Embaixador de Cuba denuncia “genocídio” por bloqueio dos EUA
Victor Cairo pediu solidariedade efetiva do Brasil em encontro com mídia progressista em SP; país precisa de medicamentos, alimentos e energia
Diretores, editores e jornalistas de veículos progressistas participaram, na noite desta quinta-feira (9), de um encontro com o novo embaixador de Cuba no Brasil, Victor Cairo, na Casa Carlito Maia, sede do Armazém do Campo, no centro de São Paulo. Assumindo o posto há um mês, o diplomata apresentou um panorama da crise cubana agravada pelo cerco energético dos Estados Unidos e convocou a imprensa brasileira a ampliar a cobertura sobre a realidade da ilha.
“Agressão sem bombas”
Cairo classificou o bloqueio econômico imposto há mais de seis décadas como “uma agressão sem bombas, sistemática, que busca causar danos a todos os aspectos da vida do povo cubano”. Segundo ele, a situação se agravou com o que chamou de “cerco energético”: Cuba produz apenas 30% do combustível necessário para gerar os mais de 3.500 megawatts diários de energia que consome.
“O petróleo que produzimos contém ácido sulfúrico, muito agressivo para as termoelétricas. Quando uma usina sai de operação, não é por falta de capacidade técnica do governo, mas porque não temos insumos para manutenção devido ao bloqueio”, explicou o embaixador.
O resultado, segundo Cairo, são apagões que ultrapassam 16 horas na capital e afetam hospitais, escolas e serviços públicos. “Não é possível manter um sistema universitário presencial sem corrente elétrica”, alertou.
Classificação como genocídio e lista de terrorismo
O novo embaixador de Cuba no Brasil, Victor Cairo, assumiu a tarefa no mês passado. Foto: Cezar Xavier
O diplomata foi enfático ao afirmar que o bloqueio viola a Carta das Nações Unidas e pode ser juridicamente classificado como ato de genocídio: “Pretende atacar a existência humana de um povo, de uma população, a partir de ações claras que buscam diminuir a capacidade do povo cubano para produzir”.
Ele também criticou a reinclusão de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo, decisão anunciada por Donald Trump em seus primeiros atos de governo. “Dias antes, o governo de Biden havia decidido, por recomendação das agências de segurança, retirar Cuba dessa lista. A reinclusão é uma decisão política para reforçar o cerco”, afirmou.
Três prioridades para solidariedade efetiva
Cairo destacou que Cuba necessita hoje de três tipos de apoio concreto: medicamentos, suporte à produção de alimentos e energia – seja combustível ou painéis solares. O embaixador informou que o governo brasileiro prepara envio de doações de alimentos (soja, feijão, arroz e milho), mas ressaltou a urgência: “Tudo o que se tramita como se estivéssemos em situação normal não é efetivo. Precisamos de urgência”.
Sobre a campanha por painéis solares, Cairo fez um apelo: “Se cada militante dos movimentos sociais e partidos progressistas doasse um real, o Brasil arrecadaria mais de 30 milhões de reais. Com isso, seria possível instalar um parque fotovoltaico para cobrir uma região inteira de Cuba”. Até o momento, a campanha arrecadou cerca de R$ 350 mil.
Papel do Brasil e da imprensa
O embaixador elogiou a posição do presidente Lula em fóruns internacionais e afirmou que o Brasil tem capacidade de liderar uma iniciativa global em defesa de Cuba. “Acaso poderá o governo dos EUA atacar barcos de vários países juntos que levam combustível a Cuba? Não parece lógico”, ponderou.
Cairo também pediu à imprensa progressista que rompa a “bolha” e leve a realidade cubana ao grande público: “Se ficarmos apenas em atividades entre nós, o resto da população não conhece o que está acontecendo. Vocês têm capacidade de trabalhar nas redes sociais e nos meios”.
Questionado se há fome em Cuba, foi direto: “Cuba tem fome, mas é a mesma fome que eu vi na Vila Jardim, em Porto Alegre. Em Cuba não há analfabetos. E vivemos condições de guerra”.
Mobilizações em andamento
Representando o MST, Igor Filipe, da Secretaria Nacional do movimento, informou que a campanha “Ajude Cuba” já enviou 2 toneladas de medicamentos adquiridos diretamente de laboratórios, conforme lista do Ministério da Saúde cubano. Novos envios estão programados.
Como encaminhamentos do encontro, os participantes concordaram em:
– Participar da maratona midiática por Cuba, dias 17 e 18 de abril, proposta por veículos europeus;
– Dar visibilidade à agenda do cantor Chico Buarque em Cuba, onde grava músicas com Silvio Rodríguez;
– Articular um festival cultural em solidariedade à ilha;
– Criar um grupo de troca de informações sobre iniciativas de solidariedade, com fluxo direto com a Embaixada.
Antes de encerrar, Cairo reforçou: “Defender Cuba é defender a paz, é defender a América Latina, é defender o Brasil. Se Cuba cair, de que vale um amigo solidário quando seu amigo está morto?”.
Por Cezar Xavier





