Esquerda vence em Berlim e coloca Elif Eralp a um passo da prefeitura
O Die Linke (A Esquerda) foi o partido mais votado nas eleições estaduais de Berlim no domingo (20), algo inédito na história da capital alemã. Pela projeção do instituto Infratest dimap, a legenda alcançou 25,7% dos votos, à frente da CDU (União Democrata Cristã – 18,8%), da AfD (Alternativa para a Alemanha – 16,3%), dos Verdes (14,3%) e do SPD (Partido Social Democrata – 12,1%).
Em 2023 o partido havia obtido 12,2%, e o novo desempenho supera até o recorde de 22,6% de 2001, quando a sigla ainda disputava sob o nome de PDS. A CDU do chanceler Friedrich Merz, que governava a cidade, perdeu cerca de dez pontos percentuais, e o SPD registrou o pior resultado de sua história em eleições berlinenses.
A candidata do partido, Elif Eralp, de 45 anos, fez da moradia o eixo da campanha. Ela defendeu a socialização de grandes empresas imobiliárias, um teto para os aluguéis das companhias públicas de habitação, um órgão estadual de proteção aos inquilinos e um programa de moradia social. A proposta de transferir ao poder público os imóveis dos grandes grupos, cerca de 270 mil unidades, foi aprovada em referendo em 2021, com 58% dos votos, e nunca saiu do papel.
Uma pesquisa pós-eleitoral do Infratest dimap indicou que a segurança social foi o tema mais importante para 22% dos eleitores, seguida pela habitação, com 18%, que foi a principal questão entre os eleitores do Die Linke.
Nascida em Munique, Eralp é filha de refugiados políticos que deixaram a Turquia em 1980. É jurista e construiu sua trajetória na defesa dos direitos de migrantes. Se chegar ao comando do governo, será a primeira chefe de governo de origem turca da cidade. Será também a primeira vez que o partido ocupa esse posto, já que, até aqui, o Die Linke e seu antecessor participaram de governos berlinenses como minoritários.
A vitória nas urnas, porém, não entrega o cargo. O chefe de governo de Berlim, o Regierender Bürgermeister, é escolhido pelos deputados, e a coalizão CDU-SPD deixou de ter condições de continuar. Todos os partidos descartam se aliar à AfD, e restam duas composições possíveis, com Verdes e SPD: uma liderada pelo Die Linke e outra pela CDU. Os Verdes já manifestaram interesse em compor com a esquerda, mas cobram uma posição contra o antissemitismo. Eralp apresentou, durante a campanha, um plano de proteção à vida judaica na cidade, e a legenda diz se opor a todas as formas de violência contra grupos sociais. No SPD, a resistência recai sobre a socialização dos imóveis.
O resultado também não indica que Berlim tenha escapado da onda que favorece a direita radical no país. A AfD saltou de 9,1% para 16,3% na capital e, no mesmo domingo, terminou em primeiro lugar em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, com 38,2%, dois pontos e meio à frente do SPD. Duas semanas antes, o partido havia chegado perto de 44% na Saxônia-Anhalt.
Por Andressa Schpallir



