O machismo mata todos os dias. O feminismo nunca matou ninguém
Por Cris Castro*
Eu tinha apenas 11 anos quando aconteceu o caso Doca Street e o assassinato de Ângela Diniz. Lembro do papai, agricultor, um homem sem estudo formal, mas de uma inteligência e sabedoria extraordinárias, profundamente indignado com o que havia acontecido. Ele dizia que nenhum homem tem o direito, por motivo algum, de matar uma mulher. Nenhuma mulher deve sofrer qualquer tipo de violência.
Acho que ali se reforçou o meu lado feminista, porque sabiam que existiam homens como o papai, mas também existiam muitos “Docas Street” pelo mundo. E ser feminista se tornou, para mim, a forma de enfrentar essa cruel realidade, de lutar para que nenhuma mulher seja silenciada, violentada ou morta, e para que a indignação se transforme em ação coletiva por justiça e dignidade.
O que assusta são os comentários que surgem diante de casos recentes de violência extrema. No episódio envolvendo o secretário da Prefeitura de Itumbiara (GO), a reação de parte das pessoas nas redes sociais revela algo profundamente apavorante. Em vez de indignação absoluta diante do fato de um homem atirar contra os próprios filhos e tirar a própria vida, surgem justificativas e racionalizações inaceitáveis. Há comentários que chegam ao extremo de afirmar que ele “deveria ter matado a mulher e não as crianças”, o que evidencia o quanto, para alguns, matar uma mulher ainda aparece como algo possível de ser cogitado, como se fosse uma alternativa dentro de um raciocínio perverso. Isso é aterrador.
E, pasme, não há nenhum indício de veracidade do que teria gerado esses comentários absurdos feitos por internautas. Circulam apenas suposições e insinuações, com alegações de possível infidelidade, usadas como combustível para justificar o injustificável. Mesmo sem qualquer comprovação, parte das pessoas se sente autorizada a construir narrativas que culpabilizam mulheres e tentam dar sentido a uma violência extrema. Isso revela o quanto o machismo ainda opera de forma automática e cruel: basta a suspeita, o boato, a invenção, para que se tente legitimar a barbárie.
Essas falas mostram como o machismo e a lógica patriarcal seguem naturalizando a violência contra as mulheres. A ideia de que a vida de uma mulher pode ser descartada em nome de honra, posse ou controle revela o quanto ainda estamos imersos em uma cultura que autoriza, simbolicamente, a eliminação do outro quando o homem se sente ferido em seu poder. São argumentos absurdos, desumanos, que demonstram a urgência de enfrentar o machismo como problema estrutural da sociedade.
Durante décadas, no Brasil, ainda se aceitava nos tribunais o argumento absurdo da chamada “legítima defesa da honra”, usado para tentar justificar feminicídios. Esse entendimento começou a ser desmontado ao longo dos anos, mas foi somente em 2021 que o Supremo Tribunal Federal proibiu de forma definitiva o uso dessa tese em julgamentos, afirmando que ela é inconstitucional e fere os princípios da dignidade humana e da igualdade de gênero. Ou seja, só muito recentemente a legislação e o sistema de justiça brasileiros afastaram formalmente essa herança brutal do patriarcado que, por tanto tempo, tentou transformar o assassinato de mulheres em algo justificável.
O patriarcado construiu, ao longo de séculos, a noção de que homens têm poder sobre a vida das mulheres e das crianças, como se fossem propriedades. Essa lógica de posse e dominação alimenta a violência e, quando a sociedade relativiza ou tenta compreender o injustificável, ela reforça esse sistema. Não se trata de casos isolados, mas de uma estrutura que precisa ser combatida com firmeza.
Também é impossível ignorar o absurdo de uma sociedade que naturaliza a circulação de armas e defende o armamento generalizado como se isso significasse segurança. A ampliação do acesso às armas não protege vidas; ao contrário, aumenta o risco de tragédias e assegura a prática da violência extrema. Em contextos de conflito, de ciúme, ou de ódio, a presença de uma arma transforma situações que poderiam ser resolvidas sem morte em episódios irreversíveis. Quem morre, na maioria das vezes, são mulheres, crianças e pessoas inocentes. Defender que todos andem armados é alimentar uma lógica de enfrentamento permanente, de medo e de eliminação do outro, que só aprofunda a barbárie.
É urgente fortalecer a educação para a igualdade, a responsabilização dos agressores, as políticas públicas de proteção e uma cultura que rejeite qualquer tentativa de justificar a violência. Nenhuma mulher pode ser tratada como alvo possível. Nenhuma criança pode ser vítima de uma lógica de posse. O combate ao machismo, ao patriarcado e à cultura da violência é uma luta civilizatória e profundamente humana.
Cristina Castro, Coordenadora da Secretaria de Relações Internacionais da Contee





