A luta ideológica democrática: Aldo Arantes e a resistência à guerra cultural da extrema-direita

Na última segunda-feira, 17 de fevereiro, o programa Contee Conta recebeu o ex-deputado Aldo Arantes, autor do livro Domínio das Mentes – Do Golpe Militar à Guerra Cultural.

O tema principal do programa foi a análise de Arantes sobre o impacto crescente da extrema direita no Brasil e no mundo, destacando a chamada “guerra cultural” e seu papel na conquista das mentes da sociedade, especialmente por meio das grandes plataformas digitais e da mídia tradicional. O Coordenador-Geral da CONTEE, Gilson Reis, também fez contribuições relevantes, fortalecendo a discussão e apontando caminhos para a resistência.

A guerra cultural: Uma nova forma de conquista do poder político

Aldo Arantes inicia sua fala explicando que o conceito de “guerra cultural” não se limita a um simples entendimento ideológico, mas envolve uma complexidade que exige ações concretas para enfrentá-la. De acordo com o autor, a ascensão dessa guerra cultural ganhou força com a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e a crescente aliança entre políticos de extrema direita e grandes empresas de tecnologia.

Ele alertou sobre como as Big Techs, a exemplo do Facebook, Google e Twitter, estão no centro desse processo. Essas empresas, ao controlar os algoritmos e a distribuição de conteúdo, têm o poder de direcionar opiniões e afetar comportamentos em escala global.

“As Big Techs não apenas identificam onde você mora, mas sabem o que você pensa e, o mais grave, elas tentam transformar o seu pensamento. Isso é o cerne da guerra cultural”, afirmou Arantes. Ele ressaltou que as Big Techs atuam como um braço da extrema direita, usando suas plataformas para disseminar fake news, radicalizar os usuários e criar bolhas de desinformação, principalmente entre os mais jovens.

A guerra cultural da extrema direita, segundo Arantes, tem sido eficaz porque apela não à razão, mas aos sentimentos e emoções das pessoas. Esse fenômeno é o que explica, em parte, o apoio contínuo a figuras como Jair Bolsonaro, mesmo após seus sucessivos erros e falhas políticas, e a diminuição da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo com bons resultados econômicos.

“A guerra cultural conseguiu conquistar os sentimentos das pessoas, e não apenas suas opiniões racionais. Isso tem um impacto profundo na política, criando uma narrativa paralela que desvia a atenção das questões reais”, disse Arantes.

A crise do capitalismo, alimentada por políticas neoliberais que resultam em maior concentração de renda e condições de vida precárias para as classes trabalhadoras, também é apontada como um terreno fértil para a ascensão da extrema direita. A narrativa disseminada por esses grupos procura culpar os movimentos democráticos, os socialistas e até mesmo o sistema educacional por essa crise, desviando a atenção das verdadeiras causas.

A regulação das big techs: Um passo fundamental na defesa da democracia

Uma questão central levantada por Arantes é a necessidade urgente de regulação das Big Techs. Ele criticou a postura de líderes como Elon Musk e Mark Zuckerberg, que se opõem abertamente ao controle de algoritmos e à regulação das redes sociais. Para esses empresários, a “liberdade de expressão” é entendida como a ausência de qualquer tipo de moderação de conteúdo, defendendo uma ideia de liberdade sem restrições.

“Liberdade de expressão não significa liberdade para disseminar mentiras ou discursos de ódio. Nenhum direito é absoluto, e a liberdade de expressão deve ser limitada por regras que garantam o respeito aos direitos humanos e à democracia”, afirmou Arantes. Ele ressaltou que a ausência de regulação permite que as Big Techs operem sem qualquer tipo de controle, favorecendo discursos extremistas e manipulativos.

Arantes enfatizou a importância da soberania digital, defendendo que os governos precisam ter o poder de regular essas plataformas e garantir que os algoritmos sejam transparentes para evitar a perpetuação de preconceitos relacionados à raça, gênero e outros aspectos sociais.

“Os algoritmos não são neutros; eles incorporam preconceitos e têm objetivos definidos que não são claros para o público. É essencial que haja regulação para garantir que esses sistemas não sejam usados para manipular e dividir a sociedade”, alertou Arantes.

A influência religiosa e o apoio social à guerra cultural

Arantes também discutiu o papel dos grupos religiosos, especialmente os evangélicos, e de outros setores sociais como os militares e políticos de direita, que têm sido uma base sólida para a expansão da guerra cultural da extrema direita. Esses grupos frequentemente fornecem o suporte necessário para as narrativas reacionárias, contribuindo para a solidificação do movimento.

“A guerra cultural da extrema direita não é uma luta isolada; ela conta com uma base social ampla, incluindo religiosos, militares e políticos de direita. Esses grupos formam a espinha dorsal do movimento”, destacou.

Enfrentando a guerra cultural

Para Arantes, a resposta a essa guerra cultural não pode ser apenas uma análise teórica. Ela exige uma luta ideológica democrática, uma ação estratégica para fortalecer a democracia, resgatar os setores que foram conquistados pela extrema direita e combater as narrativas de desinformação.

“Não vamos conseguir resgatar os setores mais radicalizados da extrema direita, mas há milhões de pessoas que podem ser convencidas. Precisamos construir uma alternativa de pensamento que seja baseada na razão, nos fatos e na solidariedade”, afirmou Arantes, ressaltando a importância da educação nesse processo.

A luta ideológica democrática

O ex-deputadoressaltou que, para enfrentar a guerra cultural, não basta entender sua complexidade. É fundamental apresentar uma proposta concreta de combate, a qual ele chama de luta ideológica democrática. Em seu livro, ele delineia 14 pontos essenciais que devem orientar essa luta, destacando que ela não pode se limitar a um debate teórico, mas deve ser prática, fundamentada em questões centrais da sociedade atual.

Entre os 14 pontos propostos, alguns dos mais relevantes são:

  1. Desenvolvimento com distribuição de renda versus juros altos e concentração de renda – contrastando a proposta progressista de uma distribuição justa com as políticas da extrema direita, que favorecem a concentração de riqueza.
  2. Defesa dos trabalhadores e seus direitos versus ataque aos direitos trabalhistas – abordando como os direitos dos trabalhadores são sistematicamente atacados em favor de políticas neoliberais.
  3. Luta contra as causas reais da corrupção versus falsa luta contra a corrupção – desafiando a narrativa de que a corrupção está sendo combatida, enquanto práticas que a perpetuam continuam.
  4. Defesa da ciência e da história versus negacionismo da ciência e da história – enfatizando a importância da ciência e do conhecimento histórico, em oposição à distorção e negação de fatos.
  5. Defesa da educação e da cultura versus educação militarizada e combate à cultura – destacando a relevância de uma educação crítica diante de projetos que visam militarizar o ensino e eliminar os espaços culturais.
  6. Defesa da vida e dos direitos humanos versus defesa do ódio, da violência e da tortura – promovendo um compromisso com os direitos humanos, contrastado com políticas que incentivam a violência e a repressão.
  7. Defesa do meio ambiente e das mudanças climáticas versus agressão ao meio ambiente e negação das mudanças climáticas – defendendo uma postura ambientalmente responsável frente à negação das evidências científicas sobre o aquecimento global.

Esses pontos integram um plano mais amplo de luta, com o objetivo de oferecer uma alternativa concreta à manipulação ideológica da extrema direita.

A criação de uma plataforma para a luta ideológica

Arantes também propôs a criação de uma plataforma digital para a luta ideológica, algo que contraponha as estratégias da extrema direita que já possuem uma plataforma massiva como o “Brasil Paralelo.” Ele explicou que a criação de uma plataforma política e social deve envolver partidos políticos e movimentos sociais na construção de conteúdo, incluindo vídeos e materiais que possam impactar não apenas pela razão, mas também pelos sentimentos das pessoas.

“Não basta apenas ter um plano. O plano precisa ser trabalhado de maneira estratégica, abordando diversos aspectos da questão emocional, e não apenas intelectual. A criação de uma plataforma, composta por partidos e movimentos sociais, é um passo importante nesse sentido.”

A importância da educação na luta ideológica

A educação é vista por Arantes como um campo imprescindível na resistência à guerra cultural. Ele defendeu que as instituições de ensino, ao formarem cidadãos críticos e bem-informados, desempenham um papel central na construção de uma alternativa ideológica, sendo a educação pública de qualidade uma das principais frentes de resistência.

“A guerra cultural visa conquistar as mentes das pessoas, e a educação é o principal campo de batalha”, afirmou Arantes, destacando que as escolas e universidades devem ser espaços de liberdade intelectual, onde os estudantes podem desenvolver o pensamento crítico e resistir à manipulação ideológica.

Em um momento crucial da conversa, Arantes abordou o ataque à educação libertadora, afirmando que o movimento da extrema direita, especialmente durante o governo Bolsonaro, atacou frontalmente a educação crítica e democrática. “Era exatamente todo o ataque a uma educação libertadora”, disse Arantes, explicando que figuras como Olavo de Carvalho viabilizaram a transformação da educação em um “ambiente de malucos”, atacando a concepção libertária da educação e associando-a a um “marxismo cultural” inexistente. Arantes continuou dizendo que esse movimento buscava rejeitar uma visão de educação que defendia os direitos humanos e os direitos dos trabalhadores, em favor de uma educação autoritária.

“No fundo, o que eles queriam era impor uma visão neofascista, uma visão autoritária, e isso é inaceitável.” Arantes criticou ainda a proposta da “escola sem partido”, que ele considerou uma tentativa de transformar as escolas em espaços de imposição ideológica da extrema direita, chegando ao ponto absurdo de sugerir a vigilância de professores, uma atitude completamente autoritária.

A resistência e o desafio coletivo

Arantes enfatizou a necessidade de uma resposta coletiva e estratégica à guerra cultural, que envolva não apenas o combate às narrativas da extrema direita, mas também a regulação das Big Techs e a defesa da soberania digital. Para enfrentar essa guerra, é essencial que os trabalhadores da educação e os cidadãos se unam na construção de uma sociedade mais justa, onde as ideias progressistas possam se fortalecer.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (CONTEE) tem um papel fundamental nesse processo, promovendo a luta por uma educação democrática e resistindo às tentativas de manipulação ideológica.

“A luta ideológica democrática é a chave para garantir uma sociedade mais justa, inclusiva e livre da manipulação das Big Techs e da extrema direita”, conclui Arantes.

Gilson Reis com a palavra

Gilson Reis, Coordenador-geral da Contee, fez uma importante intervenção à reflexão de Arantes sobre a guerra cultural. Ele mencionou que “uma imagem tem o poder de falar mais que mil palavras”, destacando uma foto simbólica de Donald Trump. Na imagem, Trump está em primeiro plano, enquanto no fundo, cinco trilionários das Big Techs aparecem, ilustrando de forma impactante a aliança entre o império capitalista e as gigantes da tecnologia. Essa aliança, segundo Gilson, tem como objetivo apresentar ao mundo uma nova forma de dominação, baseada na manipulação das mentes e no controle das informações.

Reis também argumentou que a criação de uma plataforma digital, proposta por Arantes, seria um passo fundamental para resistir a essa contraofensiva. Ele enfatizou que muitos professores que estão na ponta, no ensino fundamental, médio e nas universidades, têm uma contribuição fundamental a dar através de materiais teóricos, vídeos e documentos que podem ajudar na construção de uma resistência ideológica. “A educação brasileira, através de nossas entidades, precisa se organizar para enfrentar essa contraofensiva, que não é apenas um problema local, mas uma guerra global financiada por grandes potências. Isso é uma necessidade histórica, política, educacional e cultural.”

“Eu acredito que é possível, vamos trabalhar juntos para construir essa resistência“, concluiu Gilson, enfatizando a importância de uma ação coletiva e coordenada para enfrentar as forças opressoras e antiprogressistas.

Por Romênia Mariani

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