A ameaça golpista do “Projeto de Nação”

Especificamente no que toca à educação, a proposta dos setores militares aponta, entre as diretrizes, visão de mundo particularmente da caserna. Esses setores não evoluíram e mantêm, ainda, a mentalidade da “ideologia da segurança nacional”

É aparentemente delirante, mas também extremamente assustador e perigoso, o documento “Projeto de Nação: o Brasil em 2035”, lançado na última semana por setores militares e que tem circulado no WhatsApp e nas demais redes sociais e aplicativos de mensagens.

Delirante porque, “a partir da elaboração de Cenários Prospectivos e da descrição do Cenário Foco”, como o próprio texto descreve, narra um fictício Brasil 13 anos no futuro — um Brasil que supostamente terá superado problemas de desenvolvimento econômico, atrasos educacionais, duas pandemias (de coronavírus e de um ainda não conhecido “Xvírus”) e será membro da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Tudo isso a partir de “Estratégia Nacional”, ou EN, controlada por um “Centro de Governo”, ou CdG, e por um “Sistema Integrado de Gestão Estratégica”, ou Sige-BR.

(Qualquer semelhança com o apreço da ditadura civil-militar de 1964-1985 por siglas do gênero não terá sido mera coincidência, assim como qualquer delírio sobre a capacidade desenvolvimentista — lembrando que, a despeito de reivindicar pretenso “milagre econômico”, a ditadura deixou o Brasil num triste caos de fome, miséria e carestia.)

Apesar dos devaneios, o projeto é também assustador e perigoso porque, sob o pressuposto de “conhecer a evolução de uma conjuntura fictícia, como subsídio para a tomada de decisões, especialmente no nível político-estratégico (objetivos, diretrizes e estratégias)”, o documento de 93 páginas faz ameaças bastante reais e que pressupõem interferências militares muito presentes. Em outras palavras, o Brasil de 2035 descrito na peça farsesca assinada pelos institutos General Villas Bôas, Sagres e Federalista é praticamente uma fanfic; já o papel golpista que veladamente (ou nem tanto) assumem, mais uma vez, no documento e a partir desse, não tem nada de ficção.

Educação na mira da tropa

Especificamente no que toca à educação, a proposta dos setores militares aponta, entre as diretrizes, “Aperfeiçoar a formação profissional, ética e cívica dos quadros docentes”, “Coibir a ideologização nociva do ensino”, “Implementar Políticas Públicas para limitar a ingerência do corporativismo sindical, no que comprometa o cumprimento das atribuições legais do Sistema de Ensino”, “Normatizar a Educação Básica e a Fundamental, visando a formação humana, científica e profissional e não a atender a propósitos de ideologias de qualquer natureza”, “Estudar as vantagens de disseminar o modelo das escolas cívico-militares, no tocante às normas de disciplina, respeito, higiene, civismo e práticas pedagógicas sem que, necessariamente, os estabelecimentos de ensino sejam transformados nesse modelo escolar”.

No último dia 16, o Contee Conta recebeu (ainda que brevemente, por problemas técnicos) o professor Manuel Domingos Neto, aposentado da UFF (Universidade Federal Fluminense), doutor em História pela Universidade de Paris, ex-vice-presidente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e ex-presidente da Abed (Associação Brasileira de Estudos de Defesa). Na conversa, comentou-se sobre a interferência dos militares na educação, aliada ao governo Bolsonaro, ao movimento “Escola Sem Partido”, ao homeschooling, à defesa de ensino acrítico e submetido aos interesses privatistas, como projeto de poder. Lançado três dias depois de o Contee Conta ir ao ar, o “Projeto de Nação”, atacando o livre pensamento, o magistério, as escolas e universidades públicas etc., torna isso evidente.

Quem eles pensam que são?

Ainda no Contee Conta sobre os militares e a democracia, o primeiro ponto abordado foi o artigo do entrevistado Manuel Domingos Neto, publicado no Brasil 247, intitulado “Distúrbio de personalidade”. Neste, o historiador aponta a coletânea de facetas vestidas pelos militares ao longo destes dois séculos de Forças Armadas:

“…guarda civil, vigilante patrimonial, engenheiro faz-tudo (inclusive, templos religiosos), desbravador dos sertões, civilizador etnocida, falacioso protetor de nativos, renovador da medicina e da veterinária, cartógrafo pioneiro, teorizador do progresso, introdutor de técnicas de recenseamento, pensador geopolítico, teórico do autoritarismo numa pátria sem povo, algoz de trabalhadores rurais insurgidos contra a fome, carrasco praticante de degolas, braço armado de potentados rurais, justiceiro em terras paraguaias, defensor de ocasião do abolicionismo, fundador e patrono da República, tutor do Estado e da sociedade, promotor da modernidade, implantador de linhas telegráficas, candidato a representante de setores médios urbanos insatisfeitos, planejador e gerente de negócios públicos, alimentador do clientelismo despudorado, introdutor da promoção pelo mérito avaliado pelo viés corporativo, admirador do nazifascismo, herói do embate contra Hitler e Mussolini, guarda-costeiro equipado com porta-aviões, navegador de longo curso em barcos caríssimos, segurança da Federação contra oligarcas provinciais, amigo dos donos de terra, gado e gente, desbravador dos ares em aviões importados, correio aéreo, estudioso de ventos e correntes marítimas, fabricante frustrado de armas e equipamentos, cliente submisso do complexo industrial-militar de potências estrangeiras, construtor fracassado de bomba atômica, defensor e sabotador da autonomia energética, paladino do desenvolvimento científico e tecnológico e perseguidor de professores, cientistas e estudantes, conspirador permanente contra a democracia, defensor pontual da Constituição, demolidor intimorato da Carta, assassino de patriotas, estuprador de mulheres, araponga infiltrado nos movimentos sociais, vigilante de fronteira terrestre, protetor do meio ambiente, defensor da Amazônia, estimulador da destruição ambiental e entregador da Amazônia, bondoso assistente social da pobreza gritante, agente de saúde, negacionista empedernido, intérprete do processo histórico, impiedoso censurador de músicos e escritores, definidor arrogante e defensor intransigente dos objetivos permanentes da nacionalidade por ele mesmo definidos, inimigo de cientistas sociais que não glorificam o legado colonial, planejador do desenvolvimento nacional, professor de educação moral e cívica, defensor da tradição, da moral e dos bons costumes, impiedoso contestador de políticas de inclusão social, defensor da paz social em sociedade injusta, corajoso invasor de favelas urbanas em nome da Lei e da Ordem, missioneiro da paz designado pela ONU, ideólogo e controlador dos aparelhos da segurança pública avessa à cidadania de pretos e pobres, denunciante (sem provas) de ONGs financiadas por estrangeiros gananciosos, defensor altivo da soberania de fachada, correia de transmissão de políticas defendidas por agências multilaterais, entregador de empresas estratégicas ao estrangeiro rico, fabricante de pós-verdades…”

Muitas destas estão presentes, juntas, no tal “Projeto de Nação”.

“Cabe esperar qualquer coisa de portador de distúrbio de personalidade não diagnosticado a tempo e alimentado pela covardia política”, escreveu o professor, no artigo. “No caso brasileiro, o píncaro da glória do portador de distúrbio ocorreu quando um líder popular foi preso injustamente e um demolidor assumiu o mandato presidencial.”

Domingos Neto acrescenta que “Não há razões para duvidar que, diante da rejeição popular ao mandatário educado nas Agulhas Negras, o enfileirado assuma outra missão: tumultuar a contagem eletrônica de votos. Da confusão armada, o guerreiro portador de distúrbio poderá emergir impoluto para salvar a pátria mais uma vez.”

Táscia Souza

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