O custo da guerra para as trabalhadoras e os trabalhadores
Tensões militares entre EUA, Israel e Irã ameaçam agravar crise humanitária e pressionar combustíveis e alimentos em todo o mundo.
O atual conflito militar no Oriente Médio não pode ser compreendido sem considerar o papel desempenhado pelos Estados Unidos na região. Washington mantém presença militar no Oriente Médio há décadas e atua como principal aliado político e militar de Israel. A ofensiva ocorre em um contexto de disputa estratégica por influência geopolítica e controle das rotas energéticas do Golfo Pérsico, região que abriga algumas das maiores reservas de petróleo do planeta e por onde passa uma parcela significativa do petróleo comercializado no mundo.
O papel dos Estados Unidos vai além da presença direta no Oriente Médio. O país concentra cerca de 40% dos gastos militares mundiais, como destaca o professor Bernardo Rodrigues, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ. Cinco grandes empresas do país atuam na produção de armas e serviços militares, transformando a guerra em um verdadeiro motor econômico para o país, mesmo quando a população civil paga o preço com mortes, deslocamentos e crises humanitárias.
O conflito militar rapidamente se refletiu nos mercados internacionais de energia. Sempre que tensões atingem regiões produtoras de petróleo ou rotas estratégicas de transporte, o preço do barril tende a subir. O Oriente Médio concentra algumas das maiores reservas de petróleo do mundo e abriga um importante corredor para o comércio mundial de energia: o Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente. Qualquer ameaça à navegação nesse corredor provoca reações imediatas nos mercados financeiros.
Quando o preço do petróleo sobe, o efeito dominó se espalha rapidamente pela economia. A alta do diesel encarece o frete e o transporte público. O transporte escolar sofre pressão sobre os custos. Os preços de alimentos inflacionam a cesta básica. O gás de cozinha pesa mais no orçamento familiar.
A vulnerabilidade do Brasil às oscilações internacionais do petróleo revela a importância de uma estratégia nacional de soberania produtiva. Mesmo sendo produtor de petróleo, o país não controla sua cadeia energética e depende de preços definidos em mercados distantes e instáveis, transferindo para sua população trabalhadora o custo de cada crise geopolítica.
O aumento do preço dos alimentos pressionando a cesta básica, o combustível mais caro e o gás de cozinha pesando cada vez mais no orçamento: todos pagam a conta de uma guerra que parece distante, mas que chega aqui através dos preços. Fortalecer a capacidade industrial nacional, garantir autonomia na produção de energia e alimentos e reduzir dependências estruturais são condições para que o Brasil proteja suas trabalhadoras e seus trabalhadores dos custos de guerras que não escolheram travar.
Enquanto complexos industriais militares e grandes corporações energéticas acumulam lucros em contextos de instabilidade, populações civis enfrentam destruição, mortes e deslocamentos forçados. Um dos aspectos mais dramáticos da atual intensificação militar é o aumento do número de crianças mortas e feridas nos ataques. O próprio início da nova fase do conflito foi marcado por um episódio de enorme gravidade: um bombardeio que atingiu uma escola no Irã, provocando a morte de centenas de meninas. O ataque provocou indignação internacional e simboliza a brutalidade da guerra.
Como destaca Cristina Castro, coordenadora da Secretaria de Relações Internacionais da Contee, quando bombardeios atingem escolas e crianças – espaços que deveriam ser protegidos pelo mais elementar princípio humanitário – o que está em jogo não é apenas uma estratégia militar, mas a própria ideia de humanidade.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) tem alertado para o crescimento alarmante de vítimas infantis nos conflitos recentes no Oriente Médio. Segundo a organização, milhares de crianças já foram mortas ou feridas em diferentes episódios de bombardeios e operações militares, enquanto milhões vivem sob risco permanente de violência, deslocamento forçado e colapso de serviços básicos. São vítimas de disputas geopolíticas pelas quais não têm qualquer responsabilidade.
De um lado, crianças e famílias inteiras vivem o drama cotidiano da guerra. De outro, trabalhadoras e trabalhadores em diferentes países lidam com o aumento do custo de vida provocado pela instabilidade econômica global. Os efeitos dos conflitos armados atingem populações civis, comprometem gerações e corroem as bases da convivência humana.
A defesa da paz é um compromisso com a humanidade. Fortalecer o diálogo entre nações, o respeito ao direito internacional e as soluções diplomáticas é essencial para evitar que conflitos continuem produzindo destruição e sofrimento. São sempre as trabalhadoras e os trabalhadores os primeiros a pagar o preço das guerras e das crises que elas provocam.
Por Antônia Rangel





