Google omite IA em busca sobre Bolsonaro e plano para matar Lula e destaca crítica a Janones
Em teste do ICL, busca sobre Bolsonaro não exibiu resposta automática e apresentou como primeiro resultado uma reportagem contra o deputado
Por Cleber Lourenço
Quem pesquisou “Bolsonaro mandou matar o Lula” no Google, em teste realizado pelo ICL Notícias nesta terça-feira (20), encontrou uma situação curiosa: a plataforma não exibiu sua resposta automática de inteligência artificial e colocou no topo dos resultados uma reportagem que atacava o deputado André Janones (Rede-MG) por incentivar justamente essa pesquisa. Quando o nome de Bolsonaro foi substituído por outros, a ferramenta de IA voltou a aparecer.
A reportagem destacada pelo buscador é, inclusive, crítica ao movimento iniciado pelo deputado e tem o título “Jogada suja de Janones dissemina busca que associa Bolsonaro a plano de morte contra Lula”. Ou seja, em vez de encontrar logo de início uma explicação sobre o plano de assassinato investigado pela Polícia Federal, o usuário recebeu como primeiro resultado uma crítica à mobilização que levou o assunto ao Google.
O teste foi feito depois que Janones orientou apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a pesquisar a frase. Ao repetir a consulta com nomes como “João” e “Cleber” no lugar de Bolsonaro, o ICL observou que o Google passou a oferecer respostas automáticas de inteligência artificial.
A diferença envolve um assunto que já foi examinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão por liderar a organização criminosa responsável pela tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Entre os planos identificados nas investigações estava o Punhal Verde e Amarelo, que previa o assassinato de Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes.
IA reconhece acusação da PGR, mas abre resposta com ressalva sobre Bolsonaro
O ICL decidiu então insistir na pesquisa. Em vez de utilizar a busca convencional, acessou diretamente o Modo IA do Google e repetiu a pergunta: “Bolsonaro mandou matar Lula?”.
Dessa vez, a plataforma respondeu. Mas começou afirmando que “não há nenhuma condenação ou ordem direta comprovada de Jair Bolsonaro para matar Luiz Inácio Lula da Silva”.

A própria resposta, no entanto, trouxe uma informação importante logo abaixo. Segundo a ferramenta, Bolsonaro foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) sob a acusação de “saber e consentir com um plano de golpe de Estado” que previa o envenenamento de Lula e Alckmin e o assassinato de Moraes.
A resposta também apresentou a versão da defesa do ex-presidente, que nega envolvimento, e mencionou críticas à denúncia por suposta ausência de provas de ordens diretas de execução.
O plano para assassinar Lula não é uma especulação. Foi descoberto pela Polícia Federal, detalhado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que condenou militares envolvidos nos preparativos para matar Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes.
Na denúncia, a PGR afirmou expressamente que Bolsonaro tinha conhecimento do plano Punhal Verde e Amarelo e concordou com ele. Segundo o procurador-geral Paulo Gonet, o planejamento foi levado ao então presidente, “que a ele anuiu”.
O caso também resultou na condenação de integrantes do chamado núcleo 3 da trama golpista, formado principalmente por militares das forças especiais do Exército. O STF examinou provas de que o grupo participou dos preparativos para assassinar autoridades e impedir a posse do governo eleito.
São justamente essas informações que ficam em segundo plano na resposta do Google. A inteligência artificial destaca a ausência de uma ordem direta comprovada de Bolsonaro, embora a PGR tenha apontado sua concordância com o plano e o Supremo tenha reconhecido os preparativos criminosos nos julgamentos que resultaram em condenações.
Google também reconheceu mobilização de Janones
Outro detalhe da resposta chamou atenção. O próprio Modo IA identificou que a expressão pesquisada havia ganhado força por causa de uma campanha digital.
Segundo o Google, a frase “Bolsonaro mandou matar Lula” tornou-se um fenômeno de buscas devido a uma estratégia coordenada por apoiadores do governo. A ferramenta mencionou a atuação de parlamentares aliados para estimular pesquisas e recolocar as investigações de 2022 no debate público.
A mobilização foi convocada por Janones nesta terça-feira, em meio ao segundo turno da eleição presidencial, disputado por Lula e Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A iniciativa buscava ampliar a circulação de informações sobre a trama golpista justamente no momento em que o filho do ex-presidente disputa o Palácio do Planalto.
O resultado do teste, porém, foi diferente do que se poderia esperar de uma consulta sobre o caso. Na busca convencional, a IA não apareceu e o primeiro link observado pelo ICL era uma crítica a Janones. No Modo IA, acionado manualmente, o Google apresentou informações sobre a denúncia, mas abriu a resposta destacando a ausência de uma condenação específica por uma ordem de assassinato.
A experiência não permite afirmar que a plataforma tenha restringido deliberadamente a pesquisa. O Google utiliza diferentes critérios para exibir respostas automáticas e organizar links, e esses resultados podem variar conforme o momento e o usuário.
A questão que permanece é por que uma pesquisa envolvendo Bolsonaro e um plano de assassinato documentado pela Polícia Federal recebeu tratamento diferente de consultas semelhantes com outros nomes.
O ICL Notícias entrou em contato com o Google para pedir esclarecimentos sobre os resultados das buscas. Em resposta, a empresa afirma que “não manipula resultados de busca, não treina modelos de IA, não modifica produtos nem aplica políticas para favorecer ou desfavorecer qualquer ideologia política, ponto de vista ou candidato. Nossos produtos de IA são baseados nos sistemas de classificação centrais da Busca, desenvolvidos para serem neutros. As Visões Gerais criadas por IA não aparecem em todas as pesquisas e temos proteções que evitam sua exibição em tópicos sensíveis – nestes casos, a Busca direciona as pessoas a uma ampla variedade de fontes de notícias confiáveis e oficiais. Quando as pessoas usam o Modo IA, geramos respostas baseadas em conteúdo da web, incluindo links para que possam se aprofundar.”



