O conto da Aia
A dica cultural desta semana é O Conto da Aia, romance publicado em 1985 pela escritora canadense Margaret Atwood. A obra foi reconhecida com o Governor General’s Literary Award, do Canadá, com o Los Angeles Times Book Prize e com o Arthur C. Clarke Award, recebido em 1987.
Em 2017, a adaptação televisiva criada por Bruce Miller e protagonizada por Elisabeth Moss conquistou oito prêmios Emmy, incluindo o de melhor série dramática, tornando-se a primeira produção de streaming a vencer nessa categoria. Com seis temporadas, encerradas em 2025, a série ampliou o alcance da narrativa de Atwood e reafirmou a atualidade de seus alertas sobre autoritarismo, controle dos corpos, perda de direitos e ameaças à democracia.
Na República de Gilead, instaurada após um golpe que derruba a ordem constitucional nos Estados Unidos, as mulheres perdem direitos fundamentais e passam a viver sob um regime teocrático e patriarcal. Aquelas consideradas férteis são submetidas à reprodução compulsória e destinadas a servir às famílias da elite dominante. A protagonista, Offred, vive sob vigilância e coerção, em uma sociedade que transforma a religião em instrumento de poder e a maternidade em obrigação política.
Os símbolos da série ultrapassaram as telas e se tornaram referências de protestos feministas em vários países. Na Argentina, na Irlanda e nos Estados Unidos, mulheres vestiram as capas vermelhas e as toucas brancas das aias em manifestações pelos direitos reprodutivos. Em 2018, mulheres com o mesmo figurino se manifestaram diante do Supremo Tribunal Federal, durante uma audiência pública sobre a descriminalização do aborto. A imagem das personagens tornou-se um símbolo de resistência ao controle dos corpos femininos e às tentativas de restringir direitos conquistados.
No Brasil, o debate sobre os direitos das mulheres também passa pelas políticas de segurança pública. A defesa da ampliação do acesso a armas de fogo pelo candidato da extrema direita à Presidência exige atenção diante dos riscos que as armas representam em situações de violência doméstica. Entre janeiro e julho de 2026, o país registrou 848 vítimas de feminicídio, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Embora retrate uma sociedade fictícia, O Conto da Aia dialoga com esses desafios ao mostrar como o autoritarismo e a perda de direitos podem aprofundar a opressão das mulheres.
A advertência de O Conto da Aia vai além da violência explícita: a obra mostra como a ruptura das instituições democráticas pode abrir caminho para um regime que transforma a opressão em regra. Em Gilead, a retirada de direitos e a redução dos espaços de resistência fazem com que medidas antes impensáveis passem a integrar o cotidiano. O livro pode ser lido como um alerta sobre a fragilidade das conquistas sociais e a importância de preservar as instituições que garantem direitos e liberdades.
A eleição presidencial de 2026 coloca em disputa diferentes projetos para o futuro do país. Democracia, soberania nacional, direitos das mulheres, liberdade de expressão e políticas públicas estão entre os temas centrais dessa escolha coletiva. Nesse contexto, derrotar nas urnas o projeto político da extrema direita deve ser uma prioridade máxima para quem defende a democracia e os direitos conquistados ao longo de décadas de mobilização social.
Em meio à campanha eleitoral, vale ler o romance ou assistir à série com uma pergunta em mente: quantas perdas de direitos uma sociedade aceita em silêncio antes de deixar de reconhecer o próprio país?
LIVRO
Ficha técnica: O Conto da Aia, no original em inglês The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood, publicado em 1985. Ficção distópica. Editora Rocco, tradução de Ana Deiró.
Onde encontrar: em livrarias físicas e virtuais, nas versões impressa e digital.
SÉRIE
Ficha técnica: The Handmaid’s Tale, intitulada no Brasil O Conto da Aia. Criação de Bruce Miller, baseada no romance de Margaret Atwood. Produção original da Hulu, exibida de 2017 a 2025, em seis temporadas. Elenco principal: Elisabeth Moss, Yvonne Strahovski, Joseph Fiennes, Samira Wiley, Ann Dowd, Alexis Bledel e Max Minghella.
Onde assistir: Netflix, com as seis temporadas disponíveis desde maio de 2026.
Por Antônia Rangel



