Lula no The New York Times: soberania, autodeterminação e defesa do multilateralismo
O artigo “Esse Hemisfério pertence a todos nós”, publicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no New York Times em 18 de janeiro de 2026, é uma resposta diplomática à intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela ocorrida em 3 de janeiro.
Ao comentar o episódio, Lula diz que, “em mais de 200 anos de história independente, esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos”. A afirmação dá o tom do texto: não se trata apenas de um posicionamento sobre um conflito específico, mas de uma advertência sobre os efeitos regionais e globais de ações que desconsideram a soberania de países e a legalidade internacional.
Ao publicar sua análise no principal jornal do país responsável pela ação militar, o presidente amplia o alcance da mensagem e o insere no campo do direito internacional, do multilateralismo e da autodeterminação dos povos. Com isso, o Brasil se apresenta como um ator que reivindica estabilidade a partir de regras comuns, e não da imposição de poder.
Lula interpreta a ofensiva contra a Venezuela como parte de um processo mais amplo de deterioração das normas que sustentam a ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. Para ele, a repetição de ações unilaterais contribui para um cenário em que “quando o uso da força para resolver disputas deixa de ser a exceção e se torna a regra, a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam ameaçadas”. A crítica, portanto, é dirigida não apenas ao episódio venezuelano, mas à lógica que normaliza intervenções e enfraquece mecanismos de negociação e mediação internacional.
Em um dos trechos mais diretos, o estadista reconhece que líderes podem ser responsabilizados por ações antidemocráticas, mas ressalta que “não é legítimo que outro Estado se arrogue o direito de administrar a justiça”. Ao fazer essa ponderação, Lula reforça que o combate a práticas autoritárias não pode servir de justificativa para violações de soberania, nem para ações externas que substituam a vontade popular e os mecanismos legais próprios de cada país.
Nesse contexto, o texto reafirma um ponto político central: é inaceitável que a América Latina e o Caribe sejam tratados como extensão de interesses externos. Lula lembra que a região “abriga mais de 660 milhões de pessoas” e possui “próprios interesses e sonhos a defender”. Ao rejeitar “esforços hegemônicos” e a divisão do mundo em “zonas de influência”, o presidente sustenta que o continente deve ser compreendido como um espaço de nações soberanas, com direito de decidir seus próprios caminhos sem tutela. A frase que dá título ao artigo sintetiza essa posição: “esse hemisfério pertence a todos nós”.
Ao mesmo tempo, Lula evita uma abordagem puramente reativa e propõe uma agenda de cooperação regional. Em um trecho propositivo, afirma: “Nossos países devem se empenhar por uma agenda regional positiva, capaz de superar as diferenças ideológicas em prol de resultados pragmáticos. Queremos atrair investimentos em infraestrutura física e digital, promover empregos de qualidade, gerar renda e expandir o comércio dentro da região e com nações de fora dela. A cooperação é fundamental para mobilizar os recursos de que tanto precisamos para combater a fome, a pobreza, o narcotráfico e as mudanças climáticas.” Ao colocar temas sociais e econômicos como horizonte, o texto sugere que soberania e desenvolvimento são dimensões inseparáveis de qualquer projeto democrático.
Por fim, o artigo sinaliza que a crítica não exclui o diálogo. O líder brasileiro afirma que seu governo “tem se engajado em um diálogo construtivo com os Estados Unidos” e ressalta que Brasil e EUA são “as duas democracias mais populosas do continente americano”. Ao defender que os dois países podem unir esforços em torno de investimentos, comércio e combate ao crime organizado, conclui que “Somente juntos podemos superar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós”.
Dessa forma, ao publicar “Esse Hemisfério pertence a todos nós”, Lula reitera que a soberania e o direito internacional não podem ser relativizados por conveniência geopolítica, e que a estabilidade regional depende do diálogo, do multilateralismo e do respeito à autodeterminação dos povos, para que a América Latina e o Caribe não sejam tratados como zona de influência, mas como um espaço de cooperação entre nações iguais.
Por Antônia Rangel





