Dia Nacional da Visibilidade Trans e o compromisso com uma cultura de paz
O dia 29 de janeiro é o Dia Nacional da Visibilidade Trans, data importante para fortalecer o compromisso da sociedade brasileira com os direitos humanos, a diversidade e a dignidade de todas as pessoas. Instituída a partir da mobilização do movimento social, a data busca dar visibilidade a travestis, mulheres trans, homens trans e pessoas transgênero, historicamente submetidas à exclusão social, à violência e à negação de direitos básicos.
No Brasil, a realidade vivida pela população trans permanece marcada por profundas desigualdades e violências estruturais. Lançado em 26 de janeiro, o Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2025, elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA), confirma que o país segue como o que mais mata pessoas trans no mundo. Embora o levantamento registre uma redução de 34% no número de assassinatos em relação ao ano anterior, o próprio dossiê alerta que essa diminuição não pode ser interpretada como avanço, estando associada à subnotificação, ao medo generalizado, à diminuição da cobertura na mídia e à ausência de políticas públicas efetivas de enfrentamento à transfobia.
O dossiê revela ainda que a violência contra a população trans atinge de forma desproporcional jovens e pessoas negras. Em 2025, 77% das vítimas de assassinatos tinham menos de 35 anos, evidenciando que a longevidade segue sendo um privilégio negado à maioria das pessoas trans no Brasil. Entre os casos em que foi possível identificar raça e cor, 70% das vítimas eram pessoas trans negras, o que explicita a interseção entre transfobia e racismo estrutural. O levantamento aponta também a interiorização da violência, com 67,5% dos assassinatos ocorrendo em cidades do interior, onde a ausência de políticas públicas, a precariedade da rede de proteção e a invisibilidade institucional ampliam a vulnerabilidade.
O Dia Nacional da Visibilidade Trans dialoga diretamente com o Dia Mundial da Não Violência e da Cultura de Paz, celebrado em 30 de janeiro. Não há cultura de paz possível em uma sociedade que naturaliza o medo e o silenciamento. Como afirma Marcelo Yuka na música Minha alma, “paz sem voz não é paz, é medo”, síntese de uma realidade em que a negação de direitos transforma a paz em mera aparência. A cultura de paz pressupõe o respeito às diferenças, o diálogo e a garantia de direitos como fundamento da convivência democrática.
Para a CONTEE, o debate sobre diversidade é tarefa permanente, indissociável da defesa da educação como espaço de formação crítica e inclusiva. Escolas e universidades desempenham importante papel na desconstrução de estigmas, na promoção do respeito à diversidade de identidades, corpos e trajetórias e na afirmação dos direitos humanos como base da vida democrática.
O Dia Nacional da Visibilidade Trans representa, assim, um chamado à responsabilidade coletiva. Fortalecer políticas públicas, assegurar a efetivação da legislação de proteção aos direitos humanos e promover ações educativas são passos essenciais para a construção de uma cultura de não violência e para o fortalecimento de uma sociedade verdadeiramente democrática.
Por Antônia Rangel
Link para o dossiê: dossie-antra-2026.pdf





