Falando de amor e de cinema: o Recife de Retratos Fantasmas

A dica cultural desta semana é Retratos Fantasmas, documentário de 2023 em que Kleber Mendonça Filho parte de dois endereços: um apartamento em Setúbal, na Zona Sul do Recife, onde viveu quase quarenta anos, e as salas de cinema do centro, onde passou a juventude. Entre um e outro, o filme, exibido em sessão especial no Festival de Cannes, descobre que a memória de uma cidade cabe tanto na casa de uma historiadora quanto no escuro de um cinema.

O prédio é de 1972. Joselice, historiadora da Fundação Joaquim Nabuco, comprou o imóvel em 1979, depois da separação, e a mudança foi um recomeço. Pesquisadora de Nabuco e André Rebouças, trabalhava com história oral, método que trata a memória de quem viveu os fatos como fonte. Ao rever uma reportagem de 1981 em que ela explica o método, Kleber diz que parece estar falando de metodologia, mas está falando de amor. A frase é uma das chaves do filme: a memória pessoal revela uma história coletiva.

O diretor passou anos filmando a casa, a rua e os vizinhos, e esse material volta transformado. O apartamento da vida comum convive com o “apartamento de cinema”, a rua de O Som ao Redor, os cupins que invadem o prédio e reaparecem em Aquarius, as grades que passam a cercar o bairro. Para Kleber, “filmes de ficção são os melhores documentários”, seus longas anteriores funcionam como registros involuntários do Recife de seu tempo.”

Da casa, o filme segue para o centro, que Kleber declara amar. Conta que cortou essa frase da montagem e a recolocou, porque quando se gosta de algo é preciso dizer. O amor tem endereço: Art-Palácio e Trianon, na Rua do Sol; São Luiz, na Rua da Aurora; Veneza, Moderno e Politeama, salas que ele frequentou várias vezes por semana dos 13 aos 25 anos.

O Art-Palácio, inaugurado em 1940, é o primeiro caso. Kleber acompanhou os dois últimos anos da sala e a filmou em VHS. Seu Alexandre, funcionário do cinema, conta como lidou com a censura na ditadura e foi quem o fechou na última noite, em julho de 1992. Kleber nunca conseguiu autorização para ver as ruínas. Há ainda o relato recuperado pelo diretor de que o prédio foi planejado como sala de um estúdio alemão que, nos anos 1930, passou a servir à propaganda nazista, num projeto abandonado com a guerra.

O Veneza, inaugurado em dezembro de 1970 na Rua do Hospício, com projeção em 70 mm, resume a trajetória do centro. Anos depois, exibiu Hair, de Milos Forman, considerado subversivo e antibélico pela ditadura. Segundo o filme, mais de 200 mil pessoas o viram ali em quase seis meses, mais do que em qualquer outra cidade do país. Décadas depois, um minishopping se instalou dentro da sala sem demolir o cinema, processo que Kleber compara a um organismo alienígena que fez dele seu hospedeiro. Quando o Veneza fechou, o letreiro anunciava Golpe Fulminante.

Por trás dessas perdas há uma geografia econômica. Já a partir dos anos 1970, dinheiro, comércio e serviços migraram do centro para a Zona Sul. O edifício Alfredo Fernandes, que abrigava os escritórios dos grandes estúdios de Hollywood e a central de cópias que abastecia o Norte e o Nordeste, resistiu até os anos 2000, quando a chegada da internet fechou os escritórios e concentrou a distribuição em São Paulo, a mais de dois mil quilômetros dali. Hoje, o esquecimento é tão completo que um novo administrador do prédio informou a Kleber, “com muita autoridade”, que nunca existiu nenhuma empresa de cinema ali.

Outras salas seguiram caminhos diferentes. O Eldorado, em Afogados, e o Albatroz, em Casa Amarela, viraram igrejas evangélicas no fim dos anos 1980, com cadeiras e telas intactas. O São Luiz, inaugurado em 1952 onde antes havia uma capela anglicana, é lembrado quase por unanimidade na memória do Recife e hoje é uma sala pública. Nas palavras de Kleber, “por dentro o São Luiz aumenta a fantasia e, na saída, ele te devolve pra rua”.

O que une a casa e as salas de cinema é o olhar para quem a cidade quase não vê. Ruas e prédios são concreto; quem lhes dá sentido são pessoas como Seu Alexandre ou Paulo Barbosa, portuário que também vendia lembranças de cinema na calçada. O filme lhes devolve um protagonismo que a história oficial, apegada a datas, processos e monumentos, nem sempre lhes dá.

É por isso que o filme escapa do saudosismo: não lamenta apenas o que se perdeu, mas insiste em explicar por que se perdeu e quem estava lá. É essa memória, a que não está nos documentos, que o cinema de Kleber enxerga.

Ficha técnica: Retratos Fantasmas, Brasil, 2023, documentário, direção e roteiro de Kleber Mendonça Filho, 93 minutos, distribuição Vitrine Filmes.

Onde assistir: disponível na Netflix e em plataformas de streaming

Por Antônia Rangel

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