Nota de repúdio

Há imagens que nenhuma disputa eleitoral justifica, neste sábado, 24 de outubro, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, durante manifestação de apoio ao candidato Flávio Bolsonaro (PL), vídeo registrado pelo jornalista Raphaël Bernard mostrou um homem branco conduzindo por uma corrente um homem negro com adesivos e inscrições alusivas ao Partido dos Trabalhadores, enquanto gritava ofensas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee) manifesta seu mais veemente repúdio a essa cena. Um homem negro puxado por uma corrente, em praça pública, diante de uma multidão, é a reencenação de um dos capítulos mais brutais da história brasileira. Que as circunstâncias e a relação entre os envolvidos ainda precisem ser esclarecidas não atenua a gravidade: a imagem da escravidão não é adereço, fantasia nem piada, e usá-la como escárnio político é um ato de desprezo pela história e pela dignidade da população negra.

O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, e essa herança de violência permanece inscrita nas desigualdades que ainda estruturam a sociedade. Quem transforma essa memória em espetáculo de rua, na véspera de um segundo turno, naturaliza a violência racial e testa até onde o país tolera a humilhação de seu povo negro. A resposta democrática é clara: não tolera.

As salas de aula são o espaço onde a Lei nº 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira, e onde se constrói, todos os dias, o compromisso com uma educação antirracista. Cenas como a da Barra da Tijuca zombam desse esforço e obrigam os profissionais da educação a reafirmar, sem meias palavras, que imagens como esta atentam contra a dignidade humana e são intoleráveis.

A Contee reitera que a democracia se sustenta no reconhecimento da igualdade entre todas as pessoas e que nenhum projeto político se legitima pela humilhação de um grupo racial. A entidade exige das autoridades competentes a apuração rigorosa e imediata dos fatos e a responsabilização, nos termos da lei, de todos os que forem identificados como autores, mandantes ou partícipes de eventual crime, inclusive o de racismo e injúria racial. Cobra também que as lideranças políticas associadas ao ato se manifestem de forma inequívoca sobre o ocorrido. Conclama as trabalhadoras e os trabalhadores da educação, bem como suas entidades representativas, a manterem-se firmes na defesa dos direitos humanos, da igualdade racial e do Estado democrático de direito.

Brasília, 24 de outubro de 2026.

Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee)

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