Conferência Antifascista reúne mais de 3.500 participantes de mais de 40 países em Porto Alegre
A realização da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, ocorrida entre os dias 26 e 29 de março de 2026, na cidade de Porto Alegre, reuniu mais de 3.500 participantes de mais de 40 países, consolidando-se como um dos principais espaços contemporâneos de articulação política contra o avanço da extrema direita em escala global.
O evento contou com a participação de movimentos sociais, entidades sindicais, organizações estudantis, intelectuais e lideranças políticas, e foi estruturado a partir de debates temáticos, atividades culturais e mobilizações públicas. Já no primeiro dia, uma marcha antifascista tomou as ruas da cidade, reunindo centenas de manifestantes em defesa da soberania dos povos e contra o avanço de projetos autoritários.
A passeata reafirmou o papel da rua como espaço central da política. Em um contexto de crescente virtualização das relações sociais, a ocupação do espaço público se apresenta como elemento importante de visibilidade, articulação e construção coletiva. A marcha expressou a dimensão concreta da luta antifascista, conectando diferentes sujeitos e agendas em torno de uma pauta comum.
A realização da conferência em Porto Alegre também carrega um significado histórico. A cidade, que já foi referência internacional com o Fórum Social Mundial, volta a sediar um encontro que projeta alternativas globais ao avanço da extrema direita, reforçando sua posição como espaço de articulação política internacional.
A partir desses elementos, a conferência reafirma uma leitura compartilhada entre os participantes: o crescimento de projetos autoritários, negacionistas e ultraliberais faz parte de uma ofensiva internacional articulada. Como resposta, fortalece-se a necessidade de construção de redes transnacionais de resistência, capazes de articular democracia, soberania e justiça social.
Entre os diversos eixos debatidos, a educação assumiu papel estratégico, diretamente relacionada à ciência, à tecnologia e à soberania dos povos. Os debates evidenciaram que o avanço de projetos autoritários está profundamente ligado ao ataque à educação pública, à universidade e à produção científica, por meio do negacionismo, da desinformação e de tentativas de controle ideológico.
Também foi destacado que a produção científica e tecnológica, especialmente no campo digital, tem sido desenvolvida sem a devida articulação com a ética, os direitos humanos e as ciências sociais, o que amplia a possibilidade de apropriação dessas ferramentas por projetos autoritários. Nesse sentido, apontou-se a necessidade de incorporar uma formação crítica desde a educação básica, articulando conhecimento técnico e responsabilidade social.
Outro aspecto relevante foi o impacto dessas disputas no cotidiano escolar. Narrativas como “escola sem partido” e a chamada “ideologia de gênero” têm produzido um ambiente de pressão e autocensura entre professores e professoras, comprometendo o papel da educação como espaço de reflexão crítica e liberdade intelectual.
A educação também foi vinculada à soberania nacional e ao papel dos países do Sul global na atual disputa geopolítica. A redução de investimentos, a evasão estudantil e a precarização das universidades foram apontadas como parte de um projeto político que aprofunda a dependência internacional.
Ao mesmo tempo, a conferência evidenciou que a educação ocupa uma posição central nessa disputa: é simultaneamente alvo de ataques e um dos principais campos de produção de respostas democráticas.
Ao final da atividade, foi aprovada a Carta de Porto Alegre – um documento de unidade internacional contra a extrema-direita, o fascismo e o imperialismo. O texto clama pela soberania dos povos, defende a democracia, propõe resistência ao ecocídio e apoia lutas sociais, sociais e trabalhistas globais. Leia na íntegra:
Reunidos em Porto Alegre – cidade símbolo das lutas internacionais, de importantes tradições e aspirações democráticas – milhares de ativistas de mais de quarenta países países dos cinco continentes, celebrando nossa unidade na diversidade, buscando avançar na organização para a resistência e o combate aos variados fascismos, a extrema direita e o imperialismo em sua fase mais agressiva.
Nessa mesma semana, ocorreu o comboio Nuestra America a Cuba, tivemos mais de um milhão de pessoas nas ruas da Argentina, lutando pela memória e contra Milei; houve centenas de milhares na convocação antifascista do Reino Unido e especialmente a grande e histórica manifestação “No Kings” nos Estados Unidos que com milhões de estadunidenses reunidos em centenas de cidades, declarando uma vez mais Trump como inimigo da humanidade.
O sistema capitalista-imperialista vive uma profunda crise e uma acentuada decadência econômica, social e moral. A resposta das potências imperialistas ao seu declínio tem sido o fomento do fascismo em toda parte, a imposição de políticas neoliberais, agressões militares às nações mais fracas e a sua recolonização.
Em cada país, as ameaças fascistas e neoliberais assumem formas particulares, mas têm pontos em comum: a eliminação das liberdades democráticas, a destruição dos direitos trabalhistas, a explosão do desemprego estrutural, o desmantelamento da previdência social, a repressão às entidades sindicais e populares, a privatização dos serviços públicos, políticas de “austeridade” que eliminam todo e qualquer investimento social, o negacionismo científico e climático, a expropriação dos camponeses em benefício da agroindústria, o deslocamento forçado das populações originárias para promover o extrativismo desenfreado, políticas migratórias ultra-restritivas e enorme aumento de despesas militares.
A extrema direita e as forças neofascistas desenvolvem uma ampla ofensiva, que instrumentaliza o descontentamento com as consequências desastrosas do neoliberalismo para acelerar essas políticas. Para isso, à semelhança do fascismo clássico, procuram direcionar esse descontentamento contra os grupos oprimidos e despossuídos: migrantes, mulheres, pessoas LGBTQIA+, beneficiários de programas de inclusão, pessoas racializadas e minorias nacionais ou religiosas. O nacionalismo exacerbado, o racismo, a xenofobia, o sexismo, a LGBTQIA+fobia, a incitação ao ódio e a banalização da crueldade acompanham o avanço da extrema direita em cada etapa, de acordo com as pecularidades de cada país.
A vontade de acumular riqueza nas mãos do capital, a busca desenfreada pelo lucro máximo que sustenta as políticas da extrema direita, também se manifesta pela intensificação das agressões imperialistas para monopolizar recursos e explorar populações.
O imperialismo torna-se cada vez mais desenfreado, agressivo e belicista, atropela o Direito Internacional, a Carta da ONU e a autodeterminação dos povos, sanciona, ataca e bombardeia as nações que não se submetem aos seus ditames, sequestra e assassina seus Chefes de Estado.
Isso vai de par com a perpetuação de situações coloniais que no caso da Palestina assume a forma de um genocídio explicito em Gaza, orquestrado pelo Estado sionista de Israel, apoiado incondicionalmente pelos Estados Unidos, com a cumplicidade dos demais países imperialistas. Além disso, Israel acaba de invadir e bombardear de forma criminosa o Líbano e afirma que anexará o sul do país.
Lutamos contra todos imperialismos e apoiamos a luta dos povos por sua autodeterminação, por todos os meios necessários.
A extrema direita, além da cumplicidade com o governo genocida de Netanyahu, tece laços internacionais, realiza congressos, think tanks, declarações conjuntas, apoio mútuo nos processos eleitorais, colaboração e programas de propaganda e desinformação. Além do apoio direto (ou velado) das chamadas Big Techs, desestabilizando governos que resistem ao império e potencializando a propaganda reacionária nos meios digitais.
As forças que combatem a ascensão da extrema direita são diversas e apresentam diferentes análises, estratégias e táticas, programas e políticas de aliança. A experiência nos ensina que embora reconhecendo essas diferenças, é essencial articular de forma unitária a luta contra os nossos inimigos. Essa convergência deve incluir todas as forças dispostas a defender as classes trabalhadoras, os camponeses, os migrantes, as mulheres, as pessoas LGBTQIA+, as pessoas racializadas, as minorias nacionais ou religiosas oprimidas e os povos indígenas; a defender a natureza contra o capitalismo ecocida; a combater as agressões imperialistas e coloniais, independentemente da sua origem; lutar pelo fim da OTAN e a apoiar a luta dos povos e governos que resistem. É urgente compartilhar análises, fortalecer laços e realizar ações concretas.
Além de resistir ao fascismo e ao imperialismo, almejamos também construir as bases para avançar, em nossas convergências em aspectos centrais e unitários. Para combater o autoritarismo, é preciso resgatar, ampliar e aprofundar os direitos democráticos com base na participação popular, desde o local até o nacional e nos organismos internacionais. Afirmamos a relevância do mundo do trabalho, propomos impulsionar iniciativas conjuntas para organizar a resistência global contra as violências fascistas e a precarização neoliberal. A defesa de um futuro sustentável passa pelo enfrentamento direto ao ecocídio promovido pelo capitalismo e por governos de extrema direita, que tratam a natureza como mercadoria e desmontam a proteção ambiental em nome do lucro. Destacamos a importância Reforma Agrária como a saída necessária para soberania alimentar.
Nunca como hoje a luta contra o imperialismo e o fascismo foi tão atual e necessária. Essa luta precisa ser articulada internacionalmente. A Conferência Antifascista e pela soberania dos povos compromete-se a continuar a luta sem descanso e como espaço de construção de unidades contra a ascensão da extrema direita e as agressões imperialista. Diante da barbárie, levantamos a bandeira da solidariedade internacional, da luta dos povos e de um futuro socialista, ecológico, democrático, feminista e antirracista.
PROPOMOS:
- O Comitê Internacional, articuladamente com o Comitê e nação local, fica responsável por: organizar o planejamento da próxima Conferência; propor critérios e iniciativas para inclusão de novas organizações.
- Tendo em conta a existência de inúmeras organizações e associações voltadas à luta contra o fascismo e o imperialismo, propomos a constituição de uma mesa de articulação internacional para unificar globalmente essa luta e o incentivo à realização de conferências regionais e nacionais antifascistas e anti-imperialistas, com o propósito de realizar uma 2ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos.
- Todas as organizações participantes desta Conferência, desde que não se manifestem em contrário são automaticamente, participes dessa carta.
- Apoiar a construção de uma conferência latino-americana na Argentina, em data e formato a serem propostos pela delegação e organizações argentinas, em diálogo com o comitê internacional.
- Apoiar uma conferência regional na América do Norte envolvendo organizações do México, Estados Unidos, Canadá, Caribe e América Central.
- Apoio a Flotilha Nova Global Sumud Flotilha, que novamente busca romper o cerco e denunciar o genocídio de Gaza. A luta do povo Palestino- em Gaza e na Cisjordânia- é a causa da humanidade. Apoiamos a solidariedade ativa materializada em espaços e movimentos como o BDS.
- Solidariedade à Cuba contra o criminoso bloqueio promovido pelos Estados Unidos, ameaçada de agressão à sua soberania. Apoio à todas as iniciativas de solidariedade, como foram as recentes iniciativas de flotilha para a ilha.
- Repúdio à invasão da Venezuela e ao sequestro e prisão do presidente Nicolas Maduro e da deputada Cilia Flores e apoio à luta pela sua libertação.
- Repúdio ao ataque militar ao Irã pelos Estados Unidos e Israel. Respeito à autodeterminação do povo iraniano, fim das sanções unilaterais.
- Defesa da independência e autodeterminação e soberania de todos os territórios sob ocupação colonial e imperialistas.
- Denunciar a interferência estrangeira no Haiti, apoiando a luta do seu povo.
- Apoio à luta da Frente Polisário pela independência do Shara Ocidental, direito reconhecido pela ONU.
- Apoio à luta do povo porto-riquenho pela autodeterminação e independência.
- Apoio ao encontro anti-OTAN na Turquia em 2026.
- Apoio a Contra-cúpula do G7 na França e Suíça em junho de 2026.
- Apoiar as iniciativas contra o negacionismo climático, como as jornadas e encontros ecossocialistas que estão se organizando.
- Apoiar e construir o próximo Fórum Social Mundial no Benin, em agosto de 2026.
DERROTAR OS FASCISMOS E O IMPERIALISMO É TAREFA URGENTE DE NOSSA ÉPOCA
Porto Alegre, 29 de março de 2026.





