Educação digital sem formação docente é ilusão, diz professora mais admirada do mundo
Premiada em Dubai, Débora Garofalo argumenta que tecnologia sem formação docente não transforma a educação. No artigo, ela alerta para o risco de ampliar desigualdades quando investimento em equipamentos não vem acompanhado de desenvolvimento profissional
por Débora Garofalo
Educação digital sem formação docente é ilusão.
Essa convicção não nasceu agora. Ela vem sendo construída ao longo da minha trajetória, no cotidiano do chão da escola, nas formações com professores e, mais recentemente, no diálogo com secretarias de educação. É uma percepção que amadureceu na prática, entre políticas implementadas, desafios persistentes e tentativas de transformar acesso em aprendizagem. Mas ganhou uma dimensão ainda mais clara neste começo de ano.
No dia 31 de janeiro, às duas da manhã, recebi uma ligação inesperada da Varkey Foundation, organização internacional responsável pelo Global Teacher Prize. A mensagem era direta: eu precisava embarcar imediatamente para Dubai. A passagem já estava emitida.
Horas depois, eu estava no avião.
Em Dubai (Emirados Árabes Unidos), participei da programação que antecede o Global Teacher Prize, prêmio que reconhece educadores de destaque no mundo todo, e fui surpreendida com o reconhecimento como Global Teacher Influencer (em tradução livre, Professor Influenciador Global), categoria que valoriza professores cuja atuação dialoga com políticas públicas e sistemas educacionais.
Subir ao palco foi emocionante. A grandiosidade do prêmio me atravessou com gratidão e senso de responsabilidade. Mas o reconhecimento não encerra o percurso. Ele amplia o compromisso. E foi ao sair do palco que entendi que aquele momento não pedia apenas celebração, mas escuta atenta e reflexão contínua.
Durante a viagem, também participei do Spark Dubai, encontro promovido pela Varkey Foundation que reuniu educadores, lideranças e especialistas para discutir o futuro da educação em um mundo cada vez mais digital. Nas conversas com profissionais de diferentes países, ficou evidente que a tensão entre acesso tecnológico e mediação pedagógica qualificada não é um desafio local. É global.
Ao ouvir relatos de contextos tão distintos, percebi um padrão recorrente. Apesar das diferenças culturais e econômicas, os sistemas educacionais enfrentam dilemas estruturais muito semelhantes, especialmente na forma como lidam com tecnologia e formação docente. Dispositivos chegam com rapidez, mas a formação não acompanha. Quando isso acontece, o impacto recai com mais força sobre as escolas vulneráveis.
Foi nessa escuta, mais do que no reconhecimento público, que minha convicção se consolidou. Educação digital sem formação docente não transforma. Pode, inclusive, aprofundar desigualdades.
Entre o discurso da inovação e a prática da sala de aula
Vivemos um tempo em que a tecnologia avança mais rápido do que nossa capacidade de compreendê-la. Inteligência artificial, plataformas adaptativas, ambientes híbridos e algoritmos de personalização prometem mudanças profundas. No entanto, nas escolas públicas brasileiras e em muitas outras ao redor do mundo, permanece uma distância visível entre o discurso da inovação e a prática cotidiana da sala de aula.
Tecnologia não educa por si só. Plataforma não ensina. Algoritmo não substitui intencionalidade pedagógica. Quem transforma ferramentas em aprendizagem é o professor, com repertório, criticidade, sensibilidade e propósito.
Durante anos, políticas públicas e investimentos privados concentraram esforços na aquisição de equipamentos. Computadores, tablets e lousas digitais passaram a simbolizar modernização. No entanto, evidências recentes indicam que infraestrutura isolada não melhora a aprendizagem.
Estudos recentes da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), como o PISA 2022 (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes de 2022), mostram que a simples disponibilidade de dispositivos digitais não melhora automaticamente o desempenho dos estudantes. A qualidade da mediação pedagógica é o fator decisivo.
No Brasil, após a pandemia, muitas redes ampliaram o acesso a dispositivos e plataformas. Ainda assim, persistem lacunas na formação continuada para o uso crítico, criativo e ético dessas ferramentas. Sem esse investimento, a tecnologia vira vitrine: moderna e visível, mas pedagogicamente subutilizada.
É o que se convencionou chamar de “plug and play educacional” — a crença de que basta conectar dispositivos para que a inovação aconteça. Educação não funciona de forma automática. É humana.
O que aprendi com professores do mundo inteiro
No Spark Dubai, educadores da Finlândia, dos Emirados Árabes Unidos, da África do Sul, do Canadá e de países da América Latina relataram experiências semelhantes às nossas. Quando a tecnologia chega antes da formação, surgem ansiedade, sobrecarga e frustração.
Mas também ouvi estratégias consistentes.
Uma professora canadense relatou que sua escola decidiu desacelerar a implementação da inteligência artificial até que toda a equipe passasse por ciclos formativos aprofundados. Não se tratava apenas de aprender a usar ferramentas, mas de discutir ética, autoria, impacto dos algoritmos e responsabilidade no uso de dados.
Um educador africano contou que, em sua comunidade, a formação docente ocorreu antes mesmo da chegada dos dispositivos. Quando os equipamentos finalmente chegaram, os professores já sabiam como integrá-los ao currículo com clareza pedagógica.
O consenso era simples e direto: inovação começa na formação.
Desenvolvimento profissional vai além do tutorial técnico
Formar professores para a educação digital não significa ensiná-los apenas a operar plataformas. Significa desenvolver pensamento crítico sobre algoritmos e inteligência artificial, capacidade de desenhar experiências de aprendizagem ativas, integração entre competências socioemocionais e digitais e ética no uso de dados.
Sem esse aprofundamento, a tecnologia apenas digitaliza práticas tradicionais. A aula expositiva vira apresentação em slides. A lista de exercícios se transforma em questionário online. A forma muda; a lógica permanece.
Com formação consistente, a tecnologia pode ampliar investigação, colaboração, resolução de problemas reais e protagonismo estudantil.
Tecnologia, bem-estar e equidade
Outro ponto central discutido foi o bem-estar docente. A pressão por inovação rápida tem impactado a saúde emocional dos professores em diferentes países. Implementar tecnologia sem suporte adequado amplia a carga de trabalho e gera insegurança profissional.
Qualquer política de educação digital precisa se apoiar em três pilares articulados: formação continuada estruturada, bem-estar docente e intencionalidade pedagógica.
Também ficou evidente o risco de ampliação das desigualdades. Quando a formação docente é desigual, o impacto da tecnologia também é. Escolas com equipes mais preparadas avançam com clareza. Outras permanecem no uso superficial.
Educação digital sem formação não democratiza. Ela seleciona. Por isso, falar de tecnologia na educação pública é falar de equidade.
Da ilusão à transformação
Se o diagnóstico é consistente, as soluções também precisam ser. Formação continuada não pode ser episódica. Precisa ser permanente, articulada ao cotidiano escolar, com mentoria, acompanhamento e tempo institucional para planejamento colaborativo.
Fortalecer comunidades de aprendizagem docente é estratégico. Professores aprendem melhor quando aprendem juntos. A inovação sustentável nasce da troca e da reflexão compartilhada.
Infraestrutura, currículo, avaliação e formação não podem caminhar de forma fragmentada. Não se trata apenas de adquirir equipamentos, mas de estruturar ecossistemas pedagógicos coerentes, nos quais tecnologia e objetivos educacionais estejam alinhados.
Também precisamos redefinir indicadores. Não basta contabilizar dispositivos distribuídos ou plataformas contratadas. O que importa é o impacto nas práticas pedagógicas e na aprendizagem dos estudantes.
Voltei dessa experiência com uma convicção ainda mais firme. Tecnologia deve ampliar a humanidade, não substituí-la.
Educação digital sem formação docente é uma promessa vazia porque ignora o elemento central da aprendizagem, que é a mediação humana.
Quando investimos em professores, em sua formação, autonomia e saúde emocional, a tecnologia deixa de ser ilusão e se torna potência.
O futuro da educação não será definido pelos dispositivos que compramos, mas pelos professores que formamos. Essa é uma escolha profundamente política, pedagógica e humana.
Débora Garofalo, professora, mestra em Educação, gestora em inovação, integrante da comissão municipal de Direitos Humanos, embaixadora do Instituto Ayrton Senna e da Varkey Foundation. Considerada uma das 10 melhores professoras do mundo pelo Global Teacher Prize.





