Portugal: Esquerda massacra extrema direita e vence a presidência da República
António José Seguro, do Partido Socialista, teve quase 70% dos votos sobre André Ventura, do Chega, o "Bolsonaro português"
O resultado das urnas funciona como um dique de contenção institucional. Embora derrotado na corrida pelo Palácio de Belém, o Chega sai do ciclo eleitoral com tamanho suficiente para tumultuar o debate público via Parlamento. A vitória de Seguro, portanto, impõe um limite às ambições de Ventura, provando que, no confronto direto, a mobilização do campo democrático ainda é capaz de traçar uma linha vermelha contra projetos autoritários.
Repercussão no Brasil
O triunfo socialista ecoou imediatamente entre lideranças do campo progressista brasileiro, que interpretaram o resultado como um recado direto contra a ascensão da ultradireita global. Ministra da Secretaria de Relações Institucionais do governo Lula, Gleisi Hoffmann celebrou o desfecho nas redes sociais, classificando a eleição como uma “grande vitória da democracia” e parabenizando o povo português pela derrota do candidato extremista.
No mesmo tom, o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, destacou que o resultado prova que “é possível derrotar a extrema direita”, traçando um paralelo imediato com o enfrentamento ao bolsonarismo no Brasil. E seguindo na mesma linha parlamentares governistas reforçaram a leitura de que a vitória de Seguro reafirma valores humanitários e de direitos, contrapondo-se às narrativas de ódio e exclusão que ganham terreno na Europa.
A comparação de Ventura com Jair Bolsonaro, embora rejeitada publicamente pelo candidato português, persiste como um marcador político inevitável. A retórica agressiva, o foco na securitização e o discurso duro contra a imigração mantêm o apelido de “Bolsonaro português” circulando internacionalmente para situar o Chega no mapa da ultradireita.
O resgate histórico e o poder de Belém
A eleição também carrega uma simbologia histórica profunda: Seguro torna-se o primeiro presidente ligado ao Partido Socialista (PS) desde Mário Soares, protagonista da transição democrática pós-Revolução dos Cravos, que presidiu o país entre 1986 e 1996. A volta de um socialista à Presidência é vista por setores progressistas como a recuperação de uma linhagem política associada à consolidação democrática e à expansão de direitos sociais.
Embora Portugal viva sob um regime semipresidencialista — onde o comando cotidiano do Executivo cabe ao primeiro-ministro —, o Presidente da República detém a “bomba atômica” institucional. Cabe ao chefe de Estado arbitrar crises, vetar legislações e, em situações limite, dissolver o Parlamento e convocar novas eleições.
Seguro sucederá Marcelo Rebelo de Sousa com a tarefa de exercer essa mediação em um ambiente polarizado. Seu desafio será duplo: garantir a estabilidade institucional exigida pelo eleitorado e, simultaneamente, reduzir a influência social de um polo ultradireitista que, mesmo derrotado nas urnas, segue organizado e barulhento.





