Só investimento público pode frear o aumento da população em situação de rua, alerta especialista
Estudo da UFMG mostrou que o Brasil tem mais de 365 mil pessoas nessa condição atualmente
O crescimento da população em situação de rua no Brasil, apontado em pesquisa divulgada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é fruto de uma série de fatores combinados. É o que explica o cientista social Alan Carvalho, especialista em políticas públicas e controle social.
Atualmente, segundo a UFMG, são mais de 365 mil pessoas nessa condição no país – em 2024, eram 327 mil. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Carvalho afirmou que o descaso com as políticas públicas e a retirada sistemática de financiamento levam mais pessoas às ruas.
“Como todo fato social, a questão é multifatorial”, resumiu o especialista. Entre outros fatores listados estão as privatizações (ou a “privataria”, como ele prefere classificar) em série, que enfraquecem os cofres públicos; isenções e benefícios para empresários e super ricos; e a explosão das emendas parlamentares, que enfraquecem as ações ministeriais.
Outros problemas mais recentes também são relevantes nessa questão. “A ascensão da extrema direita, que é totalmente contrária a direitos, que vive de cassar direitos e buscar privilégios para a elite econômica do nosso país; a financeirização do nosso sistema econômico, também, com o enfraquecimento da indústria. Além da tecnologia, servindo de mais geração de desemprego, porque suprime vagas, não traz alternativas compensatórias que possam requalificar e recolocar os trabalhadores”, apontou.
O estado de São Paulo segue sendo, de longe, o que concentra maior população em situação de rua: são 150 mil, cerca de 40% do total do Brasil. E as políticas que atingem essa população no estado, segundo o especialista, são “maquiagens com efeito eleitoreiro”.
“A cracolândia misteriosamente foi desintegrada, parece que ela deixou de existir. Era uma ferida escancarada, a céu aberto, que denunciava como essa desigualdade social massacra sobretudo os mais vulneráveis. Na verdade, o que aconteceu é que ela foi espalhada. Foi diluída pela cidade”, destacou. “Com isso, cria-se uma cortina de fumaça, some-se com as imagens, e tem-se a sensação de que milagrosamente o problema acabou”.
O especialista aponta que há um fomento à cultura da chamada aporofobia, a fobia ao pobre: é criada a imagem de uma figura a ser eliminada do convívio social, inclusive com situações de extermínio.
“É preciso desconstruir essa cultura, entender que essas pessoas são vítimas, são trabalhadores, privados até de vender sua mão de obra explorada, e que estão no degrau mais baixo da pirâmide social. Elas precisam de recursos públicos regulares, de políticas públicas eficientes, nas áreas de assistência social, saúde, educação e, principalmente, habitação, para oferecer uma solução efetiva”.
Editado por: Nathallia Fonseca





