de milhares de trabalhadores – entre os quais os trabalhadores em educação – voltaram às ruas de todo o país no dia 1º de maio, Dia Internacional do Trabalhador, mais uma vez evidenciando união em prol dos pleitos trabalhistas. Em São Paulo, o ato organizado por CTB, Força Sindical, UGT e Nova Central foi marcado pelas cobranças dos sindicalistas junto ao governo federal por mais diálogo e pela celebração em torno dos 70 anos de criação da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Em seu ato público, por sua vez, a CUT reforçou a luta pela redução da jornada de trabalho e pela não aprovação do Projeto de Lei 4.330, de 2004, que permite a liberação da terceirização como atividade-fim de uma empresa – e cujo grau de perversidade com os trabalhadores fez com seu combate fosse incorporado à pauta unificada.

 

Ainda que desemperrar as conversas com o governo e alcançar conquistas não seja fácil, como por exemplo no caso do fim do fator previdenciário, a continuidade da mobilização conjunta é primordial para ampliar a pressão em prol dos pleitos trabalhistas. Uma conquista, oficializada no dia 14 de maio, foi a garantia de uma mesa de negociação permanente entre governo e centrais, que volta a se reunir no dia 11 de junho. Também foi estabelecido um prazo de 90 dias para que o Executivo dê respostas às reivindicações do movimento sindical. Até lá, a energia e o sentimento de coletividade vivenciados nos dias 6 de março e 1º de maio têm que se repetir todos os dias.

 

“Já conquistamos várias bandeiras nas outras marchas. Pelos anos que ando aqui, a manifestação está muito forte” 

 

Aprígio Ribeiro, 81, aposentado

6 Capa Aprigio Credito Leandro Freire
   

“Estou aqui porque é importante participar. A jornada de 40 horas, para mim, precisa ser uma conquista”

 

Benedito de Franco, 56, mecânico

6 Capa Benedito Credito Leadro Freire

   

“A gente tem que defender benefícios para as mulheres que lutam na roça”

 

Cleudenice Ramos de Oliveira, 44, agricultora

6 Capa Cleudenice Credito Leandro Freire
   

 “Temos que lutar pela valorização dos aposentados e pensionistas. Hoje a gente ainda luta e consegue. Mas e no nosso futuro?”

 

Jeruza dos Santos, 49, doméstica

6 Capa Jeruza Credito Leandro Freire
   

“A Constituição é muito bonita na teoria, mas os direitos, como o acesso à educação, têm que ser reivindicados”

 

Geysa Carreiro, 33, bancária

6 Capa Geysa Credito Leandro Freire
   

“Todas as reivindicações são fundamentais e a unidade dos trabalhadores demonstrada aqui tem um impacto positivo. Mas sou um dos que vieram aqui defender a reforma agrária”

 

Givaldo Miranda Lima, 37, agricultor

6 Capa Givaldo Credito Leandro Freire

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