Tópicos da conjuntura

Reproduzimos abaixo a análise de conjuntura apresentada na reunião da Direção Nacional da CTB Ampliada, em 19/01/2021, pelo jornalista e assessor da Central, Umberto Martins.

A ano de 2021 começa marcado pelo agravamento da crise sanitária no mundo, e em particular no Brasil.

Dados da OMS do dia 21 de janeiro indicavam que já foram confirmados 95,3 milhões de casos e 2.058.227 mortes por covid-19 no mundo. O número de óbitos pelo vírus no mundo deve chegar a 100.000 por semana “muito em breve”, em comparação com mais de 93.000 registradas na semana anterior, afirmou na segunda (18) o especialista em emergências da Organização Mundial da Saúde, Mike Ryan.

No Brasil a cifra fúnebre subiu a 214 mil e foram registrados 8,7 milhões de infecções até a manhã do dia 22 de janeiro.

Um governo insano

O comportamento insano do presidente Bolsonaro diante da pandemia do novo coronavírus tem dramáticas consequências para a saúde pública e é um dos fatores determinantes da crise sanitária. A tragédia em Manaus foi o resultado inevitável da negligência governamental. A responsabilidade do governo federal no colapso do sistema de saúde do Amazonas é notória; até a AGU admitiu que o Ministério da Saúde foi avisado com 10 dias de antecedência sobre a eminente falta de oxigênio nos hospitais. Não tomou as providências necessárias.

A vacina foi uma vitória inédita da medicina e dos esforços concentrados de milhares de cientistas no Brasil e em todo o mundo. Em nosso país, os esforços do Butatan e da Fiocruz foram heroicos. Mas em função da conduta criminosa do presidente e seu ministro de Saúde, a vacinação teve início tardiamente, atrás de 50 outros países – São Paulo saiu na frente, no domingo (17), logo após a aprovação do uso emergencial da CoronaVac pela Anvisa.

A vacina tornou-se objeto de guerra política irracional e nefasta entre João Doria e Jair Bolsonaro.

Enfrentamos o risco de não conseguir produzir a vacina por falta dos insumos básicos produzidos na China e atraso na entrega de vacinas produzidas na Índia. Percebe-se, nos dois casos, os estragos da diplomacia de Bolsonaro, que afrontou a China, atacou a vacina chinesa, ameaçou excluir o 5G chinês do Brasil e classificou o vírus do coronavírus como o “vírus da China”, reverberando preconceito e intolerância étnica temperada com anticomunismo para agradar o ex-presidente estadunidense Donald Trump.

Já a Índia alerta que “um grande número de instalações de fabricação em muitos países com capacidade comprovada para produzir vacinas seguras e eficazes são incapazes de utilizar essas capacidades devido a novas barreiras de propriedade intelectual”. Esta é a prova, na opinião de autoridades indianas, de que o atual sistema de patentes – que serve os interesses das multinacionais – não é adequado para atender a enorme demanda global de vacinas e tratamentos.

O projeto de democratizar vacinas conta com uma forte rejeição por parte dos países ricos, detentores das patentes. O Brasil foi o único país em desenvolvimento a declarar abertamente que era contra a proposta, abandonando anos de liderança internacional para garantir o acesso a remédios aos países mais pobres.

Diplomacia de vira-lata

Sob Bolsonaro, a diplomacia brasileira – na contramão da tradição histórica do Itamaraty – posicionou-se contra a derrubada das patentes para vacinas defendidas pela Índia, subordinando-se à estratégia dos EUA e países ricos. O gesto, que contraria os interesses nacionais, irritou os indianos.

A diplomacia de vira-lata do governo Bolsonaro, comandada pelo lunático Ernesto Araújo, é um atentado aos princípios estabelecidos no Artigo 4 da Constituição brasileira e constitui mais um crime de responsabilidade do presidente, que está causando sérios prejuízos à nação e contribuindo para colocar a saúde pública em risco.

Crise econômica

De mãos dadas com a pandemia caminha a grave crise econômica.

A economia capitalista mundial já vivia uma situação crítica antes da pandemia e muitos indicadores sugeriam que ela estava a caminho da recessão. A fome já assolava cerca de 800 milhões de habitantes deste mundo tão desigual, o desemprego avançava junto com a concentração da renda e a estagnação das economias.

A pandemia agravou sobremaneira os problemas e provocou uma depressão econômica ainda maior que a crise iniciada nos EUA em 2007-08, que logo se transformou numa crise financeira global.

Entre os países mais industrializados do mundo, apenas a China teve um desempenho positivo em 2020, fechando o ano com um crescimento de 2,3%. Embora este seja o menor índice nos últimos 45 anos comparativamente ao desempenho das demais economias, em especial as que compõem o decadente G7, configura um resultado excelente. Uma performance que confirma, de um lado, a trajetória do país na direção da liderança econômica e geopolítica mundial e, de outro, o esgotamento da ordem internacional hegemonizada pelos EUA, que encerrou o ano com uma redução estimada em 3% do PIB.

A dependência não só do Brasil mas de todo o mundo dos insumos da China para a vacina é mais um sinal da nova ordem econômica que vai se desenhando objetivamente no mundo neste tempo de transição geopolítica, fruto tanto do desenvolvimento desigual quanto do parasitismo que grassa no chamado Ocidente.

Transição geopolítica

O vigoroso crescimento do PIB chinês ao longo das últimas quatro décadas contrasta com a estagnação das economias capitalistas e comprova a superioridade do modelo de desenvolvimento chinês sobre o decadente e fracassado capitalismo neoliberal que dá as cartas nos EUA, na Europa, no Japão e no Brasil.

Também demonstra a estreita correlação entre a crise sanitária e a crise econômica. O gigante asiático, que abriga 1,4 bilhão de habitantes, conseguiu controlar a pandemia com medidas radicais e, deste modo, logrou também atenuar os efeitos da crise. Até o momento soma menos de 5 mil mortes por covid-19 e tem uma economia em crescimento, ao passo que os EUA, com uma população quatro vezes menor, já choram mais de 400 mil mortos e ainda não superou a recessão.

A performance do Brasil será ainda pior que dos norte-americanos. Os analistas do mercado estão prevendo queda do PIB superior a 4%. Tanto Trump, nos EUA, quanto o mandatário vira-lata no Brasil menosprezaram a pandemia e condenaram o isolamento, o uso de máscaras e as medidas necessárias para prevenir a doença.

O custo da tolice transparece tanto nos dados sobre a doença quanto nos indicadores econômicos. Ficou evidente que enquanto a pandemia não for controlada a economia não volta ao seu curso normal.

Após seis meses consecutivos de crescimento, as vendas do comércio varejista nacional na passagem de outubro para novembro de 2020 tiveram variação negativa, de -0,1%. No confronto com igual mês do ano anterior, também houve perda de ritmo, com o varejo crescendo 3,4% em novembro de 2020, menos que a alta de 8,4% em outubro.

A desaceleração das vendas está obviamente associada à redução do valor do auxílio emergencial para 300 reais, que subtraiu poder de consumo de milhões de famílias pobres. Doravante a situação tende a piorar, uma vez que o auxílio emergencial acabou em dezembro e não foi renovado, nem será se depender apenas do governo Bolsonaro.

Retrato da tragédia

Estima-se em pelo menos 26 milhões o número de trabalhadores e trabalhadoras  no desemprego, no desalento ou fazendo bicos. O retrato do mercado de trabalho é a imagem da tragédia brasileira.

O fechamento da Ford agrava o drama do desemprego, bem como confirma e reforça o processo de desindustrialização da economia nacional e tem fortes impactos negativos para os operários do ramo metalúrgico (o combativo Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari) e a CTB.

O governo não apresenta soluções para a crise. Muito pelo contrário, a política econômica comandada por Paulo Guedes, ancorada no neoliberalismo e no dogmatismo fiscal, está agravando as contradições e joga lenha na fogueira da recessão.

O presente que o governo reservou para o povo no Ano Novo foi o fim do auxílio emergencial. Dele também provém a proposta de uma reforma administrativa para liquidar os direitos dos trabalhadores e precarizar ainda mais os serviços públicos; uma reforma sindical para instituir o pluralismo e enfraquecer ainda mais o movimento sindical; a malfadada carteira verde e amarela para driblar a CLT; a vergonhosa submissão aos magnatas imperialistas dos EUA e o contrassenso da oposição à China no front externo.

Descontentamento em alta

A covid-19 frustou o projeto de reeleição de Donald Trump e pode contribuir para precipitar a queda de Jair Bolsonaro. As últimas pesquisas mostram forte recuo de sua popularidade e é nítida a ampliação das forças sociais e políticas que defendem o impeachment.

Pesquisa XP/Ipespe mostra que a avaliação negativa – ruim e péssimo – do governo Jair Bolsonaro subiu de 35% para 40%, na comparação com o levantamento anterior, de 20 de dezembro. Ao mesmo tempo, o percentual de entrevistados que o consideram ótimo e bom caiu de 38% para 32%, enquanto 26% classificam o governo como regular.

Já na pesquisa Exame Research, divulgada sexta-feira (22), os números são mais desfavoráveis: o desempenho de Bolsonaro foi considerado ruim/péssimo por 45% de 1.200 entrevistados entre os dias 18 e 21 deste mês. A avaliação ótimo/bom ficou em 27% e 26% consideram a gestão como regular. É a maior rejeição apontada pela pesquisa desde o início desse desgoverno em janeiro de 2019.

Certamente são os efeitos da tragédia de Manaus, bem como da redução do valor do auxílio emergencial, cujo fim certamente vai resultar em aumento do descontentamento popular e da desaprovação do líder neofascista.

Fora Bolsonaro

Observa-se paralelamente o crescimento das forças que defendem o impeachment como a única alternativa para a crise sanitária, econômica e política que o país padece. Vai se conformando objetivamente uma frente ampla neste sentido, que compreende inclusive movimentos dissidentes da extrema direita como o Vem pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL).

Até mesmo parlamentares do Centrão passaram a cogitar o impeachment, o que explica o descontrole do capitão reformado, que dias atrás voltou a vomitar ameaças golpistas.

Cabe registrar igualmente o declínio de Bolsonaro nas redes sociais ao longo deste ano e 62 pedidos de impeachment que foram protocolados na Câmara Federal. O presidente da Casa, Rodrigo Maia, que foi um dos principais protagonistas do golpe de 2016 contra Dilma (conforme revela em livro o ex-deputado Eduardo Cunha), deixou os pedidos na gaveta.

É hora da CTB, junto com as outras centrais e os movimentos sociais, intensificar a campanha Fora Bolsonaro. O X da questão é a mobilização do povo e o retorno das manifestações de rua, que está também na dependência do processo de vacinação.

Teremos um ano de muitas lutas, neste início provavelmente concentradas nos seguintes temas: fechamento da Ford e defesa do emprego dos operários ameaçados de demissão; pela vacinação; solidariedade a Manaus; pela imediata prorrogação do auxílio emergencial; por um plano de combate ao desemprego ancorado em investimentos públicos; contra as reformas administrativa e sindical e, coroando tudo isto, a campanha Fora Bolsonaro.

CTB

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