Mulheres com N Maiúsculo: trajetórias negras que ampliam a memória do Brasil
O que acontece quando 31 mulheres negras, lideranças quilombolas, juristas, educadoras, pesquisadoras e artistas têm suas histórias contadas por um coletivo de outras dez mulheres negras? O resultado é Mulheres com N Maiúsculo, obra que recusa a invisibilidade histórica e transforma trajetórias de vida em documento político e cultural.
Esta é a Dica Cultural da Contee desta semana. Lançado no final de 2025, o livro parte do conceito de escrevivência, formulado pela escritora Conceição Evaristo: a ideia de que a escrita brota das experiências vividas e da memória coletiva. Os textos, portanto, vão além do perfil jornalístico convencional. São, simultaneamente, narrativa, registro histórico e afirmação de identidade.
Entre as 31 mulheres retratadas, dois perfis ilustram a diversidade da obra. Dora Bertúlio atuou no sistema jurídico para contribuir na construção de instrumentos legais de combate à desigualdade racial, como as políticas de ação afirmativa. Já Diva Guimarães denunciou como o racismo opera no cotidiano escolar, onde educadoras e educadores enfrentam o desafio permanente de transformar currículos e práticas pedagógicas. Esses percursos exemplificam o que perpassa toda a obra: a articulação entre experiência pessoal, produção de conhecimento e engajamento coletivo.
A letra “N” maiúscula no título é posicionamento. Ela afirma que a identidade negra é central nas histórias narradas. Ao entrelaçar gênero e raça, o livro nomeia explicitamente a dupla marginalização histórica dessas mulheres e reivindica para elas visibilidade, reconhecimento e respeito. Ao afirmar as mulheres com N maiúsculo, o livro preserva a memória e disputa a narrativa do presente.
Muitas das mulheres retratadas atuam diretamente em espaços educativos, culturais e comunitários. Suas histórias oferecem ao educador referências concretas sobre como raça, gênero e classe operam na escola e fora dela, e sobre como é possível construir práticas pedagógicas mais comprometidas com a igualdade.
Para educadoras e educadores que buscam romper com o silêncio curricular sobre as mulheres negras brasileiras, esta obra funciona como ferramenta importante. Não substitui o estudo histórico sistemático, mas pode servir como ponto de partida para que estudantes reconheçam que a história do país também foi construída por aqueles e aquelas que muitas vezes o sistema tentou invisibilizar.
A Contee indica esta obra por entender que reconhecer a contribuição das mulheres negras para a história do país é também fortalecer uma educação democrática, plural e comprometida com os direitos humanos. Cultura e memória são, nesse sentido, ferramentas de luta.
Referência
Kanoni, Cláudia; Reis, Aline (coord.). Mulheres com N Maiúsculo: Perfis Jornalísticos e Escrevivências Negras. Curitiba: Arte & Letra, 2025. 264 p.
Onde encontrar: Livrarias físicas e plataformas digitais de venda de livros.
Por Antônia Rangel





