Os ataques dos EUA à ordem de segurança global e os desafios para o Brasil
As ações do novo governo Trump não deixam dúvidas sobre a intenção de atingir fortemente os pilares da ordem internacional criada no pós-guerra, em especial o multilateralismo global, representado pela ONU, e o sistema de segurança, caracterizado pela institucionalização do poder de veto das potências nucleares no Conselho de Segurança
“Há décadas em que nada acontece, e há semanas em que décadas acontecem”, teria declarado Lênin sobre as turbulências desencadeadas pela Revolução Russa de 1917, em meio à Primeira Guerra Mundial. Quase um século depois, esse adágio da política internacional ainda segue pertinente para resumir as três primeiras semanas de 2026. Uma sucessão de ações desestabilizadoras dos EUA, em diferentes partes do mundo, explicitou uma vontade deliberada do país de romper com o sistema de segurança global negociado entre grandes potências em 1945, após a Segunda Guerra Mundial. Se o tensionamento do sistema econômico foi a tônica da política externa do segundo governo Trump em 2025, após a adoção de um tarifaço global que não poupou aliados, a Casa Branca sinaliza que acelerará, agora, uma contrarrevolução nos fundamentos do multilateralismo que baliza o uso da força no mundo há 80 anos.
No dia 3 de janeiro, os EUA fizeram sua primeira intervenção militar direta na história da América do Sul ao invadirem a Venezuela e sequestrarem o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores. Ambos foram levados de navio para uma prisão em Nova York, onde aguardam julgamento, por um tribunal local, acusados de integrar uma “conspiração narcoterrorista” para exportar cocaína aos EUA. Após meses de tensões bilaterais, a operação militar “Resolução Absoluta”, ao longo de cinco horas em uma madrugada, cortou a energia elétrica de Caracas, bombardeou partes da cidade e enviou soldados em helicópteros para capturar o casal presidencial dentro de sua residência. Tudo foi acompanhado por Donald Trump à distância, por vídeo[1]. Cerca de 100 pessoas morreram, incluindo soldados venezuelanos e cubanos, além de civis[2]. Em uma coletiva de imprensa posteriormente, Trump declarou que a remoção de Maduro facilitará o controle do petróleo venezuelano pelos EUA[3]. A vice-presidente do regime chavista, Delcy Rodriguez, foi empossada e prometeu melhorar a colaboração com Washington[4].
Se um ataque flagrantemente imperialista dos EUA a um país da periferia para promover uma mudança de liderança não é propriamente uma novidade histórica, como visto no Panamá em 1989, entre outros casos, um abalo mais significativo na ordem global passou a ser perseguido por Trump ao reivindicar enfaticamente a soberania da Groelândia. No dia 7 de janeiro, a Casa Branca emitiu um comunicado afirmando que a aquisição da ilha pertencente à Dinamarca tinha se tornado uma prioridade de segurança nacional para deter incursões de países adversários no Ártico e que poderia usar força militar para alcançá-lo[5]. As intenções de instalar um escudo antimísseis no território (“Domo Dourado”) e explorar minerais críticos à indústria digital também justificariam a posse[6]. A reivindicação abriu imediatamente uma fissura com os membros europeus da OTAN. No dia 15, soldados foram enviados à Groelândia pela França, pelo Reino Unido, pela Alemanha, pela Suécia, pela Noruega, pela Finlândia e pelos Países Baixos[7], grupo contra o qual Trump anunciou um aumento de tarifas comerciais dois dias depois[8]. Na sequência, o Parlamento Europeu anunciou a suspensão da ratificação de um acordo comercial entre União Europeia e EUA assinado no ano passado.
Enquanto se instalava o impasse entre EUA e europeus, Trump fez um terceiro gesto surpreendente na área de segurança internacional ao anunciar, no dia 17, que havia enviado convites para líderes de 60 países comporem um Conselho da Paz presidido por ele. O conselho estava previsto no plano de paz anunciado por Washington, em outubro de 2025, para pôr fim à incursão militar de Israel na Faixa de Gaza. A novidade, porém, é que o conselho teria funções expandidas para além da supervisão de Gaza e passaria a lidar com outros conflitos internacionais. Membros teriam mandatos temporários de três anos ou poderiam pagar US$ 1 bilhão por assentos permanentes. No dia 23, o conselho foi oficialmente lançado, com a adesão de 21 países, além dos EUA: Arábia Saudita, Argentina, Armênia, Azerbaijão, Bahrein, Belarus, Catar, Cazaquistão, Egito, Emirados Árabes Unidos, Hungria, Indonésia, Israel, Jordânia, Kosovo, Kuwait, Marrocos, Paraguai, Turquia, Uzbequistão e Vietnã[9].
Embora Trump diga que o conselho trabalhará ao lado da ONU, a iniciativa é sugestiva de uma tentativa de formalizar um esvaziamento do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), completamente ignorado pelos EUA na invasão da Venezuela e na disputa pela Groelândia. Embora o questionamento da legitimidade do CSNU seja antigo, a alternativa proposta pelo presidente dos EUA, de forma unilateral e personalista, afasta-se ainda mais de uma revisão negociada sobre o uso do poder militar no mundo, amparado por regras previsíveis e instituições representativas. Entretanto, a adesão voluntária de duas dezenas de países do Sul geopolítico, muitos dos quais com governos autoritários, chama a atenção e mostra que Trump não está isolado no afã de redesenhar a ordem mundial à sua imagem. Vestígios de como essa ordem é antevista por ele foram expressos na National Security Strategy (NSS) dos EUA, publicada em novembro de 2025[10].
As intenções declaradas de Trump
A NSS não foge do personalismo típico de Trump ao conter um prefácio escrito por ele, no qual declara a ambição de promover uma inversão histórica de rumos dos EUA, orientada pelo mote America First e guiada pelo objetivo primordial de manter o país como o mais forte do mundo. Em seguida, a seção de introdução da estratégia detalha que esse objetivo de primazia busca ser uma alternativa ao caminho perseguido, desde o fim da Guerra Fria, pelas elites políticas dos EUA, as quais teriam assumido que dominar o mundo inteiro correspondia ao interesse nacional. Esse caminho teria levado os Estados Unidos a assumir fardos globais que o sobrecarregaram, a perseguir um livre comércio que debilitou a indústria e a classe média e a fomentar uma rede de instituições internacionais que, muitas vezes, agiram para debilitar a soberania nacional.
A fim de prover uma nova orientação internacional para os EUA, a estratégia de Trump anuncia nove princípios basilares: 1) Definição enxuta de interesse nacional; 2) Força como melhor instrumento de dissuasão; 3) Predisposição ao não intervencionismo (embora assuma que uma aplicação rígida desse princípio seja impossível, dados os interesses diversos do país); 4) Realismo flexível (isto é, não impor democracias ou mudanças sociais incompatíveis com tradições e histórias de outros países, sem deixar de apoiar like-minded friends que queiram fortalecer a cultura ocidental); 5) Primazia das nações como unidades políticas básicas do mundo; 6) Respeito à soberania; 7) Balança de poder (ajudar aliados a manter equilíbrios de poder nos planos global e regional contra adversários); 8) Defesa dos trabalhadores dos EUA; 8) Justiça (não tolerar mais free-riding, desequilíbrios comerciais e práticas econômicas predatórias de outros países) e 9) Competência e mérito (coibir “ideologias radicais” dentro dos EUA que almejariam substituir esses dois valores sociais pela proteção de grupos favorecidos).
A partir dessa lista de princípios, a estratégia estabelece cinco prioridades dos EUA no plano internacional: 1) Eliminar a migração em massa (a segurança de fronteiras é anunciada como o elemento primordial da segurança nacional); 2) Proteger direitos e liberdades fundamentais (nos EUA, na Europa, na “Agloesfera” e no resto do mundo democrático); 3) Partilha e transferência de custos (burden-sharing and burden-shifting, em inglês, por meio da construção de uma rede de aliados regionais); 4) Realinhamento pela paz (uso de diplomacia presidencial para buscar acordos de paz, convergência de interesses e novos mercados) e 5) Segurança econômica (comércio equilibrado, controle de cadeias de suprimento, reindustrialização dos EUA por meio de tarifas comerciais sobre importações, fortalecimento da indústria de defesa, produção de energia abundante e barata, preservação da dominância dos EUA no setor financeiro global).
Finalmente, esse conjunto de princípios e prioridades leva à exposição de cinco interesses nacionais: 1) Estabilizar o Hemisfério Ocidental por meio da aplicação de um Corolário Trump à Doutrina Monroe, resumido em garantir o acesso dos EUA a locais estratégicos e combater a migração de massa, organizações criminosas transnacionais (sobretudo de “narcoterrorismo”) e incursões de potências estrangeiras hostis na região, mantendo-a sob hegemonia de Washington, conforme pregava a doutrina anunciada em 1823; 2) Manter o Indo-Pacífico aberto à navegação dos EUA; 3) Preservar a liberdade, a segurança e a identidade ocidental da Europa (declara-se um otimismo com a crescente influência de “partidos europeus patrióticos”); 4) Impedir que potências rivais dominem o Oriente Médio, sobretudo suas reservas de energia; e 5) Promover a liderança dos EUA nos setores de inteligência artificial, biotecnologia e computação quântica.
Em todo esse rol de definições, há uma ausência marcante de menções ao multilateralismo e à ONU. A ordem que os EUA almejam construir é declaradamente sustentada por uma “rede ampla de alianças por meio de tratados com parceiros regionais” (NSS, 2025, p. 6, tradução nossa), “ausência de potências competidoras no Hemisfério Ocidental” (ibid.) e “separação de outras grandes potências por meio de oceanos” (ibid.). Além disso, a liderança pessoal de Trump é exaltada como instrumental para o sucesso da estratégia, pois ele seria capaz de “utilizar diplomacia não convencional, o poderio militar e a influência econômica dos EUA para extinguir cirurgicamente faíscas de divisão entre nações com capacidade nuclear e guerras violentas causadas por séculos de ódio” (NSS, 2025, p. 8, tradução nossa).
A NSS tampouco menciona o conceito de multipolaridade, porém declara que os EUA não negarão a existência de outras grandes potências no mundo no processo de se manterem como a mais poderosa entre todas:
Ao rejeitarmos o conceito malfadado de dominação global, devemos impedir a dominação global, e em alguns casos até regional, de outros países. Isso não significa desperdiçar sangue e recursos para restringir a influência de todas as grandes e médias potências mundiais. A influência desproporcional de nações maiores, mais ricas e mais fortes é uma verdade atemporal das relações internacionais. Essa realidade implica trabalhar com parceiros para frustrar ambições que ameacem nossos interesses (NSS, 2025, p. 10, tradução nossa).
Nesse esforço, os EUA prometem perseguir uma “estabilidade estratégica” na Eurásia. Com a Rússia, buscarão uma pacificação da sua relação com vizinhos europeus, que deverão aumentar seus gastos com a OTAN. No Oriente Médio, os aliados de primeira ordem, sobretudo contra o Irã, serão Israel e as monarquias do Golfo. Em relação à China, país que recebe a atenção mais detalhada na NSS, critica-se a política adotada pelos EUA, ao longo de 30 anos, de apoiar sua abertura econômica por meio de investimentos em fábricas de manufaturas. Essa orientação teria produzido uma relação econômica assimétrica. A política protecionista adotada pelo primeiro governo Trump, a partir de 2017, teria sido respondida por Pequim com um aumento de exportações e controle de suprimentos em países de renda média e baixa, aprofundando a assimetria bilateral e ameaçando a livre navegação no Mar do Sul da China.
Para conter a China, a estratégia indica que os Estados Unidos dividirão encargos de dissuasão com Índia, Taiwan, Coreia do Sul, Japão e Austrália, assim como incentivarão aliados a adotar políticas comerciais que levem a economia da China a focar mais em consumo doméstico do que em exportações. A tentativa de tirar mercados de exportação da China será complementada com um esforço de ocupação desses mercados pelos EUA e seus aliados:
Os EUA e seus aliados ainda não formularam, muito menos executaram, um plano conjunto para o chamado “Sul Global”. […] Os EUA devem […] mobilizar seus aliados e parceiros europeus e asiáticos, incluindo a Índia, a consolidar e aprimorar nossas posições conjuntas no Hemisfério Ocidental e, no que diz respeito a minerais críticos, na África. Devemos formar coalizões que utilizem nossas vantagens comparativas em finanças e tecnologia para construir mercados de exportação com países que cooperem. Os parceiros econômicos dos EUA não devem mais esperar obter renda dos EUA por meio de excesso de produção e desequilíbrios estruturais, mas sim buscar crescimento por meio de cooperação gerenciada, atrelada ao alinhamento estratégico e ao recebimento de investimentos estadunidenses de longo prazo (NSS, 2025, p. 22-23, tradução nossa).
Nessa perspectiva, a América Latina e a África emergem como tabuleiros na disputa por influência contra a China, sobretudo no acesso a energia e minerais. Enquanto a estratégia para a África será parar de disseminar ideologia liberal e focar em parcerias econômicas, o Corolário Trump à Doutrina Monroe almeja transformar os EUA no parceiro econômico e securitário prioritário dos países americanos. Nesse segundo caso, a Casa Branca anuncia que priorizará colaborações com aliados de confiança (governos, partidos e movimentos) e expandirá cooperações em comércio, energia, infraestrutura, defesa, inteligência e segurança por meio de acordos que beneficiem empresas estadunidenses, inclusive em contratos governamentais. Entretanto, ressalta que “não devemos desconsiderar governos com perspectivas diferentes, com os quais compartilhamos interesses e que desejam trabalhar conosco” (NSS, 2025, p. 16, tradução nossa), em um possível aceno a Brasil e México.
Entre a intenção e a realidade de uma nova ordem
A NSS e as ações do novo governo Trump não deixam dúvidas sobre a intenção de atingir fortemente os pilares da ordem internacional criada no pós-guerra, em especial o multilateralismo global, representado pela ONU, e o sistema de segurança, caracterizado pela institucionalização do poder de veto das potências nucleares no Conselho de Segurança. Ainda que imperfeito, o órgão foi capaz de impedir um conflito em escala mundial até a atualidade. A ironia do presente é que esse arcabouço institucional está sendo corroído pelo país que liderou a sua criação e o manteve mesmo durante grandes mudanças internacionais, em especial a derrocada da União Soviética, o fim da Guerra Fria e a emergência econômica da China como potência global.
Neste contexto volátil e imprevisível, como é seu agente destruidor, alguns analistas já estão dando como certa a emergência de uma nova ordem, ainda que em estágios muito embrionários. Em artigo recente, Stacie Goddard e Abraham Newman (2025)[11]argumentam que o sistema westfaliano, centrado no princípio da soberania territorial e da não intervenção, tem historicamente convivido com a mais recente ordem internacional liberal, que adicionou instituições baseadas em regras destinadas a regular as relações de trocas interdependentes e gerar paz e prosperidade compartilhadas. Segundo os autores, esse ordenamento estaria sendo desafiado pelo emergente neo-royalism, ordem centrada em “redes de elites políticas, econômicas e militares que buscariam gerar hierarquias materiais e de status duráveis, baseadas na extração de tributos financeiros e culturais” (ibid, p. 13, tradução nossa).
Segundo os autores, este tipo de ordenamento existiu em outros tempos e lugares, coexistiu com sistemas baseados em Estados e não teria começado com Trump, seu principal artífice, que, no presente, agiria como o “ordenador mundial”. Para os autores, o triunfo do neo-royalism é altamente contingente, mas Trump, segundo eles, seria capar de mobilizar governantes semelhantes e abandonar quem resistir. Os autores descrevem as diferenças entre essa nova ordem e as precedentes em termos de atores principais (elites superpoderosas chamadas de “cliques”), propósitos (hierarquias), meios de sustentação (tributos) e legitimação (excepcionalidade e direito divino). Ainda que os autores afirmem que essa nova ordem não é inevitável, apontam que vários outros governantes no presente se acham acima da lei e tenderiam a seguir a mesma linha de Trump.
Várias críticas podem ser feitas a este artigo. Uma delas é supor que as ordens pretéritas westfaliana e liberal foram homogêneas, quando, na verdade, várias das características da ordem neo-royalista estavam presentes em ambas. Mas a falha mais grave é a enumeração de suas características principais, as quais descrevem perfeitamente o perfil de atuação internacional de Trump, como se não houvesse distinção entre a política externa dos EUA e a ordem efetivamente existente. Além disso, o artigo não aponta contradições importantes dessa suposta nova ordem. Uma delas é que a China, uma potência global comparável aos EUA, tem sido muito beneficiada pela ordem econômica liberal, baseada em regras gerais. Os autores citam esse fato, mas não como uma contradição importante da suposta ordem neo-royalista, à qual não interessaria à China aderir. Em suma, supor como inevitável uma nova ordem neo-royalista parece ser, no fundo, normalizar e legitimar a atuação internacional de Trump.
Descrever a conjuntura internacional atual e a sua destruição operada gradativamente por Trump não nos deve afastar da ideia de que existem opções para aqueles países que querem resistir ao patrimonialismo predatório de Trump[12]. O discurso do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, no Fórum Econômico de Davos, em 21 de janeiro, representa uma das respostas mais contundentes na atualidade diante da tentativa de ruptura da ordem mundial por Trump. Segundo Carney, potências médias, como o Canadá, têm que agir conjuntamente, “porque, se não estão na mesa, estarão no cardápio!” As opções, para ele, são competir entre si em favor do mais forte ou agir conjuntamente com algum impacto. No cerne da sua proposta, consta uma sociedade pluralista, inclusiva e sustentável, uma economia forte e diversificada, uma defesa sólida ancorada na indústria, acordos estratégicos com determinados países e variados acordos de livre comércio com países de todos os hemisférios.
A posição do Brasil
No caso brasileiro, a organização exitosa da COP-30 do Clima, em novembro passado, foi um recado de compromisso com um multilateralismo global que tenta se renovar ao incorporar uma maior participação da sociedade civil. Delegações de 195 países compareceram ao evento. As duas semanas de negociação resultaram na aprovação de uma série de documentos, voltados sobretudo para a aceleração da implementação de políticas climáticas, o enfrentamento da adaptação climática de forma socialmente justa e o aumento da transferência de recursos do Norte para o Sul. O Brasil também lançou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), primeiro mecanismo internacional que captará recursos públicos e privados para remunerar governos pela preservação de florestas tropicais na América Latina, na África e na Ásia.
Além disso, a recente assinatura do Acordo União Europeia–Mercosul constitui um passo importante para fazer face às crescentes incertezas geopolíticas. Depois de quase um quarto de século em negociação, a assinatura foi formalizada em 17 de janeiro. Certamente as negociações para a ratificação não serão fáceis e podem ser marcadas por decepções, como indica a decisão do Parlamento Europeu de judicializar o acordo, o que deve atrasar a sua implementação. Ainda assim, tratou-se de um sinal de que a política externa brasileira está comprometida com a diversificação de parcerias comerciais, havendo ainda negociações em andamento do Mercosul com Canadá, Índia e Japão. Esta é a primeira vez que a política externa brasileira assume a negociação de novos acordos comerciais como prioridade estratégica.
A situação política na América do Sul é definitivamente desfavorável ao governo Lula, com quase todo o restante da região, do Equador à Patagônia, sendo governada por partidos de direita, com exceção do Uruguai. Essa tendência impede qualquer política regional consistente com o que sempre foi almejado pelos governos do PT. Sendo assim, é a hora certa de dar um passo para além do continente, permitindo ao Brasil diversificar suas parcerias comerciais, o que também poderia incluir outro acordo inter-regional do Mercosul com a ASEAN, por exemplo. A crítica que setores da esquerda fazem ao acordo UE-Mercosul nos parece pouco estratégica neste momento da atual conjuntura. Acordos desta natureza são dinâmicos e dependem de ações políticas posteriores que podem ou não ratificar resultados prejudiciais iniciais. O acordo propiciará que o Brasil participe de cadeias produtivas de valor das quais esteve ausente até agora, o que abre novas possibilidades de agência.
Por fim, cabe lembrar que, neste ano, teremos eleições presidenciais no Brasil. Esse momento será decisivo para definir os rumos do país nas próximas décadas. É bem provável que o governante norte-americano e seus assessores tentem intervir nos resultados eleitorais. Para o Brasil, parece-nos que estará colocada a escolha sugerida pelo primeiro-ministro canadense: aderir ao patrimonialismo predatório de Trump ou seguir na linha de um “realismo baseado em valores”.
Maria Regina Soares de Lima é professora colaboradora do IESP-UERJ, bolsista sênior do CNPq e coordenadora do Observatório Político Sul-Americano (OPSA)
Diogo Ives é pesquisador associado do IESP-UERJ e coordenador-adjunto do Observatório Político Sul-Americano (OPSA)
[1] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce8gezn9p3vo.
[2] Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/07/ataque-eua-mortos-civis-venezuela.ghtml.
[3] Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/trump-petroliferas-dos-eua-estao-preparando-investimento-massivo-na-venezuela/.
[4] Disponível em: https://x.com/delcyrodriguezv/status/2011557862380871974.
[5] Disponível em: https://www.rte.ie/news/world/2026/0106/1551705-greenland/.
[6] Disponível em: https://www.france24.com/en/americas/20260117-does-trump-need-own-greenland-to-build-his-golden-dome-missile-shield.
[7] Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cd0ydjvxpejo.
[8] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cr57q7889z4o.
[9] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-01/trump-lanca-em-davos-conselho-de-paz-criado-por-ele.
[10] Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf.
[11] Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/international-organization/article/further-back-to-the-future-neoroyalism-the-trump-administration-and-the-emerging-international-system/ABB12906CA345BBCA5049B544363D391.
[12] Em artigo recente de Pedro H. Villas Bôas Castelo Branco e Carina Barbosa, os autores comparam as principais características institucionais do Conselho da Paz, proposto por Trump, às do Conselho de Segurança da ONU. Na comparação, emerge a natureza predatória do patrimonialismo de Trump. Disponível em: https://ulyssesblog.com.br/trump-quer-substituir-a-onu/.





