Profissão docente: uma escolha de valor

Prêmios valorizam iniciativas de professoras que fazem a diferença
Por Cecília Alvim – Revista Elas por Elas (abril/2015)
O ofício do professor e da professora é ensinar, despertar o interesse dos alunos pelos saberes e acontecimentos do mundo, desenvolver atividades que façam aflorar a criatividade e o gosto pela vida, transmitir conhecimentos e valores humanos que acompanhem os alunos pelos caminhos que forem trilhar… Mesmo sendo uma profissão antiga, os mestres têm sempre que renovar o propósito de educar, para que suas práticas se adaptem às mudanças e demandas dos novos tempos. Diante disso, novos projetos surgem e trazem novos ares para o cotidiano escolar.
Algumas dessas práticas, então, tornam-se conhecidas através de prêmios promovidos para incentivar os professores a aprimorar sua atuação em sala de aula. Um desses prêmios foi promovido em 2014 pelo Sinpro Minas, Nandyala Livraria & Editora, Sind-Ute, entre outras entidades. O Prêmio Educa Minas para a Diversidade destacou ações pedagógicas voltadas para o respeito à diversidade étnico-racial, desenvolvidas por professores da Educação Básica de escolas privadas e públicas de Minas Gerais.
A iniciativa premiou docentes que fazem acontecer a Lei 10.639 em suas escolas. Essa lei, que tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-brasileira no ensino fundamental e médio desde 2003, foi atualizada pela Lei 11.645/2008, que acrescentou o ensino da História e Cultura Indígena no currículo escolar. Em 2013, essa legislação foi alterada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 12.796).
Doze anos depois da aprovação da lei 10.639, ainda pouco se faz para que ela se torne realidade em boa parte das escolas brasileiras. Para a diretora do Sinpro Minas, Terezinha Avelar, a temática deve permear o projeto político-pedagógico das instituições de ensino ao longo de todo o ano. “Essa discussão deve envolver todos os professores, pois não pode ser responsabilidade de uma pessoa somente. Muitas vezes, se espera ou se delega essa iniciativa a professoras negras”. Para ela, o Prêmio Educa Minas realça o papel do/a professor/a na implementação da lei. “Premiar é valorizar quem já está fazendo, para que outros professores acompanhem e vençam as resistências à temática no ambiente escolar”.
Em Minas Gerais, doze professores/as da rede particular, filiados/as ao Sinpro, tiveram seus projetos de implementação da Lei 10.639 reconhecidos pelo Prêmio Educa Minas. Um desses projetos premiados foi desenvolvido pela professora Fernanda Gontijo de Abreu, e mais seis professores, em uma escola de Belo Horizonte, dentro do Projeto Institucional desenvolvido ao longo de 2013.
O tema central do projeto foi a presença do negro na brasilidade. “Considerávamos urgente problematizar a presença do negro no Brasil, que parece cada vez mais se esquecer da sua história, e que ainda mantém arraigadas e dissimuladas posturas de preconceito, exclusão e dominação quando o assunto é a questão racial, a liberdade e a igualdade de oportunidades”, destacou a professora Fernanda Gontijo. O projeto se desdobrou em ações pedagógicas nas áreas de Ciências, História, Geografia, Artes, Português, Música e Literatura. O trabalho desenvolvido pela professora Fernanda na área de Língua Portuguesa foi a produção de um jornal com artigos de interesse dos alunos sobre o tema.
Além disso, eles realizaram pesquisas orientadas pelos professores, assistiram filmes, visitaram a Comunidade Quilombola de Mangueira, localizada no bairro Aarão Reis, a Casa África (centro cultural e consulado do Senegal em BH), e participaram de uma palestra e atividade de capoeira coletiva com o Mestre João Angoleiro e alguns capoeiristas. Como resultado, os alunos produziram diversos trabalhos plásticos, literários e científicos, que ficaram expostos até a primeira etapa de 2014, e receberam visitas da comunidade escolar, além de moradores do bairro.
Para Fernanda Gontijo, o projeto gerou aprendizado para todos os envolvidos, inclusive para os professores. “Eu mais aprendi do que ‘ensinei’, o que é muito bom. Um trabalho que investe no desenvolvimento do pensamento crítico, e não dogmático, mobiliza saberes para todos os que estejam verdadeiramente envolvidos com a proposta”. Ela conta que o projeto a fez reviver e resgatar as mais inspiradoras experiências de sua infância e adolescência dentro do ambiente escolar. “Ao discutir o tema da negritude na brasilidade, vieram à tona também os temas implícitos da liberdade, justiça, valorização e dignidade humana, o que ressignificou para mim toda uma temática profissional e humana”, relata Fernanda.
De acordo com ela, os problemas que envolvem a questão racial no Brasil e no mundo refletem a história de dominação e saqueamento de direitos e bens culturais do povo negro, disseminada ao longo de muitos séculos. “É preciso muito trabalho e o amplo acesso a uma educação de qualidade para transformar o que se naturalizou historicamente. O professor é, por isso, peça-chave no percurso da transformação e justiça social ao investir em um trabalho diferenciado em sala de aula, mesmo em condições adversas”, observa.
Riqueza africana
Outra iniciativa reconhecida pelo Prêmio Educa Minas é a da professora Aline Tadeu Lopes, também em uma escola particular da capital. Ela desenvolveu o projeto Cultura Afro-brasileira e Africana com alunos de diferentes idades do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental. Diversas atividades apresentaram um pouco da riqueza que o continente africano trouxe para o Brasil. As crianças participaram de brincadeiras de origem africana, de contação de histórias, de peça teatral, de exposição de telas do artista Marcial Ávila com o tema Anjos Negros, de conversa com pessoas de origem angolana, que levaram à escola esculturas e informações sobre a cultura e a comida do país, e também assistiram a uma apresentação de dança afro com o Grupo Bataka. Ela conta que os alunos gostaram muito do projeto, que foi também premiado no prêmio Inovações Pedagógicas, do Sesc.
Aline conta que, desde que cursou Pedagogia, se preocupou em aprofundar na temática, e por isso, fez sua monografia sobre a Lei 10.639. Para ela, a educação é um instrumento para a construção de uma sociedade anti-racista. “Cabe a nós, professoras e professores, promover atividades voltadas para a questão étnico-racial, pois é assim que construiremos uma educação voltada para o respeito e valorização do negro na sociedade brasileira”, destaca.
Professoras são maioria nas escolas brasileiras
Outra premiação, em escala nacional, também repercute iniciativas de professoras que resolveram fazer diferente em suas escolas e assim fizeram a diferença na vida de inúmeros alunos. É o Prêmio Professores do Brasil, cuja cerimônia de sua 8ª edição foi realizada em dezembro de 2014, na cidade de São Paulo. Promovido pelo Ministério da Educação, o prêmio reconhece iniciativas de professores da educação básica pública. “O prêmio atende a uma das metas do Plano Nacional de Educação, a valorização dos professores. Necessitamos de ações que tornem os educadores motivados e comprometidos. Com acesso a planos de carreira, salários atrativos, formação inicial e continuada de qualidade, reconhecimento de seu papel social e referência para a nossa sociedade”, aponta o documento final do Prêmio.
Em 2014, concorreram 6.808 projetos, e apenas 39 professores foram premiados por suas iniciativas. O resultado confirma a participação majoritária das mulheres na educação. Foram 32 professoras e apenas sete professores premiados. No universo mais amplo das escolas públicas brasileiras, as mulheres são mesmo maioria. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), ligado ao Ministério da Educação, em 2013, havia 2.148.023 professores na educação básica, e, deste total, 1.724.653 eram mulheres.
Em Minas Gerais, há 186.184 mulheres e apenas 37.329 homens nas salas de aula das escolas públicas. Duas dessas mulheres foram vencedoras da oitava edição do Prêmio Professores do Brasil 2014. É o caso de Marli Pereira da Silva Morais, professora na Escola Municipal Gil Brasileiro da Silva, em Itapagipe, no Triângulo Mineiro. Ela recebeu o prêmio pelo projeto “Mala Viajante”, desenvolvido com 24 alunos do 4º ano do Ensino Fundamental.
A cada semana escolar do ano de 2014, um aluno levou para casa uma divertida mala com livros para serem lidos com a família, além de uma cópia do projeto e de fichas para os pais entenderem a proposta e avaliarem a leitura. Deu tão certo que, depois de envolver os pais, o projeto alcançou também as avós. Inspirado pela dona Benta, avó dos personagens principais do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, e pelo livro A colcha de retalhos, de Conceil Corrêa da Silva e Nye Ribeiro, que narra a relação entre avó e neto, o sub-projeto “Aprendi com a vovó” trouxe a sabedoria das mulheres mais velhas da família para dentro da sala de aula.
Histórias e valores
Cada aluno foi convidado a trazer um retalho significativo de casa e a contar a história daquele pedaço de pano, muitas vezes cedido por avós ou mães. Os retalhos transformaram-se em uma colorida colcha de retalhos, que passou a forrar a mesa da sala. Com empenho de todos, foi então realizado o Chá da Vovó, com a presença das avós e de seus quitutes e receitas. Algumas delas disseram nunca terem sido chamadas na escola dos netos para participar como avós, e que se sentiram felizes pela homenagem recebida. A partir da leitura dos livros da mala e das atividades relacionadas, os alunos desenvolveram diferentes tipos de texto, reforçaram o aprendizado de valores como respeito e colaboração, e passaram a contar com a participação mais ativa da família em sua vida escolar.
A professora Marli conta que ficou contente em desenvolver o projeto e por ter sua iniciativa valorizada pelo Prêmio Professores do Brasil. “A sociedade passa a te olhar com mais respeito, a escola cresce e os alunos ficam mais confiantes e mais motivados, enfim, todos ganham”, relata. Segundo ela, ser professora não é uma tarefa fácil, mas é gratificante. “Gosto muito do que faço. O que eu sei fazer é dar aula. Quando você vê que uma ação sua fez a diferença na vida das pessoas, é a melhor realização, é um prêmio. Apesar dos desafios, eu ainda acredito muito na educação”, completa Marli.
Aula de cidadania
Outra professora mineira reconhecida pelo Prêmio Professores do Brasil é Soraya Amaral Nantes de Castilho. Ela é professora de Química na Escola Estadual Benedito Ferreira Calafiori, em São Sebastião do Paraíso, no Sul de Minas. Seu projeto Ditão em ação: descarte de pilhas e baterias foi desenvolvido com cerca de 200 alunos do 3º ano do Ensino Médio.
Ao longo de 2013, eles recolheram cerca de 400 quilos de pilhas e baterias e cuidaram do envio do material para uma empresa de reciclagem. O projeto nasceu quando a professora Soraya constatou o desconhecimento dos alunos sobre o funcionamento e a composição desses produtos e, principalmente, sobre como descartá-los no fim de sua vida útil. Foi preciso então estudar a teoria, assistir a vídeos e colocar em prática as ideias que surgiram. Os alunos construíram, então, baterias rudimentares com limões e batatas, criaram panfletos sobre reciclagem e uma música sobre o descarte correto de pilhas e baterias. Também criaram coletores (papa-pilhas) e hoje há dezenas deles espalhados pela cidade.
Soraya Amaral conta que o projeto mudou sua forma de atuar na escola e na vida. “Hoje me sinto cada vez mais responsável pelos problemas ambientais ao meu redor. Continuo procurando parcerias para ampliar o projeto a fim de informar, sensibilizar e aumentar a consciência ambiental de novos alunos e da população”, relata. Assim, ela continua a incentivar a criação de mais postos de recolhimento de pilhas e baterias em sua cidade. “Precisamos evitar o descarte na natureza de metais pesados, tão prejudiciais à sustentabilidade do planeta e à saúde da humanidade”, observa. Com sua visão consciente, a professora Soraya dá uma aula de cidadania. “O papel do professor é garantir a aprendizagem, criar possibilidades de construção do conhecimento, transmitir valores, atitudes e habilidades, mas, sobretudo, acreditar no potencial dos alunos, permitindo-lhes crescer como pessoas, como cidadãos e como futuros trabalhadores”, completa.
Professora conta que foi influenciada por outras mulheres a seguir a profissão
Fernanda Gontijo de Abreu , professora de Língua Portuguesa de uma escola particular de BH, escolheu a profissão inspirada por sua mãe professora e por sua rica vivência com suas professoras desde a infância. Por sua atuação diferenciada e integrada à equipe de professores da escola, ela recebeu o Prêmio Educa Minas para a Diversidade, em dezembro de 2014. Nessa entrevista, ela conta um pouco de sua trajetória no ambiente escolar, expõe sua crença no papel transformador da educação, e repercute os desafios encontrados pelas professoras para exercer a profissão.
Como surgiu o interesse pela profissão?
Desde criança, tenho um envolvimento especial com o ambiente escolar. Um dos motivos é o fato de eu ser filha de professora. Minha mãe lecionou por anos no ensino infantil do tradicional Instituto de Educação de Belo Horizonte em uma época em que ali se apostava na ampla formação do aluno: refiro-me, obviamente, não apenas à formação cognitiva, mas a que também levava seriamente em conta a emoção, a sociabilidade e o desenvolvimento dos valores éticos, o que fazia a equipe docente investir criteriosamente no saber lúdico e inventivo, na alegria da convivência na escola, na leitura crítica e aprofundada desde a alfabetização, respeitando-se a gradual, mas profunda inserção da criança no mundo da escrita e da leitura.
Como a instituição em que minha mãe trabalhou foi a mesma em que estudei até a 4ª série, tive o privilégio de ter professores(as) que lecionavam com criatividade, bom humor e muita dedicação. Lembro-me, por exemplo, com grande carinho, da professora de matemática da 3ª série – a Margô –, que, vejam bem!, ensinava matemática com poesia, apresentando a cada aula um novo poema do qual os alunos deveriam descobrir, pela sugestão da rima, a última palavra. Esta prática levava-nos a refletir, antes de simplesmente “aprender” a matéria, sobre o tema a ser trabalhado dentro do conteúdo matemático proposto.
Não tenho dúvidas, portanto, de que a maneira como pratico a minha profissão, que já vai para mais de 10 anos, está intimamente ligada à minha passagem na infância por escolas que souberam transmitir-me uma sólida ética de ensino-aprendizagem, fazendo-me entender o espaço do conhecimento como lugar de autonomia do pensamento, de aprimoramento social e humano contínuos. Quando na adolescência, já no colegial, passei por uma escola de linha conteudista, a semente da leitura crítica já havia germinado em mim. O que eu fazia o tempo todo era questionar em silêncio, embora não tivesse dificuldade para apreender os conteúdos repassados, o papel social de uma instituição que priorizava os resultados, a quantidade e a velocidade de apreensão dos conteúdos em detrimento da assimilação cautelosa e consistente do conhecimento, criando nos alunos parâmetros de pensamentos consonantes com o ritmo acelerado, massificado e descartável das informações presentes em um mundo cujo principal valor é o capital e o consumo. Mesmo nesse período de minha vida estudantil, o ambiente escolar era instigante para mim pelo esforço solitário que eu fazia para questioná-lo, compará-lo, compreendê-lo. Acho que é por isso que até hoje estou na escola… como professora e como aluna, pois, mesmo trabalhando, jamais parei de estudar…. E sim, as instituições de ensino ainda continuam sendo para mim, em muitos aspectos, espaços cheios de incoerências e que devem ser repensados em sua forma de agir, ensinar, amar…
Quais os desafios para conciliar a docência com a vida pessoal e a família?
É um desafio constante, já que todo(a) professor(a) trabalha muito também fora da sala de aula, fazendo planejamentos, preparando atividades, estudando, tratando da burocracia que uma escola exige… O trabalho é muito e a família acaba se acostumando e aprendendo a lidar com isso. De toda forma, acredito que, como todo trabalho que é feito com empenho, a compensação é dada pelo efeito que vemos ocorrer em nosso público, no setor social ao qual servimos. Isso é muito gratificante! Quando percebo que os alunos estão crescendo como seres humanos e pensantes, e que pude contribuir um pouco para isso, fico feliz e já me sinto recompensada por meu investimento. E a família, quando nos percebe fortes e integrados com o que realizamos profissionalmente, se inspira nesse vigor e acaba procurando caminhos de realização também.
O esforço e os desafios são imensos (na profissão de professor, isso é histórico e já há muito é uma questão a ser definida politicamente), mas é preciso não abrir mão de uma vida saudável, com tempo para lazer e convivência com aqueles que prezamos. Porém, acredito que a principal fonte de revitalização venha mesmo do próprio trabalho feito em consonância com o que acreditamos.




