Quando a guerra atinge escolas: a desumanização dos conflitos no século 21
Por Cristina Castro*
Quando um bombardeio começa por uma escola, por crianças, por espaços que deveriam ser protegidos pelo mais elementar princípio humanitário, o que está em jogo não é apenas uma estratégia militar, mas, é a própria ideia de humanidade.
Nos últimos anos, conflitos armados têm demonstrado um padrão alarmante: a crescente exposição de civis como vítimas diretas. Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), em guerras contemporâneas cerca de 90% das vítimas são civis, proporção drasticamente superior aos conflitos do início do século 20. Em territórios como Faixa de Gaza, relatórios de organismos internacionais apontam a destruição de milhares de residências, hospitais, universidades e escolas. A própria ONU informou que, em diferentes ofensivas recentes, mais de 70% da infraestrutura habitacional foi danificada ou destruída, afetando profundamente crianças e famílias inteiras.
Bombardear uma escola, seja onde for, rompe um dos pilares do Direito Internacional Humanitário, estabelecido pelas Convenções de Genebra: a proteção de civis e de espaços não militares. No entanto, a guerra do século 21 parece ter relativizado esses limites. A tecnologia militar atual permite alta precisão por satélite, drones com reconhecimento facial, sistemas avançados de mapeamento. Por isso, quando um alvo civil é atingido, a discussão deixa de ser apenas “erro técnico” e passa a ser também política e ética.
O modo operante que já vinha sendo denunciado em conflitos anteriores, inclusive no próprio Oriente Médio, demonstra que a linha entre alvo militar e civil tem se tornado cada vez mais tênue. Em guerras recentes, organizações diversas, como a Anistia Internacional, denunciaram ataques a escolas utilizadas como abrigos, hospitais superlotados e comboios humanitários.
Além das mortes imediatas, os prejuízos de uma guerra são estruturais e de longo prazo, trazendo impactos humanos como mortes e mutilações permanentes, traumas psicológicos profundos, especialmente em crianças, gerações inteiras com educação interrompida, aumento da fome e de doenças.
O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) alerta que milhões de crianças vivem atualmente em zonas de conflito, muitas privadas de escola por anos consecutivos.
Traz também grandes impactos econômicos, como destruição de infraestrutura (estradas, hospitais, escolas, energia), colapso de economias locais, aumento do desemprego e da pobreza, dependência prolongada de ajuda internacional.
A reconstrução de países devastados por guerras pode levar décadas e consumir trilhões de dólares. O Iraque e o Afeganistão, por exemplo, ainda enfrentam profundas dificuldades estruturais após intervenções militares lideradas pelos Estados Unidos no início do século 21.
Outro impacto também extremamente preocupante é geopolítico, que acentua a radicalização política, traz o crescimento de grupos extremistas, o aumento de fluxos massivos de refugiados e a instabilidade regional prolongada.
Hoje, o mundo vive o maior número de deslocados forçados desde a Segunda Guerra Mundial, ultrapassando 110 milhões de pessoas, segundo dados recentes da ONU.
É fundamental destacar: defender o fim da guerra não significa defender governos específicos, tampouco legitimar regimes que possam ser autoritários. A defesa da paz não é defesa de um país “X” ou “Y”. Trata-se de afirmar que nenhuma estratégia geopolítica ou interesse econômico pode se sobrepor ao direito à vida.
Em um cenário global marcado por disputas energéticas, controle de rotas comerciais, acesso a minerais estratégicos e expansão de influência militar, os interesses econômicos e geopolíticos ganham contornos cada vez mais agressivos. A indústria bélica movimenta centenas de bilhões de dólares por ano. Os gastos militares globais ultrapassam 2 trilhões de dólares anuais, enquanto milhões passam fome.
A pergunta que se impõe é civilizatória: com todo o avanço tecnológico que a humanidade alcançou, por que ainda falhamos no mais básico, preservar vidas?
Se o século 20 foi marcado por guerras mundiais que produziram milhões de mortos, o século 21 nos desafia a escolher outro caminho. Ou evoluímos politicamente, fortalecendo organismos multilaterais, mecanismos diplomáticos e políticas de cooperação internacional, ou continuaremos assistindo à naturalização da barbárie.
A guerra deixou de ser apenas confronto entre exércitos. Ela se tornou uma máquina que destrói o tecido social, compromete gerações e corrói a própria noção de humanidade.
Não se trata de esquerda ou direita. Trata-se de humanidade ou barbárie.
Ou aprendemos a resolver conflitos pelo diálogo, pela mediação e pela justiça internacional, ou o risco de autodestruição, antes visto como apocalíptico, pode se tornar uma possibilidade concreta.
A defesa da paz, hoje, é um posicionamento ético fundamental. E urgente.
Cristina Castro, Coordenadora da Secretaria de Relações Internacionais da Contee





