O limite da diversidade

Como produções audiovisuais constroem personagens racializados para serem rejeitados e os apagam quando passam a disputar o centro da narrativa

Desde que as grandes plataformas de streaming passaram a disputar não apenas audiência, mas também legitimidade cultural, tornou-se comum o discurso de que as produções audiovisuais contemporâneas seriam mais diversas, inclusivas e representativas. No entanto, uma observação mais atenta revela que, em muitos casos, essa diversidade opera dentro de limites bastante controlados. Personagens racializados, especialmente personagens não brancos, são frequentemente escritos de modo a provocar antipatia no público: são arrogantes, inconvenientes, agressivos, moralmente ambíguos ou deslocados da empatia narrativa central. Quando, apesar disso, o público cria laços afetivos com esses personagens, a resposta recorrente não é aprofundá-los, mas apagá-los.

A série Stranger Things é um exemplo paradigmático desse mecanismo. Embora frequentemente celebrada por sua nostalgia afetiva e por seu elenco carismático, a produção reproduz uma lógica bastante conhecida na indústria cultural: personagens brancos ocupam o centro da narrativa, enquanto personagens racializados orbitam a história como elementos auxiliares, experimentais ou descartáveis. Quando não cumprem o papel esperado, isto é, quando deixam de ser toleráveis apenas enquanto periféricos, tornam-se incômodos demais para permanecer.

A personagem Erica Sinclair surge inicialmente como uma figura construída para provocar rejeição. Sua personalidade é marcada por sarcasmo constante, ironia agressiva e uma postura de enfrentamento que, em personagens brancos, costuma ser lida como carisma ou força, mas que, em corpos negros, é frequentemente associada à antipatia. Erica não é introduzida como alguém a ser compreendida, mas como um elemento de tensão: a criança “insuportável”, que fala demais, exige demais e questiona demais. Ainda assim, o público não apenas a aceita, como passa a abraçá-la, transformando-a em uma das figuras mais citadas, comentadas e celebradas da série.

Esse sucesso, no entanto, não se converte em centralidade narrativa. Ao contrário: conforme Erica ganha visibilidade, sua presença é diluída, suas falas passam a operar como alívio cômico pontual, e seu potencial narrativo permanece sistematicamente contido. Ela não se torna protagonista, não atravessa arcos emocionais profundos, não ocupa o centro da experiência afetiva da série. É mantida em um espaço seguro para a branquitude da narrativa: visível o suficiente para sinalizar diversidade, irrelevante o suficiente para não desestabilizar a hierarquia racial da história.

O caso de Kali (008) é ainda mais revelador. Introduzida como uma personagem poderosa, complexa e moralmente ambígua, Kali, uma mulher indiana, de pele marrom, rompe com o arquétipo da personagem racializada secundária e oferece, pela primeira vez na série, uma alternativa real de protagonismo fora do núcleo branco tradicional. Sua história dialoga com temas como trauma, vingança, marginalização e sobrevivência, temas centrais à própria lógica da série. Ainda assim, a recepção do público foi dividida, em parte porque a narrativa pareceu pouco disposta a construir empatia gradual com a personagem. Kali é apresentada de forma abrupta, deslocada do ritmo principal, quase como um corpo estranho à própria série.

Quando parte significativa do público rejeita essa personagem, rejeição que não pode ser dissociada de marcadores raciais, de gênero e de pertencimento étnico, a resposta da produção não é reelaborar sua história, mas reafirmar sua condição de excesso. Após ser isolada narrativamente por temporadas, Kali retorna na última temporada com uma personalidade ainda mais endurecida, menos mediada por empatia e mais próxima do estereótipo da figura perigosa e descartável. Seu arco não é aprofundado: é encerrado. Kali é morta no final, selando definitivamente sua exclusão da narrativa. O que se elimina não é apenas a personagem, mas a possibilidade de que uma mulher racializada ocupasse um lugar de poder simbólico duradouro dentro da série.

Há, nesse processo, uma pedagogia silenciosa do afeto que orienta o olhar do público: aprende-se, reiteradamente, quem merece compreensão, quem pode errar sem ser descartado e quem precisa ser punido narrativamente por sua complexidade. Personagens racializados são frequentemente privados do direito ao arco longo, à contradição persistente e à redenção gradual, elementos amplamente concedidos a personagens brancos. Seus conflitos não amadurecem; são resolvidos pela contenção, pela diluição ou pela morte. A antipatia que lhes é atribuída não é apenas efeito de personalidade, mas produto de uma escrita que condiciona o público a associar corpos não brancos ao excesso, à instabilidade e ao risco. Assim, o que se apresenta como reação espontânea da audiência é, na verdade, resultado de uma arquitetura narrativa que distribui empatia de forma profundamente desigual.

Esses dois casos revelam uma lógica recorrente nas produções audiovisuais contemporâneas: personagens racializados são tolerados enquanto não exigem centralidade, complexidade ou continuidade. Quando são escritos para serem “difíceis”, espera-se que o público os rejeite. Quando, inesperadamente, o público os ama, a narrativa trata de contê-los ou eliminá-los. A diversidade, assim, não opera como redistribuição real de poder narrativo, mas como gestão simbólica da diferença.

No fim, o que essas escolhas revelam não é um problema de personagens, mas de estrutura. A indústria cultural aceita corpos racializados desde que eles não disputem o centro da história. Quando disputam, tornam-se excessivos. E quando se tornam excessivos, são silenciados. O apagamento, nesse sentido, não é falha de roteiro, é projeto.

Gabriella von Flebbe é mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Sociologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Jornalista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especialista

Fonte
Diplomatique

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