Dica Cultural: livro “Mentes Brilhantes Não Pensam Igual” de Marcelo Gleiser
A dica cultural desta semana parte da live de lançamento e apresentação do livro Mentes Brilhantes Não Pensam Igual, de Marcelo Gleiser, disponível online. Na conversa, o autor apresenta a origem da obra, explica sua estrutura e comenta os principais temas discutidos ao longo do livro, funcionando como uma introdução ao conteúdo dos diálogos reunidos na publicação.
O livro nasce de um projeto desenvolvido por Gleiser ao longo de cinco anos, em universidades e espaços públicos, com o objetivo de promover encontros entre cientistas e pensadores das humanidades. Na live, o autor afirma que a motivação central do projeto foi enfrentar o distanciamento crescente entre essas áreas do conhecimento, uma separação que ele identifica como problemática tanto do ponto de vista acadêmico quanto para a compreensão mais ampla da experiência humana. Gleiser retoma o diagnóstico formulado por C. P. Snow, em 1959, sobre o “problema das duas culturas”, ressaltando que, historicamente, ciência, filosofia, arte e espiritualidade não estavam tão dissociadas quanto se tornaram a partir do século XIX.
Em vez de propor sínteses ou respostas definitivas, Gleiser apresenta o diálogo como método. O livro é estruturado em oito conversas, cada uma dedicada a um tema: o mistério da consciência, a natureza da realidade, a inteligência artificial e a inteligência extraterrestre, a espiritualidade, o tempo, o transumanismo, a longevidade humana e planetária e, por fim, o significado de ser humano. Segundo o autor, a proposta é colocar em contato visões distintas, permitindo que divergências, tensões e convergências apareçam de forma aberta, sem a expectativa de consenso.
Entre os participantes dos diálogos estão nomes como António Damásio e David Chalmers, que discutem a natureza da consciência, questionando a ideia de que ela possa ser explicada apenas como resultado do funcionamento do cérebro. Na conversa apresentada na live, Gleiser destaca a crítica de Damásio à separação entre mente e corpo e a posição de Chalmers ao afirmar que a subjetividade da experiência consciente não pode ser plenamente explicada pelos métodos tradicionais da ciência. Alan Wallace e Sean Carroll dialogam sobre a natureza da realidade, contrapondo uma visão materialista e reducionista a abordagens que reconhecem diferentes níveis de descrição e complexidade dos fenômenos naturais.
Alan Lightman e Rebecca Goldstein refletem sobre espiritualidade, fé, ateísmo e agnosticismo, defendendo a possibilidade de uma experiência espiritual desvinculada de religiões institucionalizadas, associada ao deslumbramento diante da existência e da natureza. Jill Tarter contribui com reflexões sobre a busca por inteligência extraterrestre, abordando o silêncio cósmico, os limites da comunicação humana e as dificuldades envolvidas na tentativa de identificar e interpretar sinais de outras formas de inteligência no universo. Patricia Churchland, por sua vez, discute a questão da inteligência das máquinas, defendendo que sistemas artificiais podem desenvolver formas de cognição e, possivelmente, algum tipo de consciência distinta da humana.
A live também destaca os diálogos dedicados ao futuro tecnológico. Gleiser comenta a conversa sobre inteligência artificial, transumanismo e ciborgues, realizada entre um pesquisador de inteligência artificial do MIT e o jornalista e escritor irlandês Mark O’Connell. No diálogo, são discutidas ideias como a possibilidade de transferência da mente humana para máquinas, a noção de singularidade tecnológica e a hipótese de que sistemas artificiais possam superar a inteligência humana. Ao longo da apresentação, o autor manifesta uma postura crítica em relação a essas promessas, enfatizando que máquinas não compartilham da experiência corporal, histórica e existencial que caracteriza a condição humana.
Outro tema abordado na live é o tempo. Gleiser explica que o livro distingue o tempo físico, descrito pela termodinâmica e marcado pela irreversibilidade, do tempo vivido, associado à percepção, à memória e à experiência subjetiva. Ao retomar debates entre físicos e filósofos, como Henri Bergson, o autor ressalta que compreender o humano exige levar em conta essa dimensão do tempo que não se reduz à descrição matemática.
Nos diálogos finais, a obra se volta para a longevidade humana e planetária. Gleiser apresenta a conversa entre Elizabeth Kolbert e Siddhartha Mukherjee, que articula reflexões sobre o aumento da expectativa de vida, os avanços da medicina e, simultaneamente, a crise ambiental e a possibilidade de uma sexta extinção em massa causada pela ação humana. A partir desse contraste, emerge a pergunta sobre como a humanidade pode garantir sua continuidade sem comprometer as condições de vida no planeta.
Gleiser enfatiza ainda que todos os diálogos do livro resultam de encontros realizados ao vivo, posteriormente transcritos, editados e comentados. Na live, ele se apresenta como mediador desses diálogos, buscando organizar as diferentes perspectivas sem eliminar conflitos ou impor conclusões fechadas. Nesse sentido, a live de lançamento integra a própria proposta do livro, ao tornar visível o método do diálogo que estrutura a obra.
Ao final da apresentação, Gleiser retoma a ideia de que os seres humanos são, fundamentalmente, contadores de histórias. Da arte rupestre à ciência contemporânea, a humanidade constrói sentido narrando sua experiência no mundo. Para o autor, essa capacidade narrativa é um dos traços centrais da condição humana e atravessa todos os diálogos reunidos em Mentes Brilhantes Não Pensam Igual.
O livro não oferece respostas prontas, mas propõe um exercício de escuta e reflexão diante de temas centrais do nosso tempo. A live de lançamento, disponível online, complementa a leitura ao apresentar diretamente os contextos, as perguntas e os debates que deram origem à obra.
Ao aproximar ciência, humanidades e reflexão ética, Mentes Brilhantes Não Pensam Igual contribui para ampliar o debate sobre o papel social da educação. Nesse sentido, a obra dialoga diretamente com os princípios que orientam a atuação da CONTEE na defesa do direito à educação, na valorização do conhecimento e na construção de uma sociedade mais justa, solidária e plural, reforçando a importância de uma formação humana crítica e democrática.
Por Antônia Rangel
Referência:
GLEISER, Marcelo (organizador e autor). Tradução: Alexandre Cherman. Mentes brilhantes não pensam igual: debates sobre inteligência artificial, consciência, realidade, fé, tempo, imortalidade e humanidade. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2026. 364 p. ISBN 978-85-01-92524-4.





