Mulheres, poder e projeto de país: por que os números importam?
Para iniciar esta reflexão, proponho um exercício simples: fechemos os olhos e imaginemos como era a vida das mulheres que viveram nos anos 1960. Como se vestiam? Quantos filhos tinham, em média? Quais funções sociais lhes eram atribuídas? Em seguida, saltemos para os anos 1990 e observemos as mudanças ocorridas. Por fim, olhemos para o presente e perguntemo-nos: quais lugares ocupamos e como estamos construindo nossos futuros?
Nos anos 1960, a mulher era majoritariamente vista como responsável pelo lar. Quando inseridas no mercado de trabalho, ocupavam cargos considerados “femininos”, associados ao cuidado e era compreendido como complementar à renda masculina. Ainda assim, já nesse período, surgia no movimento feminista, o questionamento da divisão sexual do trabalho e a ideia de que a desigualdade entre homens e mulheres não era natural.
Nos anos 1990, observa-se uma ampliação significativa da presença feminina no mercado de trabalho e nas universidades. Esse avanço, no entanto, veio acompanhado da intensificação da dupla jornada. Os arranjos familiares também mudaram, por um lado houve o aumento das famílias chefiadas por mulheres e por outro adiamento do casamento e da maternidade. O feminismo passou a ocupar espaços institucionais, impulsionando políticas públicas voltadas às mulheres e ampliando os debates sobre corpo, assédio, violências e sexualidade.
Na atualidade, as mulheres estão presentes em praticamente todas as áreas profissionais e continuamos avançando em escolaridade, em média, estudamos e se qualificamos mais do que os homens.Apesar disso, os problemas estruturais persistem: desigualdade salarial, pouca representação em cargos de chefia, precarização do trabalho (especialmente entre mulheres negras e de baixa renda), penalização da maternidade, crescimento do trabalho informal e do empreendedorismo feminino, talvez mais por necessidade, do que por escolha.
Os números não mentem
Esther Figueiredo Ferraz foi a primeira mulher a ocupar um alto cargo no Executivo federal, ao comandar o Ministério da Educação entre 1982 e 1985. Desde então, os avanços foram lentos. Segundo a Agência Patrícia Galvão, entre 1985 e 2024, apenas 42 mulheres chefiaram ministérios no Brasil, frente a 444 homens.
No atual governo Lula 3, observa-se um esforço maior de inclusão: 11 mulheres foram indicadas para comandar ministérios, de um total de 37. Nos cargos de direção e assessoramento criados recentemente, as mulheres ocupam cerca de 76% das posições, representando 45,6% do total de servidoras federais.
No Judiciário, entretanto, a desigualdade é ainda mais evidente. Em toda a história do Supremo Tribunal Federal (STF), apenas três mulheres ocuparam suas 11 cadeiras. Atualmente, apenas uma mulher compõe a Corte. No Supremo Tribuna de Justiça (STJ), das 33 vagas existentes, apenas cinco são ocupadas por mulheres. Na Advocacia-Geral da União (AGU), apesar da presença feminina em cargos relevantes, o posto máximo segue ocupado por um homem, reacendendo o debate sobre a necessidade de uma indicação feminina comprometida com a democracia.
Avançar, mesmo diante dos retrocessos
Em entrevista à BBC News Brasil, o cientista político Felipe Nunes aponta um fenômeno global: à medida que as mulheres avançam politicamente, cresce uma reação conservadora masculina. Ainda assim, os avanços dão sinais positivos com os mais jovens. Persistir é fundamental, sobretudo diante da dívida histórica com mulheres negras e de baixa renda.
Indicar mulheres para cargos de poder não é caridade, é responsabilidade política! E, assim como hoje é impensável que uma mulher tenha 19 filhos, como ocorreu com muitas de nossas avós, em breve será igualmente inconcebível manter tamanha desigualdade na ocupação dos espaços de decisão por quem é maioria da população, que vota, participa e sabe exatamente o que quer.
Finalizo lembrando a afirmação do ator Wagner Moura ao receber o Globo de Ouro: “Se o trauma pode atravessar gerações, valores também podem.” Eu acrescentaria: mudança de valores também!
*Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.





