Gracias Pablito Milanés por todo!

Partiu um combatente, um companheiro que encontramos nesta caminhada. Pablo Milanés, 79 anos, morreu nesta terça (22)

Quando Dão Real e eu começamos a fazer música, lá no final dos anos 1970, as nossas referências eram basicamente regionais, principalmente pela dificuldade de acesso e pelos filtros impostos pela censura e regime vigente. O sistema dominante criou um modelo de música que não nos representava, não falava do que vivíamos e muito menos do que sonhávamos.

Começamos a compor músicas falando de um Rio Grande do Sul que não era o da estética do patrão, das grandes estâncias, representada na época pelo Teixeirinha.

Nós éramos jovens, mas a Jovem Guarda do Roberto/Erasmo não dialogava com nossos anseios e realidade.

Saímos a caminhar e encontramos, nas vielas, guetos e tantas trilhas desta América, outros e outras que traziam desejos, lutas e conquistas, ricas experiências para serem compartilhadas.

E o sonho de uma Pátria Grande se desvelou. Percebemos que éramos muitos e muitos outros, desconectados é bem verdade, mas havia uma sonoridade, um canto de todos, seja em português, espanhol, guarani ou quechua.

Encontramos Belchior, Vandré, Milton, Ellwanger, Violeta, Mercedes, Jara, Viglietti, Silvio e tantos outros. Chico nos apresentou Pablo Milanés, Vicente Feliu nos trouxe a convivência com a Nova Trova Cubana.

Partiu um combatente, um companheiro que encontramos nesta caminhada. Pablo Milanés, aos 79 anos, morreu nesta terça-feira, 22 de novembro, em Madri/Espanha.

Considerado o cantor da Revolução Cubana, compositor de canções de amor, mas tendo a temática social como fonte de inspiração, transforma-se na voz de luta e resistência contra as injustiças sociais e ditaduras na América do Sul, Central e Caribe.

Uma das suas músicas mais conhecidas no Brasil é Yolanda. Composta para sua mulher, Yolanda Benet, quando do nascimento da primeira filha do casal, Linn. Pablo estava envolvido com agendas culturais no interior de Cuba e não pode estar presente ao nascimento.

Músicos brasileiros da MPB sempre tiveram uma forte ligação com Pablo Milanés e suas canções. Milton Nascimento gravou Cancion Por La Unidad Latino-americana no álbum Clube da Esquina 2 (1978), Diana Pequeno grava no mesmo ano Los Caminos. Fagner gravou Años, juntamente com Mercedes Sosa, no álbum Traduzir-se (1981). Em 1983, na casa de shows Canecão/RJ, foi gravado o show que deu origem ao álbum Pablo Milanés ao vivo no Brasil. Chico Buarque faz versão em português para Yolanda e grava juntamente com Simone em seu álbum Desejos (1984).

Pablo estará presente em cada canção de amor, sem procurar a justa forma. Em cada canção que é mais que uma canção. Não é por me faltares que vou morrer, nos deixaste fisicamente, mas também nos deixou uma vida inteira de luta e resistência em forma de canções. Siga em paz, com a certeza do dever cumprido.

Nós ainda temos um pouco mais de caminho a percorrer. Continuaremos cantando Yolanda, assim como continuaremos cantando La Carta, Te Recuerdo Amanda, Creeme, Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores, Cio da Terra e muitas mais.

“E sendo cantar meu ofício e nada tendo além desta voz. Que se ouça meu canto, que se ouça meu canto.” (Mário Barbara)

Siga em paz, eternamente Pablito.

*Músico, integrante do Grupo Unamérica, professor e artista plástico.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Brasil de Fato

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5  +    =  7

Botão Voltar ao topo