A COP30, a Universidade e a Amazônia como horizonte de governança climática
A realização da COP30 em Belém reconfigurou o cenário político da governança climática global
Raul Borges Guimarães, Marília Souza Pimenta, Davis Gruber Sansolo e Juliana Cortez
1. A trajetória histórica das COPs e a inflexão amazônica
A agenda mundial de enfrentamento da mudança do clima consolidou-se progressivamente desde a primeira Conferência das Partes (COP1), realizada em Berlim em 1995. Naquele momento, a ciência climática, sistematizada pelos relatórios iniciais do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), convergia para a necessidade de respostas multilaterais coordenadas. A COP1 inaugurou um processo histórico que buscava conciliar responsabilidades diferenciadas, capacidades nacionais, interesses econômicos e urgências ambientais. A consolidação do Protocolo de Kyoto, em 1997, representou o primeiro esforço vinculante de redução de emissões para países industrializados, ao mesmo tempo em que inaugurou mecanismos de flexibilização – como o mercado de carbono – que seriam alvo de debates intensos nas décadas seguintes[1].
Em 2015, o Acordo de Paris redefiniu o modelo de governança climática ao introduzir as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). A mudança deslocou o eixo da obrigatoriedade rígida para um sistema mais flexível, supostamente mais inclusivo, no qual cada país define suas metas de redução de emissões, adaptação e financiamento. Embora tenha ampliado a participação global, Paris inaugurou uma nova tensão: a distância crescente entre promessas voluntárias e a curva de emissões necessária para manter o aquecimento em 1,5ºC[2].
Dentro desse percurso, a realização da COP30 em Belém, em 2025, constituiu uma inflexão política, epistemológica e simbólica. Pela primeira vez, o centro das negociações deslocou-se para a Amazônia, região estratégica para o equilíbrio climático global e, simultaneamente, espaço de disputas fundiárias, pressões econômicas e conflitos ambientais. A escolha de Belém foi interpretada como uma oportunidade de vivenciar e se encantar com a floresta viva e romper a dissociação entre debates diplomáticos e a realidade vivida pelas comunidades e povos guardiões da Amazônia. A região deixou de ser apenas objeto de políticas de conservação, por um lado, e de megaempreendimentos de mineração, geração de energia hidrelétrica, e extração de madeira, por outro lado, e tornou-se sujeito político, cuja presença reconfigura o imaginário do multilateralismo climático.
Ao trazer a COP para o coração da Amazônia, a conferência não apenas deslocou geograficamente o debate climático, mas expôs de forma contundente a contradição entre os discursos globais da transição energética e as realidades locais marcadas por desmatamento provocado pelo agronegócio, pelos grandes projetos energéticos (hidroelétricas), mineração, estradas, além do garimpo ilegal, violência fundiária e militarização dos territórios. A floresta e os rios, nesse contexto, deixaram de ser apenas indicadores ambientais e passaram a aparecer como espaço de vida, de conflito e de disputa política.
2. Expectativas estruturantes para a COP30
As expectativas em torno da COP30 foram particularmente elevadas. Relatórios de organizações internacionais, como o World Resources Institute (WRI), e análises de especialistas apontavam a necessidade urgente de redefinir o grau de ambição das NDCs, sobretudo após o Global Stocktake apresentado na COP28, que demonstrou claramente o descompasso entre compromissos atuais e trajetórias compatíveis com 1,5ºC. Esperava-se que Belém pudesse induzir uma revisão mais profunda das metas nacionais e abrir caminho para compromissos mais robustos de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis.
Além disso, havia uma demanda crescente por um sistema de financiamento climático mais justo e acessível. Países do Sul Global insistiam na necessidade de ampliar recursos para adaptação, uma vez que são os mais afetados por secas extremas, enchentes e eventos climáticos intensificados, embora sejam os que menos contribuíram historicamente para a mudança do clima. Belém também carregava a expectativa de fortalecer fundos internacionais e instrumentos de proteção das florestas tropicais e de consolidar um paradigma de desenvolvimento sustentável centrado na bioeconomia, na preservação da sociobiodiversidade e na proteção e no protagonismo de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
A dimensão territorial da conferência intensificou as expectativas de que ela produziria um diálogo ampliado entre ciência, governança e saberes locais. A COP30, realizada na Amazônia, trazia em si a exigência de um deslocamento epistemológico: reconhecer que a floresta, seus povos e suas práticas de manejo constituem, não apenas objetos de políticas públicas, mas modelos de sustentabilidade alternativos ao desenvolvimentismo predatório historicamente dominante.
A forte presença de povos indígenas e de organizações da sociedade civil deixou evidente que esse deslocamento não era apenas simbólico. Ao ocuparem o centro da cena, essas populações romperam com o lugar subalternizado ao qual historicamente foram relegadas nos espaços multilaterais, afirmando-se como atores políticos globais, portadores de projetos civilizatórios próprios, de mundo, de economia e de relação harmoniosa com a natureza. Mais do que reivindicaram participação, questionaram os fundamentos do próprio modelo de transição energética tal como vem sendo formulado.
3. Resultados e limitações do Pacote de Belém
Os resultados formais da conferência materializaram-se no Pacote de Belém, composto por 29 decisões e aprovado de forma consensual pelos 195 países presentes. Entre os avanços mais significativos, destacou-se o compromisso global de triplicar o financiamento destinado à adaptação até 2035, fortalecendo um eixo historicamente secundarizado nas negociações climáticas. Outro marco importante foi a criação e a capitalização inicial do Fundo para Florestas Tropicais, voltado ao apoio de ações de conservação, monitoramento e desenvolvimento sustentável em regiões de alta biodiversidade.
No plano social, a COP30 consolidou avanços relevantes ao ampliar a participação de povos indígenas e comunidades tradicionais, e movimentos sociais organizados reconhecendo sua centralidade na proteção da floresta e na produção de conhecimento ecológico. O protagonismo dessas populações, historicamente marginalizadas, tornou-se elemento estruturante das discussões e foi incorporado em várias decisões do Pacote de Belém, evidenciando uma mudança de sensibilidade política na escala das negociações multilaterais.
Entretanto, o balanço final revela limitações estruturantes. A ausência de um compromisso explícito de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis representa, talvez, a lacuna mais significativa da conferência, evidenciando a persistência do poder geopolítico e econômico de países e corporações vinculados ao petróleo, carvão e gás natural. Do mesmo modo, embora a proteção das florestas tenha sido reforçada, não houve avanços substanciais em mecanismos de cumprimento obrigatório ou em metas vinculantes de combate ao desmatamento.
Essas limitações revelam que a transição energética segue sendo atravessada por disputas profundas entre diferentes projetos de desenvolvimento. De um lado, uma transição pensada a partir da lógica dos mercados, da financeirização da natureza e do controle securitário dos territórios; de outro, uma transição fundada na defesa da vida, na autonomia dos povos e na justiça territorial. A COP30 tornou visível que essa não é uma transição consensual, mas um campo de conflitos políticos, econômicos e civilizatórios.
4. A universidade pública como agente de transição ecológica e justiça climática
Para além dos documentos oficiais, a COP30 evidenciou que a resposta à crise climática exige instituições capazes de articular conhecimento científico, ação territorial, diálogo social e formação crítica. Nesse contexto, a universidade pública – especialmente no Brasil – desempenha papel estratégico.
A UNESP destacou-se pela atuação integrada de seus docentes, pesquisadores e programas de extensão, que buscaram aproximar a produção acadêmica das dinâmicas socioambientais amazônicas. A experiência da Casa da Floresta Unesp–Peabiru, instalada na Belém ribeirinha durante a conferência, é exemplar. Estruturada como espaço de formação, inovação socioambiental e interculturalidade, a Casa da Floresta reuniu rodas de conversa, oficinas de agrofloresta, vivências culturais, atividades de saúde e arquitetura sustentável, articulando múltiplas linguagens e saberes. O espaço construído em bambu procurou dialogar com os materiais e saberes locais. E pela própria organização do ambiente proporcionou uma conversa horizontal, igualitária e democrática entre atores da academia, do governo e das comunidades. Um tablado circular em madeira, coberto por uma geodésica de bambu e palha, e mobiliado apenas com almofadas, quebrou hierarquias, colocando todos no mesmo nível. Nessa arquitetura biofílica, rodeada por cupuaçus, taperebás, buritis e açaís, o dialogismo se tornou a base para entender as demandas e delinear ideias de avanço em prol de uma construção cooperativa e impactante.
A indissociabilidade entre ensino pesquisa e extensão se materializa na Casa da Floresta com base no diálogo entre o território da universidade, constituído pela razão científica e os territórios formados a partir do conhecimento popular. Todavia, esse diálogo não é neutro, sobretudo se dá pelas relações sentipensantes como diria Orlando Fals Borda[3]. A Casa da Floresta em sua essência, representa uma ruptura profunda com os modelos tradicionais de produção de conhecimento. Busca uma aproximação epistemológica entre pesquisadores e comunidades, integra razão e emoção, ciência e vida, objetividade e experiência subjetiva – um modo de conhecer que se faz simultaneamente com o sentir e com o pensar, visando uma outra perspectiva de envolvimento territorial.
Essa iniciativa concretizou a perspectiva freireana de extensão universitária como prática dialógica, na qual universidade e comunidade constroem conjuntamente novos sentidos para o território. Ao colocar a floresta no centro de suas ações pedagógicas e científicas, a UNESP fortaleceu seu papel como instituição comprometida com a justiça climática e com a produção de alternativas ao modelo de desenvolvimento hegemônico.
A atuação extensionista também tem o mérito de desmontar a falsa separação entre política ambiental, política social e política de segurança. Mostra que não há preservação possível onde há fome, abandono e violência, assim como não há segurança real onde direitos são suspensos em nome da ordem. Ao atuar junto a territórios atravessados por conflitos socioambientais, a universidade pública assume um papel insubstituível na defesa do interesse público e na construção de alternativas de futuro.
5. Considerações finais
A realização da COP30 em Belém reconfigurou o cenário político da governança climática global. Se, por um lado, a conferência internalizou tensões e limites históricos do regime climático, por outro abriu novas possibilidades epistemológicas e institucionais, destacando o papel da Amazônia como horizonte crítico de disputa. Entre avanços, frustrações e contradições, Belém evidenciou que a reconstrução de um futuro climático justo depende da articulação entre diplomacia internacional, participação social e práticas territoriais sustentáveis.
Nesse conjunto, a universidade pública – como a UNESP – emerge como agente capaz de traduzir compromissos internacionais em práticas concretas, articulando ciência, cultura, política e território. A COP30 não encerra um ciclo, mas inaugura uma agenda que coloca a Amazônia e seus povos no centro do debate e demanda das instituições acadêmicas, criatividade, presença ativa e compromisso ético com a transformação socioambiental.
A mensagem que ecoou de Belém é clara: não haverá transição energética legítima sem transição política, territorial e democrática. A crise climática não se dissocia das crises da desigualdade, do racismo ambiental e da violência. Ou essa transição será disputada com os povos no centro, ou seguirá sendo apenas mais um nome elegante para a continuidade da devastação.
*Prof. Dr. Raul Borges Guimarães é Pró-Reitor de Extensão e Cultura da UNESP
Profa. Dra. Marília Souza Pimenta é Professora do Departamento de Relações Internacionais e Pesquisadora do IPPRI.
Prof. Dr. Davis Gruber Sansolo é Coordenador Executivo do Instituto de Políticas Públicas e relações Internacionais da UNESP.
Profa Dra Juliana Cortez é assessora da Pró-reitoria de Extensão universitária e Cultura.
[1] Pereira, Ricardo Menegussi. Governança Climática: As Conferências das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC): COP-1 à COP-30. São Paulo: Independently published, 2024.
[2] Prolo, Caroline; Angelo, Cláudio; Herschmann, Stela et all. Acordo de Paris – um guia para os perplexos. Campinas, Unicamp – Observatório do Clima, 2024.
[3] FALS-BORDA, Orlando; MONCAYO, Víctor Manuel. Una sociología sentipensante para América Latina. Siglo del hombre, 2009.




