Conheça boas práticas de mais de 700 escolas em tempo integral

Como ampliar o tempo escolar com qualidade? Conheça as experiências do MEC que unem território, cultura e inclusão em um ambiente digital inédito

por Ana Luísa D’Maschio e Vinícius de Oliveira

O que acontece quando a escola deixa de ser apenas um lugar de aulas para se tornar um espaço marcado por vínculos, cultura e pertencimento? Espalhadas por todo o Brasil, 738 experiências de educação em tempo integral ajudam a responder a essa pergunta. Elas estão reunidas no novo Mapa de Experiências Inspiradoras, lançado pelo MEC (Ministério da Educação), um ambiente digital que demonstra como ampliar a jornada escolar é uma maneira eficaz de aumentar as oportunidades de aprendizagem e o desenvolvimento dos estudantes.

O mapa funciona como um espaço de troca entre pares, onde as práticas podem ser filtradas por etapa de ensino, modalidade, estado, região e temas transversais, como gestão, currículo, territórios, diversidade e inclusão. Além disso, cada experiência gera um arquivo em PDF para download, desenvolvido para apoiar processos formativos em reuniões pedagógicas e equipes técnicas das secretarias.

Diversidade e respeito ao território

Em Poções, no interior da Bahia, a educação integral estruturou-se como uma estratégia de proteção social articulada ao território. O projeto“Entre Cantos e Cores: o reisado como patrimônio vivo na formação integral dos estudantes” integra manifestações culturais locais, como o Terno de Reis, à rotina escolar por meio de oficinas de música, atividades coletivas e cortejos. A proposta parte do reconhecimento de que a cultura é, em si, um processo de aprendizagem e pertencimento. Simultaneamente, a ampliação do tempo escolar atende a demandas concretas das famílias ao garantir alimentação adequada, infraestrutura e condições de permanência para crianças em situação de vulnerabilidade.

Já em São João do Caiuá, no Paraná, a política de tempo integral tem sido o caminho para avançar na inclusão de estudantes neurodivergentes. A rede municipal reorganizou seu trabalho pedagógico com base no Plano de Ensino Individualizado (PEI), alinhado a processos contínuos de formação docente. As escolas passaram a oferecer oficinas de neuroeducação, integrando práticas de respiração, relaxamento e música ao cotidiano. Um diferencial da experiência é a atuação de uma equipe multidisciplinar, composta por profissionais da saúde e da educação, além da criação de um Centro de Atendimento Educacional Especializado próprio, o que reduz deslocamentos e fortalece a articulação entre educação integral e inclusiva.

No município de Itacoatiara, no Amazonas, a educação integral conecta-se diretamente aos desafios ambientais. O projeto “Desvendando o futuro da pesca na Amazônia”, desenvolvido em parceria com a UFAM (Universidade Federal do Amazonas), envolve estudantes em investigações sobre os impactos da seca extrema de 2023 na vida das comunidades ribeirinhas. A proposta articula biologia, geografia e história em uma abordagem interdisciplinar que parte de problemas reais para construir conhecimento científico. Ao assumir o protagonismo da pesquisa, os jovens ampliam sua compreensão sobre as mudanças climáticas e reconhecem a escola como um espaço de produção de soluções locais.

A experiência “LibrasCoin: inclusão, empreendedorismo e equidade em ação”, em Guarapuava (PR), promove o protagonismo de estudantes surdos ao integrar metodologias ativas, como o STEAM (acrônimo em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) e a Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP). Na prática, os alunos criaram uma horta vertical automatizada e um sistema de economia solidária. Por meio da comercialização dos cultivos e da troca de recicláveis por fraldas geriátricas — utilizando a moeda própria LibrasCoin —, os estudantes aplicam conceitos de sustentabilidade e cidadania, tendo a Libras como base para um aprendizado interdisciplinar.

Em Tramandaí (RS), a Escola Municipal de Educação Infantil Criança Feliz iniciou, em 2023, o projeto “Educação bilíngue em Libras na pré-escola”. A iniciativa visava incluir um aluno surdo em uma turma de ouvintes, integrando a língua de sinais ao cotidiano por meio de estímulos visuais. Com a chegada de uma intérprete em 2024, o projeto expandiu-se com oficinas semanais e o coro “Feliz Momento Bilíngue”, que se tornou símbolo de inclusão na região.

Para o professor Levindo Diniz Carvalho, da UFMG e um dos coordenadores do projeto, essas experiências revelam que ampliar o tempo de escola significa habitar o tempo de outras maneiras. “Não se trata apenas de estender horas, mas de criar vínculos, fortalecer autonomias, conectar a escola ao território e articular diferentes dimensões da formação humana”, afirma.

Radiografia nacional da educação integral

As 738 experiências selecionadas estão distribuídas por 25 estados, 15 capitais e 714 municípios, apresentando a seguinte configuração regional:

– Nordeste: 319 experiências (43,2% do total).
– Sudeste: 192 experiências (26% do total).
– Sul: 119 experiências (16,1% do total).
– Norte: 74 experiências (10% do total).
– Centro-Oeste: 35 experiências (4,7% do total).

As ações foram escolhidas via edital público e o MEC já anunciou uma nova edição da seleção para 2026. Coordenada pela Secretaria de Educação Básica, a iniciativa busca contribuir para o cumprimento da Meta 6 do Plano Nacional de Educação (PNE), que trata da expansão da oferta de tempo integral no país.

Por que o modelo de escola em tempo integral faz sentido?

A adoção deste modelo justifica-se pela necessidade de transformar a escola em um espaço que transcenda o ensino acadêmico tradicional, focando no desenvolvimento intelectual, físico, social e emocional do estudante. Segundo as diretrizes do MEC, ampliar a jornada não significa apenas aumentar o tempo de permanência, mas qualificar esse período através de um projeto político-pedagógico que conecte o currículo aos saberes da comunidade e aos interesses reais dos alunos.

Para uma transição efetiva, o modelo prioriza a qualidade da permanência por meio da formação de lideranças, materiais pedagógicos diversos e projetos inovadores. A proposta destaca-se pelo caráter intersetorial, unindo educação, saúde, cultura e esporte para criar uma rede de proteção que previne violências e promove o bem-estar escolar. Todo esse processo é acompanhado por mecanismos de avaliação e monitoramento sistêmico, assegurando que a política pública seja aprimorada continuamente com a participação da sociedade e das redes de ensino.

Materiais de apoio

Confira cartilhas, guias e manuais orientadores disponíveis para download no portal do MEC e aprofunde seu conhecimento sobre a implementação da educação integral.

Fonte
Porvir

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