O corpo fala, o sindicato escuta: Secretaria da Mulher debate saúde mental das mulheres na educação

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A Secretaria da Mulher da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (CONTEE) realizou, na última terça-feira (27), live com o tema – “Saúde Mental da Mulher Trabalhadora na Educação: assédio, violências e estratégias de prevenção e combate”.

O encontro reuniu especialistas das áreas da psicologia, da psicanálise e do direito para debater os impactos do assédio, das violências institucionais e da sobrecarga de trabalho sobre a saúde mental das mulheres na educação, além de apontar caminhos coletivos de enfrentamento e prevenção.

A atividade foi mediada por Edilene Arjoni, coordenadora da Secretaria da Mulher da CONTEE, que destacou a importância de tratar a temática de forma qualificada, coletiva e permanente, reafirmando o compromisso histórico da entidade com a defesa das mulheres trabalhadoras da educação.

“Esse é um momento muito importante para a nossa confederação. A CONTEE tem uma preocupação gigantesca com a questão da mulher na educação, e esse bate-papo é fundamental”, afirmou.

A Secretaria da Mulher da Contee é composta pela coordenadora Edilene Arjoni e pelas diretoras Flávia Rodrigues e Maria de Fátima Rodrigues, ambas do Sinproep-DF. Andrea Cristina Teodoro, suplente na diretoria plena da Contee e integrante do Sinpro-Rio, atua como importante colaboradora da Secretaria. Juntas, elas vêm fortalecendo, em âmbito nacional, o debate sobre os direitos, a proteção e a saúde das mulheres trabalhadoras da educação.

Adoecimento mental como fenômeno coletivo e estrutural

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Na live, a psicóloga, psicanalista e dirigente sindical Aline Taconeli ressaltou que a saúde mental das mulheres na educação não é um tema periférico, mas central e estrutural no mundo do trabalho contemporâneo.

Segundo ela, transtornos como ansiedade, depressão e síndrome de burnout passaram a figurar entre as principais causas de afastamento do trabalho, disputando as primeiras posições com as doenças osteomusculares.

Aline enfatizou que esse adoecimento não pode ser explicado como fragilidade individual, mas como resultado de condições sociais e institucionais específicas, como a sobrecarga de trabalho, o assédio moral e sexual, a vigilância constante e expectativas irreais de produtividade e disponibilidade emocional.

“O assédio funciona como tecnologia de gestão, produzindo medo, silêncio e isolamento, e afeta não apenas quem sofre diretamente, mas todo o ambiente de trabalho”, esclareceu.

A palestrante salientou ainda avanços recentes no campo normativo, como a inclusão dos riscos psicossociais na NR-1, que reconhece oficialmente fatores como metas abusivas, ambientes hostis e sobrecarga como causadores de adoecimento.

“Não estamos mais falando de bem-estar ou clima organizacional, mas de responsabilidade institucional e obrigação legal. O sofrimento deixa de ser visto como falha pessoal e passa a ser enfrentado coletivamente”, argumentou.

Ao relacionar o adoecimento às transformações no mundo do trabalho, Aline apontou a intensificação do ritmo, a precarização dos vínculos, a insegurança permanente e a dissolução das fronteiras entre tempo de trabalho e tempo de vida.

“A gente já não sabe mais onde o trabalho começa e onde a vida termina. O trabalho passou a ocupar o tempo inteiro, a atenção inteira, o corpo inteiro e, às vezes, a vida inteira.”

Por fim, ela sinalizou que as mulheres representam entre 60% e 65% dos afastamentos por adoecimento mental relacionado ao trabalho, especialmente nas áreas de educação, saúde e serviços.

“Não é o sujeito que adoece. É o contexto”, concluiu.

“Quando a gente não consegue falar, o corpo fala”

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A psicanalista e sexóloga Priscila Cardoso trouxe uma reflexão sobre a saúde mental da mulher enquanto sujeito social, ressaltando que não existe uma mulher universal, mas múltiplas mulheres, atravessadas por diferentes experiências, violências e marcadores sociais.

“Falar de saúde mental da mulher é um desafio, porque não é sobre o indivíduo. É sobre a sociedade em que a gente vive. Nossa cultura, o momento histórico, a política, as questões ambientais e até a influência religiosa atravessam a nossa vida e o nosso corpo”, explicou.

Segundo Priscila, embora as experiências sejam diversas, recaem sobre as mulheres exigências coletivas semelhantes: dar conta do trabalho, do lar, da maternidade, dos relacionamentos e ainda atender a padrões estéticos e de produtividade. Ela sublinhou que essas cobranças são vividas de forma desigual, conforme classe, raça, orientação sexual, identidade de gênero, deficiência e religião.

Ao se referir às mulheres trabalhadoras da educação, Priscila chamou atenção para o peso dessa responsabilidade social.

“Estamos falando de mulheres que sustentam um espaço fundamental para a sociedade. Não apenas as que ensinam, mas também as que limpam, as que cozinham, as que coordenam, as que garantem a segurança. Todas sustentam cotidianamente um espaço que forma pessoas.”

Citando a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela lembrou que saúde mental não se resume à ausência de doença, mas à capacidade de lidar com os estresses da vida, trabalhar, se relacionar e contribuir com a comunidade — um direito humano fundamental.

Como psicanalista, Priscila foi enfática ao afirmar que o corpo acaba expressando aquilo que não encontra espaço na palavra.

“Quando a gente não consegue falar, o corpo fala. Os dados sobre adoecimento estão aí. O corpo está falando de palavras que não estão sendo ditas.”

Segundo ela, esse sofrimento se manifesta em sintomas como dores constantes, adoecimentos frequentes, crises de ansiedade, burnout e depressão. A psicanalista destacou ainda que as mulheres são historicamente educadas — e até adestradas — para o cuidado e para silenciar a própria dor.

“A gente aprende que tem que continuar, mesmo adoecida. Muitas mulheres pedem desculpa até quando estão falando da própria dor.”

Ao concluir, Priscila reforçou que o cuidado com a saúde mental não pode se restringir a datas simbólicas.

“Cuidar da saúde mental das mulheres trabalhadoras da educação não é favor. É responsabilidade coletiva, institucional e política. Usar a própria voz também é um gesto de cuidado e de resistência.”

Assédio, direitos e o papel estratégico do sindicato

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A advogada Mariana Serrano analisou a questão sob a perspectiva jurídica e institucional, ressaltando que o assédio moral e sexual no trabalho afeta a saúde mental das mulheres de forma estrutural, muitas vezes de maneira sutil e invisível, pressionando as vítimas ao silêncio.

Para ela, o enfrentamento dessas violências exige atuação coletiva e sindical.

“É fundamental que o sindicato acompanhe os casos, auxilie na coleta de provas, promova denúncias coletivas e assegure que as mulheres não enfrentem essas situações sozinhas.”

Mariana destacou que instrumentos como a NR-1, a CIPA e a atuação junto ao Ministério Público do Trabalho permitem transformar relatos individuais em ações concretas de prevenção e responsabilização institucional.

Ela chamou atenção ainda para a sobrecarga do trabalho não remunerado das mulheres e para a chamada economia do cuidado, fundamental para a sustentação do sistema econômico, mas historicamente invisibilizada.

“Estudos apontam que cerca de 11 trilhões de dólares por ano em trabalho gratuito são extraídos das mulheres. Quantos países têm um PIB desse tamanho?”, questionou.

Ao abordar o assédio atravessado pelo marcador de gênero, Mariana ponderou que ele assume contornos ainda mais violentos, incluindo ataques relacionados à maternidade, à aparência, às convicções políticas, religiosas ou à identidade de gênero.

“Quando uma professora tenta garantir o direito de um aluno trans ser chamado pelo nome social ou reivindica adaptações para estudantes com deficiência, muitas vezes ela se torna alvo de retaliações.”

A advogada também frisou que o debate sobre saúde mental das mulheres não pode se restringir apenas às mulheres.

“Se as mulheres são os alvos dessas discriminações, certamente não são as causadoras. Precisamos de aliados.”

Romper o silêncio e transformar diagnóstico em ação

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O presidente da FEPESP, Ailton Fernandes, afirmou que o diagnóstico apresentado na live evidencia um dos principais entraves no enfrentamento ao assédio moral e sexual: a autocensura imposta às mulheres por uma cultura que naturaliza a violência e desloca a culpa para as vítimas.

“A autocensura é terrível. A mulher se sente reprimida por estar se expondo, como se a culpa fosse dela. Essa cultura precisa ser enfrentada, e debates como esse são fundamentais para romper esse silêncio”, afirmou.

Ele ressaltou a importância da documentação dos casos de violência como instrumento de responsabilização e transformação social.

“Quando a prova é cabal, não dá para a Justiça fechar os olhos. Isso tem um caráter educativo.”

Ao parabenizar a Secretaria da Mulher da CONTEE, Ailton Fernandes concluiu: “Esse debate é mais do que necessário. Ele é civilizatório.”

Saúde mental como pauta permanente

No encerramento da live, Edilene Arjoni agradeceu ao coordenador-geral da Contee, Railton Souza, à diretoria executiva e plena da entidade, bem como à presença de Maria Marta Cerqueira, coordenadora da Secretaria de Formação da Contee e dirigente do Sinpro-Rio, e do presidente da Fepesp, Ailton Fernandes, além da ampla participação do público que acompanhou a transmissão ao vivo.

Edilene reiterou que a saúde mental das mulheres trabalhadoras da educação é uma questão de direitos, de condições de trabalho e de política pública, e que a Contee seguirá tratando o tema de forma contínua, coletiva e estruturante, para além de datas simbólicas, fortalecendo a escuta, a prevenção e o enfrentamento das violências no cotidiano educacional.

Por Romênia Mariani

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