Desemprego, drama superado?
Aumento da ocupação é meia-verdade ilusória. Dados mostram: precarização, que persiste, achata salários, reduz direitos e torna inseguros mesmo os empregos com carteira. Até o sono é afetado – em benefício de um punhado de rentistas
O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), instrumento criado pela Lei nº 4.923 de 1965, constitui uma das principais fontes estatísticas para a compreensão das dinâmicas do mercado de trabalho formal no Brasil. Contudo, para além de sua dimensão quantitativa, este registro administrativo carrega em si as marcas das tensões sociais que atravessam a sociedade brasileira, revelando os movimentos de avanço e recuo na formalização das relações de trabalho que afetam diretamente a vida cotidiana de milhões de trabalhadores e trabalhadoras. O ano de 2025 encerrou com um saldo positivo de 1.279.498 empregos formais, resultado de 26,59 milhões de admissões contra 25,32 milhões de desligamentos, conforme dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego em 29 de janeiro de 2026.
Este resultado, embora positivo em termos absolutos, representa o pior desempenho na geração de empregos formais desde 2020, ano em que a pandemia de COVID-19 provocou o fechamento de 189,3 mil vagas com carteira assinada. A queda de 23,7% em relação ao saldo de 2024, quando foram criados aproximadamente 1,67 milhão de postos formais, evidencia uma desaceleração significativa no ritmo de formalização do trabalho brasileiro. É fundamental distinguir, metodologicamente, duas fontes estatísticas complementares: o Novo CAGED, registro administrativo do Ministério do Trabalho e Emprego que capta exclusivamente os movimentos de admissão e desligamento no mercado formal (trabalhadores celetistas), e a PNAD Contínua do IBGE, pesquisa amostral domiciliar que abrange toda a força de trabalho, incluindo informais, trabalhadores por conta própria e empregados domésticos. Esta distinção é crucial para compreender por que o Brasil pode apresentar simultaneamente o pior saldo de empregos formais desde a pandemia e a menor taxa de desemprego da série histórica: a ocupação total cresceu via informalidade e outras formas de trabalho não captadas pelo registro administrativo. Tal movimento não pode ser compreendido apenas como reflexo de ciclos econômicos abstratos, mas deve ser situado no contexto das experiências concretas vivenciadas pelos trabalhadores em seus locais de trabalho, nas filas de emprego e nas estratégias de sobrevivência que desenvolvem cotidianamente.
A análise setorial dos dados revela padrões significativos que merecem atenção. O setor de Serviços liderou a geração de empregos em 2025, com 758.355 novas vagas (crescimento de 3,29%), seguido pelo Comércio com 247.097 postos (2,3%), Indústria com 144.319 vagas (1,6%), Construção com 87.878 postos (3,1%) e Agropecuária com 41.870 empregos (2,3%). Dentro do setor de Serviços, destacaram-se as atividades de informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas, que geraram 318.460 vagas, bem como a administração pública, educação, saúde e serviços sociais, com saldo de 194.903 postos. Estes números traduzem transformações estruturais na composição do trabalho brasileiro, com crescente terceirização e precarização de vínculos.
O mês de dezembro de 2025 registrou saldo negativo de 618.164 postos de trabalho formal, o pior resultado para o período desde dezembro de 2020. As perdas foram distribuídas entre todos os setores: Serviços (-280.810), Indústria (-135.087), Construção (-104.077), Comércio (-54.355) e Agropecuária (-43.836). Esta sazonalidade, embora esperada em função do encerramento de contratos temporários ligados às festas de fim de ano, atingiu magnitude superior aos anos anteriores, indicando uma fragilidade crescente nos vínculos empregatícios. A taxa de rotatividade dos últimos 12 meses aumentou de 32,79% em 2024 para 33,64% em 2025, evidenciando a instabilidade que marca a experiência dos trabalhadores formais.
Para o ano de 2026, as projeções apontam para uma continuidade da desaceleração na geração de empregos formais. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta crescimento do PIB de 1,8%, o menor em seis anos, com taxa de desemprego encerrando o ano em 5,6% e massa de rendimento real crescendo 3,4%. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mantém projeção de crescimento do PIB em 1,6% para 2026, enquanto o Banco Central trabalha com estimativa de 1,5%. O FGV IBRE projeta crescimento de 1,7%, com taxa de desemprego mantendo-se baixa ao longo do ano. Esta aparente estabilidade nos indicadores agregados, contudo, oculta transformações qualitativas nas condições de trabalho que afetam de maneira desigual diferentes segmentos da classe trabalhadora.
O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, atribuiu o desempenho menos favorável de 2025 à política monetária contracionista, com a taxa Selic mantida em 15% ao ano, o maior patamar dos últimos 20 anos. Segundo análises da CNI, a expectativa é de que o ciclo de cortes na Selic tenha início ao longo de 2026, encerrando o ano em aproximadamente 12%. Entretanto, mesmo com eventuais reduções, os juros continuarão em nível contracionista, limitando investimentos e consumo. Para os trabalhadores, esta configuração macroeconômica traduz-se em menor oferta de vagas, maior competição por postos disponíveis e pressão sobre salários e condições de trabalho, elementos que conformam sua experiência cotidiana e suas possibilidades de organização coletiva.
Quadro 1 – Principais Indicadores do Mercado de Trabalho Brasileiro em 2025
| INDICADOR | VALOR |
| Saldo de empregos formais (CAGED 2025) | 1.279.498 postos |
| Admissões totais em 2025 | 26,59 milhões |
| Desligamentos totais em 2025 | 25,32 milhões |
| Estoque de trabalhadores celetistas (dez/2025) | 48,47 milhões |
| Variação do estoque em relação a 2024 | +2,71% |
| Taxa de desemprego média anual (PNAD Contínua) | 5,6% |
| Taxa de desemprego (trimestre out-nov-dez/2025) | 5,1% |
| População ocupada (trimestre set-out-nov/2025) | 103,2 milhões |
| Rendimento médio real habitual (nov/2025) | R$ 3.574,00 |
| Taxa de informalidade (3º tri/2025) | 37,8% |
| Trabalhadores com carteira assinada (nov/2025) | 39,4 milhões |
| Saldo dezembro/2025 | -618.164 postos |
| Taxa de rotatividade (últimos 12 meses) | 33,64% |
Balanço crítico: O trabalho por trás dos números
A análise da série histórica da taxa de desemprego no Brasil, entre 1967 e 2026, permite identificar padrões que transcendem as conjunturas econômicas imediatas e revelam transformações estruturais nas relações entre capital e trabalho. Os dados apresentados, que combinam diferentes metodologias de mensuração (PNAD oficial, PNADC média anual e estimativas de Bacciotti e Marçal), evidenciam que os níveis de desemprego observados nas últimas décadas representam patamares historicamente elevados quando comparados ao período de industrialização acelerada das décadas de 1960 e 1970. O pico atingido entre 2018 e 2021, com taxas superiores a 13%, constitui a expressão mais aguda de uma crise que afetou profundamente a vida de milhões de famílias trabalhadoras brasileiras.
A trajetória de queda da taxa de desemprego a partir de 2021, chegando aos níveis atuais próximos a 5%, merece interpretação cuidadosa. Se por um lado representa alívio imediato para trabalhadores que conseguiram reinserção no mercado, por outro oculta fenômenos como a precarização dos vínculos, a proliferação do trabalho por plataformas digitais e a chamada “pejotização” das relações de trabalho – termo sociológico que designa a prática de contratação de trabalhadores como pessoas jurídicas (PJ), mascarando relações de subordinação típicas do vínculo empregatício, e que não deve ser confundido com categoria jurídica formal de contratação. O trabalhador que aparece como ocupado nas estatísticas da PNAD Contínua pode estar submetido a jornadas extenuantes, remuneração variável e ausência de direitos trabalhistas, configuração que o aproxima mais da condição de desemprego disfarçado do que de emprego propriamente dito. As linhas tracejadas no gráfico histórico, indicando taxas de 5% e 3% como referências, sugerem que mesmo em cenários considerados favoráveis, parcela significativa da força de trabalho permanece excluída do emprego formal.
Os dados sobre criação de vagas formais no período 2020-2025 revelam uma trajetória de recuperação seguida de desaceleração que merece atenção. Após o saldo negativo de 189,4 mil vagas em 2020, o ano de 2021 registrou criação excepcional de 2.782,3 mil postos, seguida por 2.014,9 mil em 2022, 1.455,3 mil em 2023, 1.677,6 mil em 2024 e finalmente 1.279,5 mil em 2025. Esta sequência demonstra que a recuperação pós-pandêmica perdeu fôlego progressivamente, com o saldo de 2025 representando menos da metade do verificado em 2021. A análise por setores revela ainda que, em 2025, Serviços foi responsável por 758,4 mil vagas, Comércio por 247,1 mil, Indústria por 144,3 mil, Construção por 87,9 mil e Agropecuária por 41,9 mil, evidenciando a crescente terceirização da economia brasileira.
A variação interanual do estoque de empregos formais por setor, no período de janeiro de 2022 a outubro de 2025, permite identificar ciclos diferenciados de absorção de mão de obra. A Construção manteve taxas de crescimento superiores às demais atividades durante boa parte de 2022 e início de 2023, beneficiada por programas habitacionais e obras de infraestrutura, mas experimentou desaceleração acentuada a partir de meados de 2024. A Indústria apresentou variações negativas em diversos momentos de 2023, refletindo os impactos da política monetária restritiva sobre o setor produtivo. O Comércio mostrou sazonalidade pronunciada, com picos em períodos festivos seguidos de retrações. Os Serviços mantiveram crescimento relativamente estável, consolidando sua posição como principal absorvedor de força de trabalho formal na economia brasileira.
A correlação entre taxa de desemprego e prevalência de sono curto nas capitais brasileiras, apresentada com coeficiente de 0,75 e R² de 0,56, oferece perspectiva reveladora sobre as consequências do desemprego que transcendem a dimensão estritamente econômica. Os dados indicam que capitais com maiores taxas de desemprego tendem a apresentar maior proporção de adultos com duração curta de sono, evidenciando como as condições do mercado de trabalho afetam a saúde física e mental da população trabalhadora. Esta relação corrobora estudos internacionais que demonstram que o desemprego aumenta a incidência de distúrbios do sono, sendo especialmente graves para desempregados de longa duração. Para os trabalhadores, o desemprego não representa apenas ausência de renda, mas deterioração global das condições de vida.
A literatura internacional sobre os efeitos do desemprego na saúde, exemplificada pelo estudo de Blanchflower (2021) com dados de 2,5 milhões de indivíduos nos Estados Unidos entre 2006 e 2019, demonstra que os desempregados apresentam maior incidência de sono curto e longo, além de sono interrompido, quando comparados aos empregados. O aumento da taxa de desemprego agregada eleva a incidência de sono curto mesmo entre os que permanecem empregados, sugerindo que a insegurança no trabalho afeta o conjunto da classe trabalhadora. Estes achados reforçam a necessidade de compreender o desemprego não apenas como fenômeno macroeconômico, mas como experiência vivida que afeta corpos, mentes e relações sociais dos trabalhadores, configurando o que se poderia chamar de dimensão moral do desemprego – a perda de autoestima, o estigma social e a desestruturação das rotinas familiares.
Tabela 1 – Saldo de Empregos Formais por Grande Setor (2020-2025)
| SETOR | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 |
| Serviços | – | – | – | – | 913,4 | 758,4 |
| Comércio | – | – | – | – | 338,0 | 247,1 |
| Indústria | – | – | – | – | 305,7 | 144,3 |
| Construção | – | – | – | – | 109,2 | 87,9 |
| Agropecuária | – | – | – | – | 11,3 | 41,9 |
| TOTAL | -189,4 | 2.782,3 | 2.014,9 | 1.455,3 | 1.677,6 | 1.279,5 |
Desafios do mercado de trabalho: perspectivas críticas
O primeiro desafio que emerge da análise dos dados diz respeito à persistência de elevada informalidade no mercado de trabalho brasileiro. Com taxa de 37,8% da população ocupada em situação informal no terceiro trimestre de 2025, o Brasil mantém parcela significativa de seus trabalhadores à margem dos direitos trabalhistas conquistados historicamente. As desigualdades regionais são marcantes: enquanto Santa Catarina apresenta taxa de 24,9%, estados como Maranhão (57,0%), Pará (56,5%) e Piauí (52,7%) mantêm mais da metade de sua força de trabalho na informalidade. Esta configuração reflete não apenas diferenças no desenvolvimento econômico regional, mas a herança de formação social desigual que marca a história brasileira, onde segmentos expressivos da classe trabalhadora nunca chegaram a experimentar plenamente os direitos associados ao trabalho formal.
O segundo desafio concerne às desigualdades de gênero e raça que estruturam o mercado de trabalho. Os dados da PNAD Contínua revelam que, no segundo trimestre de 2025, a taxa de desocupação foi de 4,8% para homens e 6,9% para mulheres. Por cor ou raça, a taxa ficou em 4,8% para brancos, 7,0% para pretos e 6,4% para pardos. Estas disparidades, longe de representarem meras diferenças estatísticas, expressam processos históricos de discriminação e exclusão que relegam mulheres e pessoas negras às posições mais precárias do mercado de trabalho. A experiência do desemprego, da informalidade e da precarização não se distribui aleatoriamente na sociedade, mas segue padrões determinados pela estrutura de classes, gênero e raça que organiza a sociedade brasileira.
O terceiro desafio refere-se à crescente instabilidade dos vínculos empregatícios formais. O aumento da taxa de rotatividade de 32,79% em 2024 para 33,64% em 2025 indica que mesmo os trabalhadores com carteira assinada experimentam insegurança crescente em relação à permanência no emprego. Esta instabilidade dificulta o planejamento de longo prazo das famílias trabalhadoras, compromete a capacidade de negociação coletiva dos sindicatos e fragmenta a experiência de classe dos trabalhadores. A rotatividade elevada favorece os empregadores, que podem substituir trabalhadores mais experientes e mais bem remunerados por novos contratados com salários de entrada, configurando mecanismo de compressão salarial que afeta o conjunto da categoria profissional.
O quarto desafio diz respeito aos impactos da política monetária restritiva sobre o mercado de trabalho. A manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, o maior patamar em duas décadas, representa escolha de política econômica que privilegia o controle inflacionário em detrimento da geração de empregos. A projeção de início do ciclo de cortes apenas em 2026, com a taxa encerrando o ano em aproximadamente 12%, sugere que a pressão sobre o mercado de trabalho deverá persistir. Para os trabalhadores, juros elevados significam menor oferta de vagas, maior dificuldade de acesso ao crédito e redução do poder de barganha nas negociações salariais. A política monetária, apresentada como decisão técnica neutra, revela-se assim como terreno de disputa distributiva com implicações diretas para a vida da classe trabalhadora.
O quinto desafio concerne às transformações tecnológicas e organizacionais que redefinem as formas de trabalho. A expansão do trabalho por plataformas digitais, a proliferação de contratos intermitentes e a chamada “uberização” do trabalho – categoria analítica que designa a transferência de riscos e custos da atividade econômica para os próprios trabalhadores, mediada por aplicativos digitais – configuram modalidades de ocupação que, embora apareçam nas estatísticas como trabalho, frequentemente carecem dos atributos que historicamente definiram o trabalho assalariado formal: jornada definida, remuneração previsível, proteção contra demissão arbitrária e acesso a direitos como férias, décimo terceiro e FGTS. Para os trabalhadores, estas novas formas de organização do trabalho representam simultaneamente possibilidade de ocupação em contexto de escassez de empregos formais e armadilha de precarização que dificulta a construção de identidades profissionais e a organização coletiva.
A perspectiva que orienta esta análise recusa a separação entre estruturas econômicas abstratas e experiências vividas pelos trabalhadores. Os números do CAGED, as taxas de desemprego, os indicadores de informalidade e as projeções macroeconômicas ganham significado quando situados no contexto das lutas, adaptações e resistências cotidianas dos trabalhadores brasileiros. O desemprego não é apenas estatística, mas experiência que desorganiza vidas, afeta a saúde mental e física, e desafia a autoestima de milhões de pessoas. A informalidade não é mera categoria analítica, mas condição de vida marcada pela incerteza e pela exclusão de direitos. A precarização não é tendência impessoal, mas resultado de escolhas políticas e econômicas que podem ser contestadas e transformadas. Compreender o mercado de trabalho brasileiro exige, portanto, conjugar a análise das tendências estruturais com a atenção às experiências concretas daqueles que vivem do trabalho, reconhecendo-os como sujeitos ativos na construção de sua própria história.
Referências
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