Cuba não vive crise, vive ‘estado de guerra’, diz embaixador no Brasil

Victor Cairo rebate declaração de Trump, revela três meses sem combustível e pede apoio material a aliados

Cuba completa três meses sem receber combustível, enfrenta a mais severa ofensiva dos Estados Unidos em 50 anos e vive uma situação de “guerra”, não de crise. O alerta é do novo embaixador cubano no Brasil, Victor Cairo, em aula inaugural na Universidade de Brasília (UnB) nesta terça-feira (17).

“Vivemos 60 anos de cerco econômico; agora vivemos uma guerra”, afirmou o diplomata durante a abertura do curso Processos históricos de Cuba e Contexto atual, promovido pelo Núcleo de Estudos sobre Cuba (Nescuba).
Atuando há menos de um mês no Brasil, após exercer a função diplomática no Panamá desde 2022, Cairo rebateu diretamente a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que a ilha seria um “estado falido”.

“Cuba é um estado em guerra, não um estado falido”, declarou. Em recente fala, Trump chegou a dizer que tem o direito de fazer “qualquer coisa” com Cuba, ameaçando tomar o controle do território.

Segundo o embaixador, os Estados Unidos tentam, “pela primeira vez em 50 anos, agredir Cuba pela via armada”. O instrumento principal seria o que chamou de “cerco econômico, comercial e energético”, intensificado desde o final de 2025 com a promessa de sanções a países que vendam petróleo à ilha socialista.

“O cerco econômico, comercial e energético nos obriga a pensar que existe uma intenção do presidente dos EUA [Trump] e do secretário de Estado [Marco Rubio] hoje em sufocar e assassinar Cuba de fome, miséria e ruptura da vida, e crise humanitária”, denunciou.

A situação energética é particularmente grave no país caribenho. Com cerca de 80% da energia gerada por termelétricas alimentadas por combustíveis, a nova medida do governo Trump reduziu drasticamente a possibilidade de compra de petróleo no mercado global.

O quadro foi agravado pelo bloqueio naval dos EUA à Venezuela, implementado a partir do final de 2025. A Venezuela, aliada histórica de Cuba, era responsável por suprir grande parte da demanda energética da ilha em condições preferenciais. O bloqueio tornou-se, assim, um golpe direto na já fragilizada matriz energética cubana.

‘Catástrofe humanitária’

Segundo o embaixador, a falta de combustíveis não é um problema setorial, mas uma catástrofe humanitária em curso. “Impacta a saúde, a educação, o transporte de alimentos, a cadeia de distribuição de medicamentos e o turismo, diminuindo a quantidade de aviões que podem chegar ao país”, enumerou.

Ao descrever o cotidiano dos cubanos, Cairo falou em hospitais que reduzem operações, em transporte público parado, em cadeias de distribuição de medicamentos rompidas. “Lutamos e trabalhamos com o mínimo recurso e temos que reduzir o transporte público, as horas de trabalho, as operações nos hospitais, tendo que parar o processo de produção”, revelou.

Como consequência direta da pressão norte-americana, os governos de Honduras e da Jamaica encerraram acordos de décadas que permitiam a atuação de brigadas médicas cubanas em seus territórios.

O Brasil tem um papel estratégico neste momento. “Se o Brasil joga forte, Cuba não estará sozinha”, declarou o embaixador, reconhecendo a posição do presidente Lula em defesa da soberania cubana e as doações brasileiras de medicamentos e alimentos, com a expectativa de uma nova remessa com soja, feijão e arroz. Cairo, no entanto, descreveu o limite da ajuda: o governo brasileiro não envia combustível à ilha, temendo os efeitos das sanções.

Solidariedade

O evento reuniu solidariedade internacional e vozes de diferentes gerações em defesa da soberania cubana.

A professora e fundadora do Nescuba, Maria Auxiliadora César, que visita Cuba desde 1994, trouxe a perspectiva histórica. Ela contou que nunca viu o país em uma situação tão preocupante como a de agora.

“Estive em Cuba na década de 1980, estive no período especial. Cuba conseguiu sobreviver porque, mesmo sendo um período muito difícil, a solidariedade cotidiana é algo maravilhoso. Agora, Cuba depende de uma batalha de ideias e uma batalha material. Cuba necessita muito mais.”

Na mesma linha, o representante da embaixada do Irã no Brasil, Ali Mir, prestou solidariedade ao povo cubano e reagiu a uma fala do embaixador. “Se a única coisa que resta para os Estados Unidos é o poder militar, acho que o Irã vai acabar com isso também”, disse, seguido de aplausos.

O venezuelano Freddy Meregote, que protagonizou uma resistência contra a tentativa de invasão à embaixada da Venezuela em novembro de 2019, afirmou: “Temos que fazer esforço, os povos do mundo, para retirar o bloqueio contra Cuba.”

Já a jovem Yara Flor, estudante do ensino médio, de 17 anos, representou a voz da nova geração. Ela afirmou que “é uma barbaridade e uma coisa terrorista que os Estados Unidos fazem em Cuba” e que é preciso “conscientizar as pessoas nas universidades e escolas, já que muitas pessoas não sabem o que está acontecendo”.

Flotilha Nossa América

Uma campanha de solidariedade tem mobilizado parlamentares, dirigentes sindicais e representantes estudantis brasileiros que participam de uma caravana internacional de solidariedade a Cuba. O grupo pretende levar mais de 20 toneladas de produtos para ajuda humanitária ao país caribenho.

Flotilha Nossa América está marcada para partir no sábado (21), por via marítima, aérea e terrestre.

No sábado, 21 de março, mais de 20 toneladas de alimentos, medicamentos e insumos deixarão o Brasil em direção a Havana. A Flotilha Nossa América não leva apenas ajuda humanitária. Leva, nas palavras da professora Maria Auxiliadora, “a certeza de que a solidariedade cotidiana ainda é capaz de furar bloqueios”.

Fonte
Brasil de Fato

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