Plano de Bolsonaro é acabar com a organização da classe trabalhadora. Entenda

Programa de governo do candidato do PL amplia acordos individuais, reduz a proteção coletiva e omite propostas para salário mínimo, igualdade salarial, trabalho por aplicativos e fim da escala 6x1

Férias, 13º salário, descanso semanal remunerado, jornada limitada, licença-maternidade, adicionais por trabalho perigoso ou insalubre e reajustes acima da inflação. Esses e muitos outros direitos não foram presentes de patrões nem concessões espontâneas de governos. Foram conquistados pela organização, pelas greves e pela pressão do movimento sindical.

É justamente essa capacidade de organização coletiva que o plano de governo do candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, pretende enfraquecer.

Intitulado “Para o Brasil Vencer o Atraso”, o programa dedica uma seção ao tema sindical sob o título “O trabalhador em primeiro lugar, não o sindicato”. A frase tenta colocar em lados opostos o trabalhador e a entidade criada para representá-lo.

O plano defende a ampliação da negociação direta entre empresas e empregados, a prevalência do negociado sobre o legislado e a flexibilização das regras de contratação. Na prática, quer deixar cada trabalhador sozinho diante de quem controla o emprego, o salário e o poder de demitir.

A suposta liberdade de negociação, portanto, esconde uma relação profundamente desigual. Sem a organização coletiva, a escolha oferecida ao trabalhador muitas vezes se resume a aceitar as condições impostas ou perder o emprego.

“O projeto de acabar com os sindicatos tem o objetivo de eliminar a resistência da classe trabalhadora à exploração total!! É o mesmo projeto que está por trás da reforma trabalhista!! E de lá pra, desde 2017, o que aconteceu? A precarização do trabalho só aumentou”, diz a secretária nacional de Organização Sindical da CUT, Graça Costa.

Liberdade para quem?

Como é de costume da extrema direita desqualificar toda e qualquer iniciativa de proteção da classe trabalhadora, Flávio Bolsonaro afirma que sindicatos e dirigentes colocam seus próprios interesses acima dos interesses dos trabalhadores. Também critica a participação sindical na formulação de políticas públicas, embora a Constituição determine que cabe aos sindicatos defender os direitos coletivos e individuais das categorias e participar das negociações coletivas.

O discurso da “liberdade individual”, disseminada pelo candidato serve de base para propostas que hipoteticamente reduzem o custo da contratação para as empresas e colocam os ônus na costas do trabalhador e da trabalhadora. O programa prevê contratos com menor custo na folha para jovens de 18 a 24 anos e modalidades consideradas “mais atrativas” aos patrões para pessoas com mais de 50 anos que estejam desempregadas há pelo menos 12 meses.

Em vez de propor empregos melhores, salários maiores e proteção social, o plano transforma a redução de direitos em vantagem para a contratação.

A receita não é nova. Durante o governo de Jair Bolsonaro, a chamada Carteira Verde e Amarela também tentou estimular empregos por meio da diminuição de encargos e garantias trabalhistas. O resultado dessa lógica é separar trabalhadores que exercem funções semelhantes, mas recebem proteção e direitos diferentes.

6×1: Sem proposta para reduzir a jornada

O plano de Flávio Bolsonaro não assume compromisso com o fim da escala 6×1 nem com a redução da jornada para 40 horas semanais.

Enquanto milhões de brasileiros reivindicam mais tempo para descansar, cuidar da família, estudar e viver, o programa fala em jornadas flexíveis e acordos diretos entre patrões e empregados.

Aliados do candidato também atuaram no Senado para dificultar o avanço da proposta aprovada pela Câmara que reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas e garante dois dias de descanso por semana.

O plano do candidato, por sua vez, reafirma o “negociado sobre o legislado” e não apresenta uma alternativa concreta para acabar com a rotina de seis dias de trabalho para apenas um de descanso.

Esta não é uma discussão abstrata. A limitação da jornada de trabalho também foi conquistada pela mobilização sindical. A jornada de oito horas esteve entre as reivindicações da Greve Geral de 1917. Décadas depois, a pressão dos trabalhadores durante a Constituinte garantiu a redução do limite semanal de 48 para 44 horas.

Como mostra a história, se dependesse apenas dos interesses empresariais, essas mudanças dificilmente teriam ocorrido.

Flavio desmerece o Bolsa Família

A ausência de propostas concretas para melhorar a vida da população de baixa renda também aparece no discurso de Flávio Bolsonaro sobre o Bolsa Família.

Depois de o governo federal anunciar um reajuste de 15,04% no benefício, elevando o valor mínimo de R$ 600 para R$ 691, o candidato chamou o aumento de “ilegal”, classificou os R$ 90 adicionais como “merreca” e acusou o governo de tentar “comprar votos dos pobres”.

O deputado Zé Trovão, também do PL, chegou a apresentar uma ação no Tribunal Superior Eleitoral para suspender o reajuste.

O episódio reforça uma contradição: ao mesmo tempo que critica o reajuste destinado às famílias mais pobres, o programa do candidato apresenta medidas voltadas à redução de custos e encargos para o setor empresarial.

O que não aparece no programa

As ausências também revelam as prioridades de um projeto de governo.

O plano de Flávio Bolsonaro não apresenta compromisso explícito com uma política permanente de valorização real do salário mínimo. Também não traz uma estratégia estruturada para combater a pejotização fraudulenta, proteger trabalhadores por aplicativos ou assegurar igualdade salarial entre mulheres e homens.

Não há destaque equivalente para o combate ao trabalho infantil, ao trabalho análogo à escravidão ou para o fortalecimento da economia solidária e popular.

O trabalho aparece principalmente como um custo a ser reduzido. O trabalhador é tratado como alguém que deve se adaptar sozinho ao mercado, tornar-se empreendedor ou aceitar contratos mais flexíveis. A responsabilidade das empresas e do Estado pela garantia de empregos dignos fica em segundo plano.

Se não fosse o movimento sindical

Sem o movimento sindical, o trabalhador não teria quem negociasse coletivamente salários, benefícios, jornadas e condições de trabalho.

Foi a luta organizada que ajudou a conquistar:

  • Salário mínimo e política de valorização: sindicatos e centrais pressionam permanentemente por reajustes acima da inflação e aumento do poder de compra.
  • 13º salário: aprovado em 1962 depois de greves e mobilizações enfrentarem a oposição de setores empresariais que diziam que o direito quebraria o país.
  • Jornada limitada e descanso remunerado: a mobilização operária garantiu limites ao tempo de trabalho, repouso semanal e férias sem perda de salário.
  • Licenças maternidade e paternidade: a negociação coletiva abriu caminho para a ampliação de prazos e para o reconhecimento das responsabilidades familiares.
  • Auxílio-creche: acordos e convenções coletivas garantiram o benefício em diversas categorias.
  • Saúde e segurança: adicionais de insalubridade e periculosidade, comissões de prevenção, equipamentos de proteção e reconhecimento de doenças como LER/Dort resultaram de pressão e negociação.
  • Proteção contra o desemprego: seguro-desemprego, FGTS, aviso-prévio proporcional e outras garantias protegem o trabalhador e sua família depois da demissão.
  • Combate ao assédio e à discriminação: cláusulas coletivas criaram canais de denúncia, medidas contra o racismo, proteção às mulheres vítimas de violência e punições para práticas discriminatórias.
  • Direitos LGBTQIA+: sindicatos conquistaram a extensão de planos de saúde e outros benefícios a casais homoafetivos antes mesmo do reconhecimento nacional dessas uniões.
  • Direitos no trabalho remoto: ajuda de custo, fornecimento de equipamentos, controle da jornada e direito à desconexão passaram a integrar acordos coletivos.
  • Proteção diante das novas tecnologias: sindicatos negociam limites para o controle por algoritmos, uso de inteligência artificial, metas abusivas e monitoramento dos trabalhadores.

Essas conquistas mostram por que enfraquecer sindicatos interessa a quem pretende reduzir salários, ampliar jornadas e retirar direitos. Um trabalhador isolado pode ser pressionado. Uma categoria organizada tem força para negociar.

Organização coletiva é democracia

O sindicato não substitui o trabalhador. É o instrumento por meio do qual trabalhadores de uma mesma categoria transformam necessidades individuais em reivindicações coletivas.

É também essa organização que permite fiscalizar empresas, denunciar abusos, negociar participação nos lucros, ampliar benefícios e impedir que avanços tecnológicos sejam usados apenas para cortar empregos e intensificar o trabalho.

O plano de Flávio Bolsonaro não oferece uma política consistente de valorização do trabalho. Oferece contratos mais baratos para as empresas, acordos individuais em relações desiguais e menos espaço para a representação coletiva.

Ao atacar sindicatos, o candidato não combate privilégios. Ataca a capacidade de trabalhadores e trabalhadoras se organizarem para conquistar e defender direitos.

A história mostra o que aconteceria sem essa organização. Se não fosse o movimento sindical, muitos dos direitos que hoje fazem parte da vida dos brasileiros simplesmente não existiriam. E, sem sindicatos fortes, nenhum deles está definitivamente protegido.

Fonte
CUT

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
2026 filmleri izle