Mulheres e meninas na ciência: incentivar a participação é fortalecer o futuro

O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, foi instituído pela Organização das Nações Unidas em 2015 para promover o acesso, a permanência e a valorização feminina nas áreas científicas e tecnológicas. A data reafirma que a desigualdade de gênero na ciência é estrutural e exige enfrentamento contínuo.

De acordo com o UNESCO Science Report 2021, as mulheres representam cerca de 33,3% dos pesquisadores no mundo. Embora haja avanços, a sub-representação permanece mais acentuada em áreas estratégicas como engenharia, física, computação e tecnologias digitais. Mesmo onde há maior presença feminina na educação superior, a proporção diminui nos níveis mais altos da carreira científica e nos espaços de decisão.

No Brasil, os dados revelam movimento semelhante. Estudo da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, com base em informações do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, aponta que o número de mulheres que ingressaram em cursos de graduação nas áreas de ciências exatas e biológicas cresceu 29% entre 2013 e 2023. Ainda assim, em 2023, 74% dos ingressantes em cursos de STEM eram homens, enquanto apenas 26% eram mulheres. O crescimento é real, mas insuficiente para alterar de forma significativa a configuração de gênero nas áreas centrais da inovação tecnológica.

Esse quadro mostra que o incentivo precisa começar cedo. Pesquisas educacionais indicam que meninas apresentam desempenho equivalente ao dos meninos em matemática e ciências nos primeiros anos escolares. No entanto, durante a adolescência, muitas se afastam dessas áreas devido a estereótipos persistentes, ausência de referências e ambientes pouco acolhedores.

Escola e família têm papel decisivo nesse processo. Ambientes de aprendizagem que estimulam a curiosidade científica, o protagonismo e a experimentação ampliam horizontes. Combater estereótipos no cotidiano e valorizar o interesse das meninas por tecnologia e ciências é investir em oportunidades concretas.

O reconhecimento histórico também é parte dessa valorização. Ao longo da história, cientistas mulheres desempenharam importante papel no avanço do conhecimento. Marie Curie, pioneira nos estudos sobre radioatividade; Ada Lovelace, precursora da programação; Emmy Noether, referência na matemática e na física teórica; e Rosalind Franklin, cuja pesquisa foi decisiva para a descoberta da estrutura do DNA, são exemplos de contribuições que marcaram a ciência.

No Brasil, a excelência científica também tem rosto feminino e forte vínculo com a pesquisa pública. Enedina Alves Marques, primeira mulher negra engenheira civil do país; Jaqueline Goes de Jesus, responsável pelo sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 no Brasil; Nise da Silveira, que humanizou o tratamento em saúde mental; Sônia Guimarães, física e primeira mulher negra docente do ITA; Suzana Herculano-Houzel, neurocientista de reconhecimento internacional; e Graziela Maciel Barroso, referência na botânica tropical, são exemplos de trajetórias que ampliaram o conhecimento científico nacional.

A representatividade influencia escolhas profissionais, projetos de vida e a construção da autoconfiança intelectual. Quando referências femininas são visibilizadas, amplia-se o sentimento de pertencimento aos espaços científicos.

Promover a presença de mulheres na ciência exige enfrentar as distorções que atravessam o sistema acadêmico e profissional. A segregação horizontal concentra mulheres em determinadas áreas, enquanto a vertical limita seu acesso a posições de liderança e decisão. Superar essas barreiras requer políticas públicas permanentes, critérios transparentes de financiamento, ambientes institucionais seguros e compromisso efetivo com a equidade. Esse enfrentamento não pode permanecer apenas no campo das intenções: precisa se traduzir em ações institucionais concretas.

No Brasil, há iniciativas governamentais de incentivo à presença feminina na ciência, como o Prêmio Mulheres e Ciência, promovido pelo CNPq em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o Ministério das Mulheres. Também têm sido incorporados editais com recorte de gênero por órgãos de fomento e universidades públicas. São avanços relevantes, mas ainda insuficientes diante das desigualdades que persistem no sistema científico nacional.

Para a Contee, fortalecer a participação de mulheres e meninas na ciência é parte da defesa de uma educação democrática e inclusiva. Não há soberania científica nem desenvolvimento sustentável com exclusão de gênero. Investir em mulheres e meninas na ciência é fortalecer a educação pública, ampliar a justiça social e consolidar um projeto de país comprometido com inovação e equidade.

Por Antônia Rangel

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